“A arte me ajuda a estar mais viva.” – Letícia Soares
Letícia Soares é uma das sete atrizes que estrelam a capa da Lumiar de agosto, edição especial da Pitaya dedicada ao teatro e às diferentes trajetórias que se encontram em 7 Mulheres e um Mistério – O Musical. Em conversa com a revista, ela revisita o caminho que a levou a escolher a arte, fala sobre teatro musical, os encontros que marcaram sua trajetória, a personagem Beth Black e o que significa viver muitas vidas dentro de uma só. | Foto: Priscila Prade
Nem sempre Letícia Soares acreditou que viver de arte fosse uma possibilidade. O desejo existia, mas parecia distante demais para caber na realidade.
“Era tão remoto que parecia mais fácil ir para a Lua do que viver de arte.”
Uma capa, sete histórias. Depois de ler a entrevista com a Letícia, descubra também os outros seis perfis que compõem a Lumiar de agosto e as diferentes trajetórias que chegam ao palco de 7 Mulheres e um Mistério – O Musical. Continue a leitura.
Ela conta que passou anos reprimindo esse impulso, sem deixar, no entanto, de sentir a necessidade de se expressar.
“É muito louco perceber como eu fui reprimindo isso ao longo dos anos, até que não deu mais. E, quando não deu mais, foi aí que a arte entrou de verdade na minha vida.”
Foi apenas por volta dos 24 anos que começou a enxergar a possibilidade de construir uma carreira artística. Encontrou, também, um lugar onde reconheceu a si mesma.
“Quando eu me encontrei artista, foi como encontrar a mim mesma, me encontrar naquele cenário que, de fato, era eu.”
Ela lembra dessa descoberta como um caminho sem volta.
“Ser plena subindo num palco, ser plena cantando, ser plena tocando as pessoas com a arte. Quando isso começou a acontecer, o bichinho já tinha me picado de verdade. Aos trancos e barrancos, eu nunca mais parei.”
Quando olha para a própria trajetória, Letícia não fala de uma única grande virada, mas de três momentos que transformaram seu caminho. O primeiro aconteceu durante um Festival de Choro, promovido pela Escola Portátil de Música, no Rio de Janeiro.
Ela ainda se lembra das salas, dos instrumentos e das melodias se misturando pelos corredores.
“Foi uma coisa tão mágica que esse momento ficou impresso na minha alma.”
Naquela semana, algo mudou definitivamente.
Quando voltou para casa, encontrou os amigos e anunciou:
“‘Gente, eu quero ser cantora.'”
A resposta veio imediatamente.
“‘Mas você já canta.'”
Ela respondeu:
“‘Não… eu quero ser cantora.'”
O segundo momento veio pouco tempo depois. Dentro da própria Escola Portátil, soube de um teste para um musical de Paulo César Pinheiro. Não foi aprovada, mas acabou sendo convidada por João das Neves para participar de um workshop. Dali nasceu um espetáculo no CCBB do Rio de Janeiro e também a primeira crítica publicada sobre seu trabalho em um jornal, um marco que, segundo ela, ajudou a abrir a porta do sonho.
O terceiro aconteceu anos mais tarde, já aos 30. Depois de passar em um concurso público, tomou a decisão que mudaria sua vida: deixar a estabilidade para finalmente viver de arte.
Essa caminhada ganha agora um novo capítulo em um espetáculo que mistura suspense, música e humor.
Para Letícia, o diferencial da montagem está justamente na maneira como ela convida o público a participar da investigação.
“É um espetáculo que instiga mais do que simplesmente trazer a história. Vai fazendo a pessoa criar também, junto com as atrizes, o desfecho daquela investigação.”
Inspirada pelas grandes histórias de mistério, a peça faz o espectador acompanhar cada pista até o desfecho.
“Eu acho que isso vai ser uma delícia para quem assiste, poder estar ali um pouco junto da gente na investigação desse crime.”
Ao suspense se junta outro elemento que ela destaca com entusiasmo.
“Tem esse universo que o diretor está trabalhando, que é o universo da farsa. É a comédia de um jeito muito puro, uma comédia que traz muita leveza para o espetáculo.”
Sua personagem também chega para alterar completamente o rumo da narrativa.
“A minha personagem é um acontecimento.”
Beth Black aparece cercada de perguntas.
“Ela é mistério puro.”
Segundo Letícia, sua chegada muda o rumo da história e guarda tanto perguntas quanto respostas.
“Essa personagem traz em si mesma o mistério e também a solução de algumas partes desse mistério.”
Ela prefere parar por aí.
“Mas aí vocês vão ter que ver para poder entender.”
Os segredos atravessam toda a montagem. E ela olha para isso da mesma forma que enxerga a própria vida.
“Eu acho que a vida é um eterno revelar e esconder, revelar e esconder.”
Para ela, existe beleza justamente nesse equilíbrio.
“Acho que a nossa plenitude a gente deve guardar, isso é importante. Mas esse jogo de mostrar e esconder é o interessante da vida.”
Essa visão também aparece quando fala da relação entre suspense e comédia.
“O crime perfeito é cheio de erros.”
Ela acredita que basta mudar a forma de olhar.
“Se você olhar com outra lente, que não seja a do problema, do desespero, e olhar para esses mistérios, para esses dramas, eles são muito risíveis.”
E conclui:
“Acho que a comédia brota naturalmente dessas situações, se você colocar a lente certa.”
Nos bastidores, outro aspecto tem marcado esse processo.
O encontro com um elenco formado apenas por mulheres.
“O que me fascina é ter contato com as diferentes experiências.”
Ela conta que sua formação sempre foi muito empírica e que aprendeu sobretudo com as pessoas que encontrou pelo caminho.
“São sempre esses encontros que vão me ensinando e vão dando novas perspectivas para o meu trabalho.”
Cada atriz leva para a montagem uma bagagem diferente.
“Ver essas mulheres tão diferentes contando essa mesma história, cada uma trazendo a sua bagagem, a sua formação, a sua expertise, além das diferentes idades, é muito importante para mim.”
Ela observa essa diversidade com entusiasmo.
“Eu acho muito engrandecedor ver essa diversidade se materializando.”
E resume tudo de uma maneira muito própria.
“Eu vou colocando tudo isso na minha caixinha de coisas boas, na minha caixinha de bons encontros.”
Quando fala sobre o teatro, Letícia também fala sobre presença.
“O teatro é presente.”
Foi justamente essa característica que primeiro a encantou no teatro musical.
“O teatro musical me permitiu cantar sem necessariamente ser eu. Eu podia ser outra pessoa para fazer aquilo que eu mais amava, que era cantar.”
É dessa experiência que nasce sua maneira de construir personagens.
“Eu acho que é isso que me encanta: esse exercício de empatia que é preciso ter para viver um personagem. É assim que eu entendo. É assim que eu faço.”
A arte, para ela, também ajuda a compreender o mundo e o lugar que cada pessoa ocupa nele.
“A arte me ajuda a entender o mundo, a entender a importância da nossa voz na conjuntura da vida.”
Ela acredita que o artista carrega uma responsabilidade que ultrapassa o entretenimento.
“Eu acho que o artista tem uma função muito importante, muito além do entretenimento. É uma função de reflexão.”
Ao longo da carreira, costuma dizer que viveu muitas vidas sem sair da mesma.
“Eu costumo dizer que já vivi muitas vidas nessa mesma vida.”
Essa trajetória faz com que volte constantemente ao ponto de partida.
“Essa minha vida de artista, essa minha encarnação artista dentro da mesma vida, me faz sempre pensar de onde eu vim. E também me dá espaço para pensar para onde mais eu quero ir, o que mais eu quero fazer.”
E resume o que a arte representa em sua vida.
“A arte me ajuda a estar mais viva.”
Também lhe dá espaço para continuar sonhando.
“Me ajuda a abrir a boca para falar mais sobre sonhos e a continuar sonhando.”
Quando imagina como gostaria de ser lembrada, sua primeira resposta é simples.
“Acho que, em primeiro lugar, eu gostaria de ser lembrada.”
Ela fala da importância de reconhecer quem abriu caminhos antes dela e de preservar essas memórias.
Depois, fala do próprio legado.
Gostaria de ser lembrada como uma atriz preta que dedicou sua vida ao teatro musical, que se posicionou, construiu uma trajetória e ajudou a abrir espaço onde sua presença nem sempre era esperada.
Também espera que outras atrizes pretas encontrem mais possibilidades de sonhar, assim como ela encontrou graças às mulheres que vieram antes.
Hoje, quando olha para si mesma, percebe que também mudou.
“Hoje eu tenho mais condescendência comigo mesma.”
Aprendeu a lidar melhor com os próprios erros, tornou-se mais resiliente e entende que as mudanças nem sempre são percebidas no instante em que acontecem.
“Quando eu percebo, já está transformado.”
Talvez porque, para ela, nenhuma transformação aconteça de uma única vez.
“A transformação não vem numa dose cavalar. Ela vem em pequenas pílulas do cotidiano, que vão me tornando mais forte, mais atenta, mais resiliente, mais feliz, mais corajosa e, às vezes, até mais receosa.”
E é justamente assim que prefere encerrar a conversa.
“Porque é isso: estar viva, crescer e continuar se transformando.”
A história não termina aqui. A Lumiar de agosto reúne sete atrizes, sete trajetórias e diferentes formas de olhar para 7 Mulheres e um Mistério – O Musical. Conheça também os outros seis perfis da nossa capa.

Se este texto ficou com você...
“Nós somos os sonhos daquelas que vieram antes.” – Verónica Valenttino
Por Mayara Morelli
“O amor pelo que faço é o que me mantém trabalhando.” – Stella Miranda
Por Mayara Morelli
“Hoje já não sinto que preciso provar o meu valor o tempo todo.” – Malu Rodrigues
Por Mayara Morelli
Gostou desta leitura?
Assine a newsletter da Pitaya e receba histórias como esta quinzenalmente.
