“A ficção me curou”
O Caminho de Vanessa S. Silva até o Pódio dos Romances de Fórmula 1
Às vezes, a vida escreve histórias dignas de cinema. O caminho de Vanessa Silva até escrever seu romance de estreia parece o início de um filme. Em novembro de 2024, uma empresa decidiu demiti-la, deixando-a desempregada e cuidando de um familiar:
“Sem trabalho. Sem dinheiro. Cuidando de um membro da família com câncer. E com muitas responsabilidades, eu precisava fazer algo. Rápido. Estava me candidatando a vagas e sendo rejeitada ou ignorada. Então resolvi olhar para meus hobbies e paixões e pensei no que eu amaria fazer como profissão – mesmo que o pagamento fosse mínimo ou inexistente – e foi aí que tudo fez sentido para mim.”
Nos filmes, a demissão seria o ponto de partida. A protagonista descobriria a escrita porque não teria mais nada. Mas a vida de Vanessa não seguiu esse roteiro: criativa desde pequena, ela começou brincando com Lego, depois se apaixonou por música japonesa e iniciou um projeto paralelo com podcast, canal no YouTube e blog, tudo voltado a resenhas musicais.
“A realidade me machucou, a ficção me curou,” diz Vanessa. “Aquelas ideias malucas que eu tinha quando era criança voltaram, e eu comecei a colocar minhas paixões no papel – escrevendo minha primeira fanfic em 2010 (nunca publiquei em lugar nenhum porque tinha medo de críticas e, como a escrita era terapêutica para mim, não queria ninguém invadindo meu espaço seguro).”
Por necessidade, Vanessa decidiu publicar seus textos. O mundo às vezes te coloca contra a parede, forçando a escolher entre afundar ou nadar. Vanessa escolheu mergulhar de cabeça em um sonho. O resultado?
Seu romance de estreia “Racing for Redemption” será lançado em agosto.
A história gira em torno de Violet Colton, chefe de equipe de uma escuderia de Fórmula 1 em dificuldades. Após um incidente público com o talentoso — porém teimoso — piloto William Foster, Violet decide dar uma nova chance a ele. Juntos, tentam trazer a equipe do fim do grid de volta aos pontos.
“Meu pai trabalha no setor automotivo há 50 anos – funilaria e pintura – e meu padrinho foi mecânico da equipe da Toyota em Le Mans no final dos anos 90 e início dos anos 2000. Então fui muito influenciada por eles a gostar do esporte e o acompanho desde então.”
Não surpreende que Vanessa tenha escolhido a Fórmula 1 como pano de fundo, com uma trama inspirada em eventos reais do esporte:
“E se Claire Williams, como chefe de equipe do piloto William, não tivesse deixado o cargo? E se ela tivesse conseguido fazer aquele time lendário renascer das cinzas? Que história incrível teria sido!”
Para quem não conhece F1: Claire Williams, filha de Frank Williams, tornou-se a primeira mulher chefe de equipe da tradicional escuderia Williams em 2013. A equipe ainda existe na Fórmula 1, mas desde 2020 não está mais sob sua liderança. Embora o renascimento não tenha acontecido sob Claire, a temporada atual mostra sinais de recuperação sob James Vowles.
“A F1 é minha zona de conforto, e eu tinha certeza de que poderia escrever algo crível – próximo da realidade de como o esporte funciona e suas dinâmicas – porque sou fã mesmo. Amo carros, velocidade e toda a estratégia envolvida em uma corrida,” diz Vanessa.
Quem a acompanha no Instagram pode ver suas postagens sobre os GPs todo fim de semana — prova do quanto ela vive e respira o esporte.
Esse conhecimento e amor pela Fórmula 1 também transparecem no livro: Vanessa consegue, com maestria, ensinar o básico a novos leitores sem nunca parecer didática demais. O enredo evita o temido “infodump”, e a ação na pista é descrita de maneira eletrizante, capturando tanto a adrenalina quanto a força estratégica das corridas. Dá para sentir que o livro foi feito com muito carinho.
“Amo a F1 por causa da estratégia e também porque os carros são o ápice da velocidade e da tecnologia. Os pilotos têm reflexos impressionantes — decisões em frações de segundo — e é empolgante ver os melhores — ou pelo menos os mais rápidos — do mundo se superando e proporcionando corridas incríveis.”
Para ela, um momento específico consolidou esse amor pelo esporte:
“Tiago Monteiro, pilotando pela Jordan em 2005–2006, conquistou seu único pódio na F1 numa corrida em que só os carros da Ferrari e Jordan participaram, por problemas com uma fornecedora de pneus (na época, as equipes podiam escolher qual marca usar). A corrida foi em Indianápolis, nos EUA, em 2005, e ele chegou em 3º lugar, dividindo o pódio com Michael Schumacher e Rubens Barrichello.
O carro da Jordan era péssimo naquele ano, e ele quase nem subiu ao pódio. Lembro de gritar com a TV para ele defender a posição, tentar atacar. Quando cruzou a linha de chegada depois de 90 minutos, senti um alívio enorme — como se eu tivesse sido a piloto.”
Vanessa transformou essa emoção — esse alívio, essa sensação viciante de realizar um milagre — em um momento crucial do livro. Um trecho que inspira esperança e eleva os riscos para os volumes seguintes da trilogia, onde Violet e William tentarão ser as “asas” um do outro em uma indústria implacável.
Nos últimos anos, o número de fãs mulheres de F1 cresceu muito, impulsionado por campanhas da FIA e pela própria organização da categoria. Marcas de moda passaram a produzir mais merchandising voltado para mulheres. E com isso, romances de F1 começaram a surgir com força nas prateleiras.
Vanessa acredita que o que atrai as leitoras é “a possibilidade de desafiar o status quo”:
“Provar que todos estão errados. Mostrar que os esportes a motor não são só para homens. É claro que eles dominam o cenário, mas há muitas mulheres apaixonadas pelo esporte, praticando ou sonhando em pilotar.”
E a história confirma isso. Mulheres sempre estiveram presentes: como pilotos, como líderes (Claire Williams e Susie Wolff), como engenheiras (Laura Müller) e em tantos outros cargos. Seus números crescem à medida que desafiam o sistema.
“Romances esportivos oferecem às mulheres um espaço seguro para se entregarem às suas paixões. A maioria das mulheres ama esportes, mas não é levada a sério pelos homens quando comenta sobre eles (experimente comentar uma corrida de F1 nas redes sociais e prepare-se para os machões dizendo que você não entende nada).
Na ficção, encontramos o nosso lugar. Ninguém nos julga por gostar do esporte, entender as regras e ainda se divertir com um romance envolvente.”
A presença feminina no esporte — e os obstáculos enfrentados — também são discutidos com seriedade no livro. Violet enfrenta uma batalha extra apenas por ser mulher. Com William como aliado, ela tem apoio, mas a forma como os homens fora de sua equipe a tratam é realista — enraizada no que realmente acontece no paddock da F1. A atitude diante das mulheres ainda é um ponto sensível — que foi aprofundado em um artigo relacionado (aqui).
No fim, o livro de Vanessa é uma história sobre:
“Com paixão, perseverança, foco — e trabalho em equipe, especialmente em esportes que exigem isso — você pode realizar seus sonhos.”
E, claro, com uma boa dose de romance encantador.
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