Lumiar

“Nós somos os sonhos daquelas que vieram antes.” – Verónica Valenttino

Verónica Valentino é uma das sete atrizes que estrelam a capa da Lumiar de agosto, edição especial da Pitaya dedicada ao teatro e às diferentes trajetórias que se encontram em 7 Mulheres e um Mistério – O Musical. Em conversa com a revista, ela fala sobre a relação entre arte e identidade, a personagem Marguerita Rompicapo, a possibilidade de ocupar novos lugares como atriz travesti e os caminhos que encontrou no teatro para existir, criar e transformar. | Foto: Priscila Prade

Foi no porão do Teatro José de Alencar, em Fortaleza, que nasceu Verónica Valenttino.

Não apenas a atriz. Também a mulher.

Uma capa, sete histórias. Depois de ler a entrevista com a Verónica, descubra também os outros seis perfis que compõem a Lumiar de agosto e as diferentes trajetórias que chegam ao palco de 7 Mulheres e um Mistério – O MusicalContinue a leitura.

É assim que ela define o lugar que o palco ocupa na sua trajetória. Um espaço onde sua identidade foi revelada pela arte e que permanece como algo essencial.

“Foi no porão do Teatro José de Alencar, em Fortaleza, que nasceu não apenas a atriz Verónica, mas também a mulher Verónica. Minha identidade foi revelada a partir da arte.”

O palco, para ela, não é apenas um lugar de trabalho.

“É um lugar que é o mais precioso para mim, inegociável, intocável e absolutamente sagrado.”

É também a partir desse lugar que Verónica chega a 7 Mulheres e um Mistério – O Musical. O que primeiro a aproximou do projeto foi a possibilidade de criar em conjunto.

“O que me fez me apaixonar por esse projeto, inicialmente, foi a possibilidade de estar em cena, de construir juntas, de contracenar, de criar junto a esse bonde de atrizes grandiosas que eu tanto admiro.”

Ao receber o convite, ela se viu diante da oportunidade de dividir o processo com outras artistas que admira.

“Eu sou uma atriz travesti e uma atriz criadora.”

A partir dessa perspectiva, encontrou seu lugar na montagem pela vontade de construir coletivamente.

“Fui encontrando meu lugar justamente por esse amor, por esse desejo de construir juntas e por esse ímpeto de ir.”

Sua personagem, Marguerita Rompicapo, trouxe um desafio diferente.

Dona da casa, esposa e mãe, Marguerita é uma mulher que abriu mão de seus próprios sonhos para construir uma família. Para Verónica, interpretar essa personagem significou ocupar um espaço que ainda é pouco oferecido às atrizes travestis.

“Como atriz travesti, normalmente os papéis designados a nós sempre estão dentro dessa roupa travesti que nos veste. E essa é uma personagem que está fora.”

Na história, a mulheridade da personagem não é colocada em questão. Seus conflitos aparecem em outros lugares: nos desejos, nas relações, nas escolhas e nas contradições humanas.

“Eu posso ser uma mãe, uma esposa, uma dona de casa, com todas as complexidades de uma mulher que luta pela sua independência e pela liberdade de viver.”

É justamente essa possibilidade que mais desperta seu interesse na personagem.

“O que mais me encanta é justamente poder interpretar uma mulher cuja complexidade não está centrada no fato de ser, de existir.”

Para Verónica, Marguerita permite explorar uma construção que vai além daquilo que historicamente foi oferecido às atrizes travestis.

“Ela vive conflitos humanos, familiares e afetivos. Isso me permite explorar lugares que, infelizmente, ainda são pouco oferecidos às atrizes travestis.”

Dentro da peça, o mistério também aparece nas relações entre essas mulheres. Verónica prefere preservar os acontecimentos da trama, mas destaca uma cena específica que, para ela, representa o espírito da montagem.

“Existe uma cena, logo no finalzinho do primeiro ato, que eu acho que é bem a cara desse nosso encontro.”

Uma cena que reúne essas personagens dentro de uma mesma casa e que aproxima o público dessa convivência.

“É uma cena muito gostosa, compartilhada de forma muito viva com o nosso espectador.”

Para Verónica, a força da história está justamente nessas mulheres apresentadas em suas múltiplas camadas.

“O que torna essa história universal é o fato de termos em cena sete mulheres vivas, cheias de anseios, de complexidades, de desejos e de ímpeto por uma vida plena, uma vida livre, uma vida sem julgamentos.”

Mesmo ambientada em um universo de mistério e farsa, a peça toca em questões que permanecem presentes.

Ela fala sobre mulheres tentando existir plenamente, sobre expectativas impostas e sobre a busca por liberdade.

“Nessa peça, por mais que ela não seja panfletária, ela está no lugar do feminino, não necessariamente do feminista, mas no lugar da força feminina.”

Para Verónica, essa força está na capacidade de continuar existindo apesar dos limites impostos.

“Fala sobre uma mulheridade capaz de burlar, de hackear qualquer sistema para continuar existindo, para permanecer viva e se sentir potente.”

A relação de Verónica com a arte começou antes mesmo da profissão. Ela conta que foi uma criança que já carregava uma inquietude de existir como era.

“Eu fui uma criança viada.”

Essa lembrança permanece ligada à resistência e à necessidade de afirmar sua própria existência.

“Acho que minha maior lembrança da infância é justamente essa resistência por uma existência, essa inquietude de ser quem se é.”

Foi na arte que essa existência encontrou espaço para se revelar.

“A arte me curou. A arte me revelou.”

A arte também foi o caminho pelo qual Verónica encontrou uma comunidade e uma possibilidade de transformação.

Sua formação artística nasceu dentro do coletivo As Travestidas, em Fortaleza, formado por corpos dissidentes que encontraram no teatro um espaço para falar sobre suas próprias existências.

“Eu nasci artisticamente dentro do coletivo As Travestidas, em Fortaleza, formado por corpos dissidentes, travestis, drags, bichas, pessoas não binárias, periféricas, que se uniram para fazer teatro e tratar dessas questões por meio da arte.”

Para ela, esse encontro mudou a forma como enxergava seu próprio lugar no mundo.

“A arte me ajudou, me salvou, me revelou.”

Foi também ali que nasceu o desejo de cantar, de viver da música e do teatro. Para Verónica, a arte tem uma capacidade de atravessar as pessoas sem precisar pedir espaço.

“Ela não pede permissão para entrar. Ela te toca e finca na alma já nos primeiros acordes, na primeira palavra, no primeiro movimento de uma dança ou na primeira pincelada.”

Essa relação com a arte também mudou a forma como ela enxergava seus próprios caminhos.

“Eu posso acreditar que posso planejar, que posso ter sonhos a longo prazo, que posso viver da arte, não apenas daquele lugar marginal em que essa sociedade, ou esse sistema, tenta me colocar e me empurrar.”

Como atriz travesti e nordestina, Verónica fala sobre o corpo como parte de uma história maior.

“Eu gosto de pensar o meu corpo, a minha voz, o meu talento, a minha existência como instrumentos de uma transcestralidade que veio antes e que lutou tanto por mim, e que eu sou o sonho daquelas que vieram antes.”

Ela também faz uma distinção que atravessa sua maneira de enxergar a própria trajetória.

“Existe uma diferença entre brilhar e iluminar.”

Para Verónica, sua presença artística está ligada a algo coletivo, a uma continuidade construída por outras mulheres travestis que abriram caminhos antes dela.

“Nós somos os sonhos daquelas que vieram antes.”

Esse caminho também exigiu coragem. Um dos momentos importantes da sua trajetória foi a mudança para o Sudeste, quando novas possibilidades começaram a aparecer.

“A partir dali muita coisa se abriu, tanto na minha cabeça quanto na minha carreira.”

Nesse processo, encontrar outras artistas travestis também foi uma descoberta importante.

“Conheci outras artistas travestis, percebi que não estava sozinha e isso me fortalece muito.”

Mas, para Verónica, a coragem não está ligada apenas a grandes decisões. Ela atravessa o cotidiano.

“Sendo uma mulher travesti, todos os dias ainda exigem coragem. A primeira coisa que penso quando acordo é: ‘Mais um dia.’”

Um dia para continuar existindo diante dos desafios que ainda fazem parte da realidade de muitos corpos como o dela.

“Mais um dia para enfrentar preconceitos, olhares tortos, disforias e um sistema que quer o meu extermínio. Então a luta ainda não parou.”

Quando pensa em liberdade, Verónica amplia a discussão para além da própria trajetória.

Ela reconhece as conquistas de ocupar espaços antes negados, de ver outras travestis chegando ao teatro, à música, à política e a diferentes áreas, mas também fala sobre aquilo que ainda precisa mudar.

“Por mais que eu celebre também a minha liberdade de ser uma atriz que vive hoje exclusivamente da própria arte, apesar de celebrar a conquista de novos lugares ocupados por nós, de novos sonhos, das vitórias, dos prêmios que não só eu, mas outras manas travestis têm ganhado…”

Para ela, liberdade só estará completa quando esses espaços forem possíveis para todos os corpos.

“Eu só consigo pensar quando eu puder ver nossos corpos ocupando os lugares que quisermos. Simplesmente existindo, vivas, prósperas, saudáveis!”

E entre os sonhos que imagina para esse futuro está uma imagem que, para ela, representa uma mudança profunda.

“Eu quero ver uma presidenta travesti.”

Verónica não pensa essa construção de forma individual. Quando imagina sua própria história, pensa também em uma escrita coletiva.

Se a vida fosse dividida em capítulos, ela não sabe dizer exatamente em qual página está, mas acredita estar caminhando para um momento de vitória.

“Eu não sei em que página estou, mas sei que tenho, nas mãos, uma caneta e um livro com muitas páginas para, juntas, escrevermos esse roteiro de vitória.”

A palavra “juntas” aparece novamente porque, para ela, essa trajetória nunca foi construída sozinha.

“Eu acredito que, de bonde, a gente respira melhor.”

Hoje, ela reconhece a presença de corpos travestis ocupando espaços diversos: no Congresso, no cinema, no teatro musical, na pesquisa, na política, nas escolas e na literatura.

“A gente tem hoje um arsenal gigantesco de potencialidades e de corpos fortes ocupando esses espaços. E já começamos a escrever!”

No palco, na arte e na própria existência, Verónica Valenttino segue construindo essa escrita. Uma história que começou em um porão de teatro em Fortaleza, mas que continua sendo criada por muitas vozes, muitas trajetórias e muitas páginas ainda por vir.

 

 


A história não termina aqui. A Lumiar de agosto reúne sete atrizes, sete trajetórias e diferentes formas de olhar para 7 Mulheres e um Mistério – O MusicalConheça também os outros seis perfis da nossa capa.

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7 Mulheres e um Mistério - O Musical
Mayara Morelli

Sobre a autora

Mayara Morelli

Mayara Morelli é jornalista, publicitária e editora-chefe da Pitaya mag. Sua especialidade é moda e comportamento, mas a curiosidade costuma levá-la para outros lugares. Escreve sobre tudo aquilo que merece uma boa conversa. Ao longo da carreira, entrevistou artistas, escritores, estilistas e criadores de diferentes partes do mundo. Estudou moda na Università Bocconi, trabalhou com marcas do universo joalheiro no Brasil e em Dubai e atualmente aprofunda seus estudos em cultura e pensamento moderno e pós-moderno pela Wesleyan University. Fora da redação, divide a vida com quatro cachorros que ocupam muito mais espaço do que deveriam. E exatamente o espaço que merecem.

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