“Acho que, no começo, existe uma paixão muito intensa pela profissão. Com o tempo, essa paixão vai se transformando em amor.” – Bruna Guerin
Bruna Guerin é uma das sete atrizes que estrelam a capa da Lumiar de agosto, edição especial da Pitaya dedicada ao teatro e às diferentes trajetórias que se encontram em 7 Mulheres e um Mistério – O Musical. Em conversa com a revista, ela fala sobre a construção das personagens, o trabalho coletivo no teatro musical, sua relação com a profissão, o Núcleo Experimental e o que considera a maior conquista de uma trajetória artística. | Foto: Priscila Prade
Bruna Guerin fala do teatro sem recorrer a grandes declarações. Em vez disso, prefere falar daquilo que sustenta um espetáculo quando as cortinas ainda nem se abriram: as relações, a escuta e o trabalho coletivo.
Uma capa, sete histórias. Depois de ler a entrevista com a Bruna, descubra também os outros seis perfis que compõem a Lumiar de agosto e as diferentes trajetórias que chegam ao palco de 7 Mulheres e um Mistério – O Musical. Continue a leitura.
Em 7 Mulheres e um Mistério – O Musical, foi isso que primeiro chamou sua atenção. Antes mesmo do suspense ou das reviravoltas, vieram as personagens.
“O que mais me surpreendeu quando li o texto pela primeira vez foi a forma como as personagens são muito bem definidas. Cada uma tem uma personalidade muito própria, um jeito de pensar e de agir completamente diferente das outras e, ao mesmo tempo, elas se complementam dentro da história.”
É justamente dessa complementaridade que nasce um dos maiores desafios da montagem. Num espetáculo em que qualquer personagem pode esconder uma verdade, o mistério depende menos de grandes revelações e mais da precisão. Um olhar, uma pausa ou um silêncio podem mudar completamente a forma como o público acompanha a história.
“Como todas as personagens podem ser suspeitas, ninguém pode entregar demais, mas também ninguém pode esconder tudo. Existe um equilíbrio muito delicado na construção.”
Na leitura de Bruna, a adaptação brasileira também ajuda a aproximar a obra do presente. A versão assinada por Anna Toledo desloca a história para questões que continuam atravessando muitas relações contemporâneas.
“Embora o único personagem masculino nunca apareça em cena, ele continua influenciando a vida de todas aquelas mulheres. De maneiras diferentes, cada uma orbita essa ausência, e isso fala sobre relações de poder, dependência e afeto.”
Em um musical, essas camadas não aparecem apenas no texto. A música amplia aquilo que as personagens nem sempre conseguem dizer.
“A personagem canta justamente quando a palavra já não basta. A canção mostra desejos, conflitos e vulnerabilidades que talvez passassem despercebidos apenas no texto.”
Essa ideia de construção coletiva também aparece quando fala do elenco. Bruna descreve os ensaios como um espaço de troca, onde diferentes gerações dividem experiências, discutem cenas e experimentam caminhos até encontrar um mesmo espetáculo.
“Cada atriz traz uma bagagem, um olhar e um jeito de trabalhar. A gente aprende, se diverte, discute as cenas, experimenta caminhos diferentes e vai construindo a peça juntas.”
Ao olhar para a própria trajetória, a atriz também evita romantizar a profissão. O entusiasmo do começo continua existindo, mas ganhou outra forma ao longo dos anos.
“No começo, existe uma paixão muito intensa pela profissão. Com o tempo, essa paixão vai se transformando em amor. É como acontece em qualquer relação: a gente deixa de idealizar e passa a conhecer a realidade, com as alegrias e as dificuldades que ela traz.”
Ela conta que, quando era mais nova, imaginava que o teatro responderia perguntas que, na verdade, pertenciam à própria vida. Com o tempo, percebeu que a força do ofício estava em outro lugar: na construção, no encontro e na possibilidade de refletir junto com o público.
“Hoje, o que mais me move é entender o teatro como um trabalho de construção, de encontro com o outro e de reflexão.”
Curiosamente, quando lembra de um momento decisivo da carreira, Bruna não escolhe um papel. Escolhe um lugar.
Foi no Núcleo Experimental, durante *Urinal, o Musical*, que encontrou artistas com quem compartilhava uma mesma maneira de pensar o teatro.
“Aquela experiência ampliou a minha confiança, porque me fez entender que existia um jeito de fazer teatro com o qual eu me identificava profundamente. Até hoje considero o Núcleo Experimental a minha casa.”
Essa visão também explica a disciplina com que encara o teatro musical. Para ela, a entrega não nasce apenas do talento, mas da preparação diária. Voz, corpo, resistência e técnica fazem parte de um trabalho que depende de muita gente funcionando em conjunto.
No fim da conversa, perguntamos sobre a maior conquista da carreira. Ela não cita um espetáculo, um prêmio ou uma personagem.
Fala do momento em que uma história continua existindo depois que termina.
“Quando penso em conquista, penso na certeza de que um trabalho realmente encontrou um lugar em alguém. Quando alguém compartilha que um espetáculo mudou a sua forma de olhar para alguma questão, despertou uma lembrança ou fez companhia em um momento importante da vida, eu tenho a confirmação de que aquele trabalho alcançou algo que vai muito além do palco. Essa, para mim, é a maior conquista.”
A história não termina aqui. A Lumiar de agosto reúne sete atrizes, sete trajetórias e diferentes formas de olhar para 7 Mulheres e um Mistério – O Musical. Conheça também os outros seis perfis da nossa capa.
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