“Hoje já não sinto que preciso provar o meu valor o tempo todo.” – Malu Rodrigues
Malu Rodrigues é uma das sete atrizes que estrelam a capa da Lumiar de agosto, edição especial da Pitaya dedicada ao teatro e às diferentes trajetórias que se encontram em 7 Mulheres e um Mistério – O Musical. Em conversa com a revista, ela fala sobre amadurecimento, escolhas, medo, reinvenção e a relação entre humor e absurdo na nova montagem, além de refletir sobre a artista que se tornou ao longo dos anos. | Foto: Priscila Prade
Durante muito tempo, Malu Rodrigues acreditou que precisava conquistar espaço. Provar que era capaz. Buscar reconhecimento. Era esse o movimento que guiava o começo da carreira.
Hoje, a pergunta é outra.
Uma capa, sete histórias. Depois de ler a entrevista com a Malu, descubra também os outros seis perfis que compõem a Lumiar de agosto e as diferentes trajetórias que chegam ao palco de 7 Mulheres e um Mistério – O Musical. Continue a leitura.
“Quando eu comecei, eu queria provar que era capaz, conquistar meu espaço, respeito e reconhecimento. Acho que o mudou foi que hoje eu quero viver boas histórias.”
Ela continua apaixonada pelo palco, mas aprendeu a olhar para a profissão com outro ritmo.
“A maturidade me ensinou que a carreira não é uma corrida de velocidade, é uma construção.”
É por isso que, hoje, escolhe os projetos pensando também naquilo que eles despertam nela.
“Eu sou completamente apaixonada pelo que faço. Hoje, mais do que nunca, consigo escolher os projetos pensando também no que eles despertam em mim como artista e como pessoa.”
Essa fase da vida também aparece na maneira como enxerga a personagem que interpreta no novo espetáculo.
Bianca tenta sustentar uma imagem de perfeição enquanto esconde inseguranças e desejos que não cabem nas expectativas criadas sobre ela.
Para Malu, é impossível não reconhecer algo de universal nesse conflito.
“Quantas vezes a gente tenta corresponder ao olhar do outro antes de entender quem realmente é?”
Ela conta que a personagem a levou a pensar sobre autenticidade e sobre a coragem de assumir as próprias escolhas, mesmo quando elas não fazem sentido para todo mundo.
A própria peça também parte desse encontro entre contradições.
Malu gosta justamente das histórias que aproximam o humor da escuridão.
“Eu amo quando o humor e a escuridão caminham juntos, porque é assim que muitas vezes a vida acontece.”
Ela acredita que, muitas vezes, o riso nasce justamente das situações mais difíceis.
“Às vezes a gente ri das situações mais absurdas justamente pra conseguir olhar pra elas de um outro jeito e até mesmo pra seguir em frente.”
É isso que mais a encanta na montagem.
“O que eu mais gosto nessa peça é exatamente isso, ela abraça esse absurdo sem medo.”
Durante os ensaios, outro aspecto chamou sua atenção.
Foi perceber como mulheres com trajetórias tão diferentes conseguiram construir uma mesma linguagem em cena.
“O que mais me surpreendeu foi perceber como um elenco tão grande e de mulheres tão potentes conseguiu construir uma linguagem em comum juntas.”
Cada personagem carrega um universo próprio, mas todas acabam formando um grande quebra-cabeça.
Como atriz, Malu conta que foi especialmente estimulante encontrar o equilíbrio entre o realismo fantástico e o teatro do absurdo.
“É um equilíbrio delicado e muito estimulante.”
Ela acredita que o público também reconhecerá algo familiar naquela família extravagante.
Apesar das diferenças, todas as personagens compartilham contradições, segredos, desejos e fragilidades.
“Ninguém é feito de uma única camada.”
É justamente essa complexidade que, para ela, aproxima a história dos dias atuais.
Mesmo inspirada na atmosfera dos anos 1950 e nos clássicos do mistério, a peça continua falando sobre questões muito presentes.
“As máscaras que usamos, os segredos dentro das famílias, as expectativas colocadas sobre as mulheres e a busca por identidade.”
Segundo Malu, o tempo muda, mas as relações humanas continuam despertando as mesmas perguntas.
A música também faz parte dessa trajetória desde muito cedo.
Ela começou a cantar aos oito anos para vencer a timidez e aprender a se comunicar melhor. O plano inicial nunca foi construir uma carreira.
Mas a música permaneceu.
“Cantar é como respirar pra mim e também é uma forma de contar histórias.”
Mesmo quando a atuação ocupava mais espaço, ela nunca deixou de cantar.
Hoje já não sente necessidade de escolher entre uma linguagem e outra.
“As duas fazem parte de quem eu sou.”
Existe também uma diferença entre a Malu que sobe ao palco e a da vida cotidiana, embora menor do que muita gente imagina.
“Acho que a maior diferença é que no palco eu potencializo tudo, a emoção, a coragem, a presença e muitas vezes também a raiva e a tristeza. O palco é uma espécie de terapia pra mim.”
Fora dele, prefere outra velocidade.
“Na vida eu sou mais reservada, gosto do silêncio, de ficar pertinho da minha família, dos meus amigos que são família.”
Ainda assim, ela acredita que as duas versões nascem do mesmo lugar.
“A verdade e a sensibilidade são as mesmas.”
Ao longo dos anos, outra mudança importante aconteceu.
Em determinado momento, percebeu que precisava deixar de permitir que o medo conduzisse suas escolhas.
“Talvez tenha sido parar de aceitar que o medo decidisse por mim.”
Ela aprendeu que dizer “sim” para um desafio também faz parte da construção de uma carreira. E que dizer “não” para aquilo que já não faz sentido pode ser igualmente importante.
Quando fala sobre o futuro, Malu não demonstra vontade de chegar a um ponto definitivo.
Pelo contrário.
“Eu quero descobrir até onde eu consigo me reinventar.”
Ela gosta da ideia de continuar encontrando personagens que a desafiem, explorar novas linguagens e se permitir fazer coisas que talvez hoje ainda nem imagine.
“Quero continuar me surpreendendo.”
Essa abertura para o novo também transformou a forma como o público a enxerga.
Durante muito tempo, era lembrada principalmente pelos musicais.
Ela guarda esse período com carinho.
“Eu tenho muito orgulho da minha trajetória, porque ela me trouxe e me guiou pra onde eu cheguei.”
Mas hoje prefere não ocupar um único lugar.
“Eu me vejo como uma artista muito mais ampla.”
Ela continua trabalhando com a mesma dedicação, mas se permite correr mais riscos.
Crescer também trouxe outras descobertas.
A principal delas foi perceber que amadurecer não significa encontrar todas as respostas.
“Quando a gente é mais novo, a gente imagina que em algum momento tudo vai fazer sentido e que a vida vai ficar completamente sob controle.”
A experiência mostrou outra coisa.
“Amadurecer é justamente aprender a conviver com as incertezas sem deixar de seguir em frente.”
Se pudesse conversar com a própria versão de vinte anos, sabe exatamente o que diria.
“Que não existe problema em desacelerar.”
Também falaria sobre comparação, sobre respeitar o próprio tempo e sobre a liberdade de mudar de ideia.
“Mudar de ideia não é fracassar, é amadurecer e que nunca é tarde para nada.”
Como acontece com muitos artistas, alguns dos momentos mais importantes da carreira aconteceram longe dos olhos do público.
“Houve momentos em que precisei reencontrar a minha confiança e lembrar por que escolhi essa profissão.”
Ela diz que esses recomeços costumam acontecer em silêncio.
Só depois, olhando para trás, percebe que foram eles que a transformaram em uma artista mais madura, mais consciente e mais conectada com aquilo que realmente deseja contar.
Quando olha para a mulher que está se tornando, a palavra que escolhe é serenidade.
“Ainda tenho muitos sonhos e continuo extremamente apaixonada pelo meu trabalho, mas hoje já não sinto que preciso provar o meu valor o tempo todo.”
Ela aprendeu a confiar mais em si mesma.
“Acho bonito estar aprendendo a confiar mais em mim e entender que vulnerabilidade e força podem caminhar juntas.”
Talvez seja isso que tenha mudado. Não a paixão pelo palco, mas a forma de caminhar até ele.
A menina que começou cantando para vencer a timidez continua apaixonada pela arte. A diferença é que, hoje, já não parece correr para alcançar um destino. Caminha com mais calma, permitindo que cada personagem, cada escolha e até cada recomeço revelem novas versões de si mesma.
A história não termina aqui. A Lumiar de agosto reúne sete atrizes, sete trajetórias e diferentes formas de olhar para 7 Mulheres e um Mistério – O Musical. Conheça também os outros seis perfis da nossa capa.

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