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Mulheres no automobilismo: como o filme F1 falhou na representação feminina

O filme F1 prometia aproximar o público da principal categoria do automobilismo, mas falhou ao representar as mulheres que fazem parte desse universo. Neste artigo, Yve analisa como personagens femininas e racializadas acabam reduzidas a ferramentas para fortalecer o protagonista, enquanto destaca a importância de narrativas que reconheçam as conquistas reais de mulheres na Fórmula 1.

Com um filme apoiado pela própria Fórmula 1, o esporte sobre o qual ele trata, as expectativas eram altas para que a representação fosse feita da maneira certa. Em uma tentativa de conquistar novos fãs e apresentar a categoria a um público mais amplo, a Fórmula 1 se uniu a Hollywood para criar esse grande blockbuster. Entre os produtores estava também Lewis Hamilton, heptacampeão mundial da categoria.

Ao longo de duas temporadas, a equipe de filmagem registrou cenas em circuitos reais durante fins de semana oficiais da Fórmula 1. Os fãs não apenas acompanharam parte das gravações, como também participaram do filme. Entre uma sessão e outra das corridas, eram convidados a reagir às cenas e chegaram até a assistir a diferentes versões do desfecho da história, numa tentativa de manter em segredo o resultado da corrida final exibida nas telas.

O que os fãs não puderam ver durante esse período foi a forma como as duas principais personagens femininas foram tratadas. Nesse intervalo entre as filmagens e o lançamento, diversos romances ambientados na Fórmula 1 também chegaram ao mercado, abordando a presença feminina no esporte. Embora esse gênero literário também tenha um longo caminho a percorrer em termos de representação, o filme ficou muito aquém do esperado.

O principal problema começa com Kate McKenna, personagem interpretada por Kerry Condon. No papel, ela parece promissora: a primeira diretora técnica da história da Fórmula 1 seria, na vida real, um marco digno de celebração. Neste ano, inclusive, a categoria recebeu sua primeira engenheira de corrida no pit wall, Laura Müller. Ainda assim, em vez de abraçar essa personagem, muitas fãs da Fórmula 1 passaram a criticar sua construção. Entre elas está Vanessa Silva, cujo romance de estreia ambientado na F1 será lançado em agosto.

“A diretora técnica — que trabalha especificamente com aerodinâmica — inicialmente demonstra força como alguém tentando conquistar espaço em um esporte dominado por homens. Achei isso promissor. Mas ela acaba reduzida à ‘mulher que dormiu com Hayes’, e não há praticamente nada sobre o sucesso dela, porque esse sucesso acaba sendo atribuído a Hayes.”

No início, McKenna é apresentada como uma diretora técnica competente, alguém capaz de colocar seus pilotos nos eixos. Mas, assim que se envolve com Sonny Hayes, personagem de Brad Pitt, essa representação muda de maneira sutil. O relacionamento de uma noite não é seguido por qualquer desenvolvimento emocional ou transformador. Sua única função é reforçar a imagem do herói clássico: aquele que salva o dia e conquista a mulher. É uma fórmula antiga de Hollywood que, infelizmente, parece tão envelhecida quanto o próprio protagonista.

A diretora técnica passa, de repente, a ser definida por esse único momento. Embora continue participando da ação, sua conexão emocional com Hayes assume o centro da narrativa. E, ainda que ele lhe dirija algumas palavras de incentivo, isso perde força, porque suas conquistas passam a estar diretamente ligadas a ele — e não ao seu próprio trabalho desenvolvendo um carro que, no início do filme, sequer era competitivo.

A Fórmula 1 é, por natureza, um esporte coletivo. Sem equipe, um piloto não vence; e sem piloto, a equipe também não. No entanto, o clímax emocional da vitória de Hayes gira exclusivamente em torno dele, e não do time que tornou aquele resultado possível.

Os romances ambientados na Fórmula 1 também apresentam relacionamentos entre pilotos e membros da equipe, mas há uma diferença fundamental: as mulheres não são usadas como ferramenta para tornar o protagonista masculino mais desejável. As profissionais envolvidas têm plena consciência das consequências dessa decisão e frequentemente verbalizam isso para os pilotos. O risco e a misoginia presentes no esporte são tratados de forma aberta, enquanto o impacto emocional dessas escolhas recebe o peso que merece.

Essas mulheres trabalharam duro para conquistar seu espaço na Fórmula 1, e nossa sociedade ainda ameaça suas carreiras por causa de decisões como essa. A expressão “subiu na carreira dormindo com alguém” continua sendo dirigida quase exclusivamente às mulheres. Já quando homens se relacionam com alguém considerado hierarquicamente superior, isso costuma ser visto como uma conquista. A diferença tem nome: misoginia.

“Essas escolhas foram bastante questionáveis e relegaram as mulheres a notas de rodapé — apenas itens marcados em uma lista de diversidade que o filme parecia querer cumprir”, afirma Vanessa Silva.

Essa “lista de diversidade” também se estende ao piloto negro Joshua Pearce, interpretado por Damson Idris. Seu personagem reúne todas as características esperadas de um piloto novato: determinação, autoconfiança, raciocínio lógico e uma boa dose de personalidade. Ainda assim, ele é retratado como alguém que precisa ser controlado pelo veterano Sonny Hayes, como um novato incapaz de lidar com a equipe, quando, na realidade, demonstra exatamente as qualidades que um piloto em sua posição deveria ter. Ele se torna apenas mais um item da lista, outro personagem cuja principal função é reforçar a figura heroica do protagonista.

Embora os romances de Fórmula 1 coloquem mais foco nas mulheres, ainda há muito espaço para evoluir.

“Precisamos de mais autoras contando histórias sobre mulheres no esporte para valorizar, representar e inspirar outras mulheres. Precisamos mostrar que, sim, as mulheres estão no esporte. Elas são incríveis e ocupam cargos de altíssimo nível — como atletas e pilotos, mecânicas, engenheiras, designers, proprietárias de equipes, treinadoras e muito mais. E, sim, o automobilismo também é um espaço para as mulheres”, afirma Silva.

No fim das contas, o filme F1 falhou. Mas as fãs da Fórmula 1, não.

Ao longo de toda essa discussão, elas fizeram suas vozes serem ouvidas, expressaram a necessidade de uma representação mais justa e, em nenhum momento, deixaram de destacar as conquistas muito reais das mulheres dentro e ao redor da Fórmula 1, especialmente para os novos fãs apresentados ao esporte por meio do filme.

No fim, há uma certeza:

Embora a misoginia tente impedir que as mulheres avancem, elas continuarão ocupando o espaço que lhes pertence.

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Yve Trust

Sobre a autora

Yve Trust

Yve é autora, podcaster e criadora de conteúdo alemã. Apaixonada por cultura pop, entretenimento e bem-estar, acompanha de perto as conversas que movimentam o cenário internacional, dos lançamentos mais comentados às mudanças de comportamento que surgem ao redor deles. Já participou de painéis sobre entretenimento na Magic Con (Alemanha) e é autora de romances publicados internacionalmente. Na Pitaya, escreve sobre tudo o que conecta cultura, lifestyle e as histórias por trás dos acontecimentos que atravessam o mundo.

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