Cultura

O desaparecimento das locadoras e o que levamos junto com elas

Havia uma pequena frustração em descobrir que o filme que você queria já tinha sido alugado.

Hoje parece estranho sentir falta disso.

Mas, durante muito tempo, essa foi uma cena comum. Alguém saía de casa em busca de um lançamento, chegava à locadora e encontrava apenas o espaço vazio entre as capas. Restava escolher outra coisa.

Nem sempre era uma escolha feita com convicção.

Às vezes, era o filme menos ruim entre os que sobraram. Às vezes, uma capa chamava atenção. Outras vezes, alguém apontava para uma prateleira qualquer e dizia: “leva esse”.

Nem tudo era memorável.

Mas, de vez em quando, uma dessas escolhas improvisadas acabava se tornando a melhor da noite.

Antes que os filmes passassem a caber em um catálogo infinito dentro da televisão, existia um ritual em torno deles. Era preciso sair de casa, caminhar pelos corredores, comparar opções, negociar gostos diferentes e decidir o que valeria algumas horas do fim de semana.

A experiência começava muito antes de apertar o play.

Quem cresceu entre fitas VHS e DVDs provavelmente se lembra disso. As locadoras tinham um cheiro característico, uma organização própria e personagens que pareciam fazer parte do lugar. Havia o cliente que chegava toda sexta-feira no mesmo horário. A criança que corria para a seção de animações. O funcionário que conhecia cada estante de cor.

Muitas vezes, ele sabia exatamente o que indicar.

Não porque um sistema analisou hábitos de consumo ou cruzou dados. Simplesmente porque prestava atenção.

Sabia qual filme você tinha levado na semana anterior. Lembrava de uma conversa. Conhecia seus gostos melhor do que você imaginava.

Era uma relação simples, mas que fazia diferença.

As locadoras desapareceram aos poucos. Algumas fecharam discretamente. Outras resistiram até o momento em que a conveniência venceu qualquer apego à rotina.

A mudança parecia natural.

E, de certa forma, foi.

Hoje encontramos praticamente qualquer título em poucos segundos. Não existe viagem perdida porque o filme acabou. Não existe devolução marcada para segunda-feira. Não existe multa esquecida no fundo da mochila.

Pouca gente sente falta dessas partes.

Ainda assim, quando o assunto surge, quase sempre aparecem histórias.

As pessoas lembram da primeira fita que alugaram. Da sessão que reuniu amigos. Do filme escolhido por acaso que acabou se tornando favorito. Da locadora do bairro. Do dono que conhecia todos pelo nome.

Talvez seja por isso que elas continuem ocupando um espaço tão particular na memória de quem viveu essa época.

Não eram apenas lugares para alugar filmes.

Eram lugares onde parte da experiência acontecia antes mesmo da história começar.

Compartilhar

Redação Pitaya

Sobre a autora

Redação Pitaya

Quando um texto aparece com esta assinatura, significa que ele foi construído por nossa equipe editorial. Estamos sempre em busca de histórias, ideias e conversas que merecem ser contadas, da cultura ao comportamento, da beleza ao bem-estar, passando por tudo aquilo que nos conecta como pessoas. Porque algumas histórias têm uma autores. Outras, são um pouco de todos nós.

Ver todos os textos

Se este texto ficou com você...

Gostou desta leitura?

Assine a newsletter da Pitaya e receba histórias como esta quinzenalmente.