Cartas Pitaya

Revolucionária Desgarrada: Silenciada Nunca Mais

Passei meses tentando encontrar palavras para um mundo que parece ter se acostumado ao caos. Nesta coluna, compartilho uma reflexão sobre silêncio, esperança, resistência e o que ainda pode nos unir.

Silêncio. O mundo ficou silencioso, barulhento e avassalador ao mesmo tempo. A enxurrada de medo, angústia, luto e esperança foi se transformando em uma onda suave, conduzida pela distração, pela rotina, por uma falsa sensação de normalidade e controle. As bombas continuam caindo, a temperatura do planeta continua subindo, a própria humanidade parece estar desmoronando e, ainda assim, tudo está tão quieto.

Não lutar, não fugir, mas simplesmente paralisar. Foi isso que me trouxe a escrever este artigo tão tarde e que deixou sua autora mergulhada em meses de entorpecimento. Como escrever sobre esperança quando ela parece forçada? Como registrar cada injustiça do mundo quando a lista parece infinita, puxando os fios desta realidade até fazê-la se desfazer?

Tudo vira ruído. As pessoas aprenderam a compartimentalizar as tragédias que vivemos. Permanecemos em silêncio durante os jantares em família e nos espaços públicos porque o medo do confronto, da rejeição ou do desconforto parece maior do que o sofrimento que continua se espalhando como um incêndio alimentado justamente por esse silêncio.

Silenciados. Vivemos em um mundo conectado de formas que nossos ancestrais jamais poderiam imaginar, mas essas conexões também foram corrompidas. Já não sabemos em quem confiar, nem no que vemos online. Aqueles que ousam falar são constantemente calados, principalmente quando dizem verdades que muitos ainda não estão prontos para enfrentar.

Imagino que essa sensação exista em muitos lugares. A desconfiança em relação à imprensa, a repressão ao jornalismo sério, o nível de vigilância sob o qual vivemos, anos e anos de opressão ao redor do mundo. Passamos de um momento em que a humanidade parecia finalmente se unir por uma causa comum para outro em que muitos apenas se preparam para o impacto final.

Sim, ainda resistimos da melhor maneira possível. Mas, às vezes, parece não ser suficiente. Existem noites em que permanecemos acordados imaginando o que mais ainda poderão fazer, sabendo que nada trará de volta as vidas perdidas, os inocentes, nem restaurará os milhões de corações tomados pelo luto.

Diante dessa desconfiança, esperamos que outra pessoa dê o primeiro passo. E, enquanto esperamos, todos nós desaceleramos. Assim, somos silenciados.

Nós. Pare por um instante e reflita sobre o significado dessa palavra. Quem é esse “nós” para você? Sou eu e você, leitor? É o grupo de pessoas ao qual você sente pertencer? É toda a humanidade? Ou algo ainda maior, impossível de explicar com palavras?

O que todos esses “nós” têm em comum? O que todos nós temos em comum, afinal?

A autora acredita que todos buscamos conexão. Todos temos algo que amamos e pessoas que moldaram quem somos. Carregamos nosso passado para crescer com ele ou para nos tornar aquilo que ele nos permitiu ser. Gostamos de boa comida, de celebrar, de viver momentos de alegria — ou pelo menos desejo isso para você, porque você merece.

Todos temos paixões, esperanças e sonhos. Ou tivemos, antes que nos convencessem de que eles eram irreais. Todos já choramos, perdemos, odiamos e amamos.

Estamos infinitamente conectados de maneiras que mal conseguimos compreender.

As atrocidades na Palestina abriram nossos olhos coletivamente e removeram o véu que cobria nossa realidade. Vimos as partes mais sombrias da mente e da alma humana criarem raízes e provocarem uma destruição inimaginável. Mas, em meio a essa destruição, também vimos a força e a resiliência de um povo que se recusou a ser quebrado e percebemos que essa mesma força também existe dentro de nós.

Por um breve momento, nos unimos no luto e encontramos força nessa união.

A proposta desta autora é que encontremos essa força novamente.

Você ainda está ouvindo?

Um dos meus momentos favoritos da história das guerras é a Trégua de Natal de 1914. Naquele dia, soldados dos dois lados da Primeira Guerra Mundial interromperam os combates para celebrar o Natal juntos, cantar e brincar.

Por uma noite, suas vozes romperam todas as barreiras que os separavam e revelaram aquilo que os tornava humanos. Aquilo que os fazia sentir vivos.

Você já imaginou como seria ouvir todas as vozes da Terra cantando juntas?

Os últimos anos tentaram nos silenciar. Tentaram silenciar aqueles que ainda sonham com um mundo melhor, aqueles que sabem que isso nunca foi e jamais deveria ser considerado normal. Sabemos que as ameaças que enfrentamos são reais.

Talvez seja hora de levar essa tradição ao mundo inteiro e colocar essa ideia à prova.

No dia 21 de dezembro de 2026, ao meio-dia (horário Central Standard Time), vamos reunir nossos amigos, ocupar as ruas (dos EUA) e cantar.

Não estamos sozinhos. Nossas vozes merecem descansar dos gritos.

Até onde nossas vozes poderiam chegar? Até onde chegarão?

Não ignore este trecho automaticamente. Apenas me acompanhe por mais um momento.

Assim como aquelas correntes de mensagens populares no início dos anos 2000, proponho que cada pessoa envie este texto para quem acredita que também se importaria, que essas pessoas façam o mesmo e, simplesmente… aconteça.

Vamos unir nossas vozes como prova de que existe alguém, em algum lugar, que entende. De que nós entendemos. De que pertencemos ao mesmo povo. De que somos humanos. De que estamos vivos.

Nunca Mais.

Este é o nosso mundo. As vidas dos nossos amigos, das nossas famílias, as nossas próprias vidas e a vida deste planeta estão em risco.

Agora, mais do que nunca, precisamos reacender esse fogo dentro de nós e carregá-lo para dentro da escuridão.

Precisamos levantar nossas vozes como uma só, imaginar juntos um futuro melhor, descobrir como chegar até ele e encontrar forças para acreditar que isso é possível.

Precisamos atravessar este mundo de mãos estendidas, guiados por uma esperança indomável e um amor sem medo.

Mãos paradas, nunca mais.

Alguns de nós terão trabalho, compromissos ou eventos que servirão como desculpa perfeita para “esquecer”. Mas eu peço: não esqueçam.

Dizem que alguns dos momentos mais importantes da vida exigem apenas dez segundos de coragem.

Dez segundos de bravura para mostrar a outra pessoa que ela não está sozinha.

Dez segundos para iniciar um movimento.

Mova-se como se fosse a primeira chama do nosso fogo. Precisamos de você.

Afinal, somos mais fortes juntos.

Passe esta mensagem adiante. Compartilhe, publique, espalhe cartazes.

E, juntos, vamos mudar o mundo.

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Cyra green
Cyra Green

Sobre a autora

Cyra Green

Cyra escreve diretamente da estrada. Enquanto percorre diferentes regiões dos Estados Unidos, registra as contradições, desigualdades e histórias humanas que encontra pelo caminho. Entre protestos, comunidades e encontros inesperados, sua coluna reúne relatos e reflexões sobre o mundo em que vivemos e sobre as pessoas que muitas vezes permanecem invisíveis dentro dele.

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