Venda e tráfico de meninas: como e onde as famílias as colocam em risco
Quando a pobreza se disfarça de oportunidade, o corpo da menina vira moeda.
No Brasil, centenas de meninas são entregues todos os anos por famílias que acreditam estar oferecendo um “futuro melhor”. A realidade, porém, é a violência — sexual, psicológica e física — que se esconde por trás da promessa de um emprego, um casamento ou um prato de comida.
Era fim de tarde quando Lúcia*, de apenas 12 anos, viu a mãe entregar sua mala nas mãos de um homem que prometia levá-la para trabalhar “numa casa boa, com comida e estudo”. Três dias depois, ela estava em um prostíbulo improvisado no interior do Pará.
“Ela disse que eu ia poder estudar, que ia mandar dinheiro pra casa”, lembra Lúcia, hoje com 17. “Mas lá, não tinha porta, não tinha escola. Só tinha homem.”
O caso de Lúcia não é isolado. O tráfico e a venda de meninas no Brasil é uma realidade que se esconde entre as brechas da pobreza, da negligência e da falta de políticas públicas. A maioria das vítimas tem entre 10 e 17 anos, vem de famílias em situação de extrema vulnerabilidade e vive em regiões onde o Estado é uma promessa distante.
Enquanto histórias como essas se repetem em diferentes regiões do país, o poder público discute a possibilidade de enfraquecer justamente os mecanismos criados para protegê-las. O PDL 3/2025, aprovado pela Câmara dos Deputados, suspende uma resolução do Conanda voltada à defesa de crianças vítimas de violência sexual, uma decisão que especialistas consideram um dos maiores retrocessos na proteção da infância dos últimos anos.
O retrato do Brasil que o turismo sexual ainda alimenta
Segundo dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC, 2024), o Brasil registrou cerca de 2.200 denúncias de tráfico de pessoas em 2023, sendo 68% das vítimas mulheres e 41% menores de idade.
A Região Norte concentra boa parte dos casos. Na Ilha do Marajó (PA), investigações do Ministério Público Federal apontam a existência de redes que aliciam meninas sob o pretexto de empregos domésticos ou casamentos arranjados. Em muitos casos, as próprias famílias entregam as filhas, movidas pela fome ou pela esperança.
Mas a realidade não se restringe à Amazônia. Em comunidades do Maranhão, Bahia, Ceará e até do interior paulista, histórias semelhantes se repetem.
Em um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2023), mais de 500 casos de exploração sexual de menores foram associados a acordos financeiros familiares, quando pais, padrastos ou tios consentem com o abuso em troca de dinheiro, comida ou favores.
Entre o desespero e a culpa
A “venda” de meninas não é apenas um ato criminoso, mas também o retrato da ausência de alternativas. Muitas mães são vítimas de um ciclo de miséria que as impede de ver o perigo. Elas acreditam estar garantindo algo melhor. O Estado nunca chegou lá, então quem promete algo é quem manda.
Essas meninas são levadas por redes de tráfico que atravessam fronteiras, mas também por conhecidos: vizinhos, patrões, parentes. O aliciamento se mistura ao afeto e à manipulação: o agressor se apresenta como “salvador”.
Quando a promessa vira cárcere
Em 2022, a Polícia Federal desmantelou uma rede que atuava em Belém e Fortaleza, levando meninas para Suriname e Guiana Francesa. A maioria das vítimas era entregue pelas próprias famílias, em troca de quantias que variavam entre R$ 300 e R$ 1.000.
Segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM), o tráfico de pessoas é hoje o terceiro crime mais lucrativo do mundo, atrás apenas do tráfico de drogas e de armas. No Brasil, estima-se que cerca de 250 mil pessoas sejam vítimas de exploração sexual e trabalho forçado, sendo grande parte meninas entre 10 e 16 anos.
A cumplicidade do silêncio
Em comunidades isoladas, o silêncio é imposto pela vergonha e pelo medo. O tráfico, nesses casos, se confunde com a cultura local: o “casamento cedo”, o “ajudar em casa”, o “melhorar de vida”. Mas por trás dessas expressões, há uma estrutura social que legitima a exploração e a omissão das autoridades.
A infância que o Brasil insiste em perder
De acordo com o Disque 100, canal do governo federal, a cada 8 minutos uma criança é vítima de violência sexual no país.
Entre as vítimas, 80% são meninas, e em mais de 70% dos casos, o agressor é alguém próximo, vizinho, padrasto, parente. Quando não é dentro de casa, é fora dela, com a conivência do entorno.
Em 2024, o Disque 100 registrou 657,2 mil denúncias, um salto de 22,6% em relação ao ano anterior, sendo cerca de 289,4 mil referentes a crianças e adolescentes. Dentro desse universo, o Anuário Brasileiro de Segurança Pública reportou que 61,3% das vítimas de estupro tinham 13 anos ou menos, que 69,1% das agressões ocorreram dentro de casa e que 63% dos agressores eram familiares ou pessoas próximas.
Quem protege as meninas?
Precisamos falar de prevenção. De políticas públicas que sustentem famílias, de educação sexual nas escolas, de campanhas que cheguem onde a internet ainda não chega. A menina só é entregue porque a mãe também foi um dia.
Enquanto isso, histórias como a de Lúcia continuam sendo repetidas em silêncio.
Nos becos e nos portos, nas casas simples de comunidades ribeirinhas, nas estradas sem fiscalização, meninas seguem sendo negociadas como se fossem promessas.
Outros rostos da mesma violência
Nem sempre é o tráfico que leva uma menina a perder sua infância. Às vezes, é o costume, a religião, o medo ou o poder armado que se impõe sobre corpos indefesos. Em muitos territórios, a violação começa bem antes da travessia.
Em comunidades dominadas pelo crime organizado, meninas se tornam “propriedade” de traficantes. No Rio de Janeiro, uma família relatou nas redes sociais que precisou fugir às pressas depois que um homem ligado ao tráfico decidiu que queria “ficar com” sua filha de dez anos. Para protegê-la, os pais encheram a mochila escolar das crianças e fugiram, deixando casa, roupas e memórias para trás. Nenhuma autoridade os ajudou. Nenhuma denúncia foi formalizada. O medo cala mais alto que a justiça.
Há também os casamentos religiosos precoces, amparados por interpretações distorcidas da fé. Em regiões rurais do Norte e Nordeste, líderes espirituais ainda realizam uniões entre meninas e homens adultos, muitas vezes com o consentimento das famílias. A promessa é de “honra” ou “proteção”, mas o resultado é o mesmo: a infância substituída por obrigações conjugais e gravidez precoce. Dados do Censo 2022 do IBGE mostram que mais de 34 mil pessoas de 10 a 14 anos viviam em união conjugal no Brasil, cerca de 26,4 mil eram meninas (77% do total). Embora o casamento civil seja proibido para menores de 16 anos desde 2019, essas uniões persistem entre os mais vulneráveis.
Em aldeias indígenas, favelas, igrejas, orfanatos e lares adotivos irregulares, a exposição infantil assume rostos diferentes, mas sempre parte da mesma raiz: a desigualdade, a falta de presença estatal e a cultura que naturaliza o controle sobre o corpo feminino. A cada caso silenciado, a fronteira entre o que é crime e o que é costume se apaga.
E agora, com a aprovação do PDL 3/2025, que enfraquece a resolução do Conanda voltada à proteção de meninas vítimas de violência sexual, o país dá um passo perigoso. A revogação de políticas públicas que garantiam atendimento psicológico, acolhimento e acompanhamento das vítimas não apenas retira direitos, legitima o abandono. Quando o Estado recua, a violência avança.
O preço do silêncio
Quando a sociedade naturaliza a exploração, quando as famílias são empurradas à miséria, e quando o Estado vira espectador, a infância deixa de ser um direito e passa a ser uma mercadoria.
Lúcia, hoje acolhida por uma ONG que ampara sobreviventes de tráfico, sonha em ser professora.
“Quero ensinar as meninas a dizer não. Porque eu não sabia que podia dizer.”
Mas enquanto histórias como a dela se repetem em cada canto do país, o Brasil parece caminhar na contramão da proteção infantil. A recente aprovação do PDL 3/2025, pela Câmara dos Deputados, suspendeu uma resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) voltada à defesa de meninas vítimas de violência sexual, um gesto que especialistas classificam como um dos maiores retrocessos na proteção da infância em décadas.
Ao enfraquecer as políticas de prevenção e amparo, o Estado não apenas abandona as vítimas: ele as expõe novamente. O silêncio institucional, travestido de burocracia, se torna cúmplice do ciclo de violência que insiste em se perpetuar. Porque cada lei revogada, cada política desmontada, é uma menina a menos com a chance de dizer não.
Fontes:
- Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), Relatório de Tráfico de Pessoas, 2024
- Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Anuário 2023
- Organização Internacional para as Migrações (OIM), Relatório Global 2024
- Polícia Federal, Operação Caribe, 2022
- Disque 100, Balanço Anual 2023
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