Renda renascença: o fio que atravessou gerações
Da série “Os tecidos que contam histórias do Brasil”, 5 capítulos sobre os tecidos que contam histórias do Brasil. Um capítulo por semana, na Pitaya. (2/5)
Existem técnicas que sobrevivem porque foram registradas.
Outras sobrevivem porque alguém continuou ensinando.
A renda renascença pertence à segunda categoria.
Antes de chegar às vitrines, às passarelas ou às coleções de designers brasileiros, ela atravessou décadas sendo transmitida de forma silenciosa entre mulheres. Sem escolas formais. Sem apostilas. Sem grandes arquivos que garantissem sua permanência.
O conhecimento passava de uma casa para outra.
Uma menina observava a mãe.
A mãe aprendia com a avó.
A vizinha ensinava um ponto novo.
Alguém corrigia o desenho.
Outra mostrava como segurar a linha.
A renda continuava existindo porque continuava sendo feita.
Embora tenha origem europeia, ligada à Itália entre os séculos XV e XVI, a renda renascença encontrou no Nordeste brasileiro uma nova identidade. Foi introduzida no país por religiosas europeias e, ao longo do tempo, passou a fazer parte da vida de comunidades do Agreste pernambucano e do Cariri paraibano.
O que aconteceu depois é talvez a parte mais interessante dessa história.
A técnica permaneceu, mas deixou de ser exatamente a mesma.
Os desenhos mudaram. Os pontos ganharam interpretações próprias. Referências do sertão passaram a aparecer nas tramas. O que nasceu do outro lado do oceano foi lentamente incorporando a paisagem, o ritmo e a cultura de quem a mantinha viva.
Hoje, cidades como Monteiro, Camalaú, Zabelê, São João do Tigre e São Sebastião do Umbuzeiro concentram algumas das comunidades mais importantes para a preservação da renda renascença no Brasil. Só na Paraíba, estima-se que mais de três mil rendeiras ainda trabalhem com a técnica.
À primeira vista, a renda pode parecer delicada.
Mas existe algo de resistência em sua permanência.
Produzir uma peça exige horas — às vezes semanas — de trabalho manual. O desenho é preso a uma almofada. Sobre ele, o lacê, uma espécie de fita de algodão, delimita os caminhos que depois serão preenchidos por dezenas de pontos feitos à mão. Alguns carregam nomes quase afetivos: aranha, pipoca, sianinha, abacaxi.
Cada rendeira conhece combinações diferentes.
Cada comunidade preserva repertórios próprios.
E é justamente aí que mora uma preocupação crescente entre pesquisadoras e artesãs.
Alguns dos pontos mais complexos começaram a desaparecer.
Não porque tenham sido esquecidos completamente, mas porque exigem mais tempo de execução e nem sempre encontram valorização financeira compatível com o trabalho necessário para produzi-los. Em muitos casos, peças mais simples acabam sendo priorizadas para atender demandas comerciais e garantir renda.
O resultado é um fenômeno delicado: certos pontos continuam existindo, mas cada vez menos pessoas sabem fazê-los.
Pesquisadoras que acompanham comunidades rendeiras observam que parte desse conhecimento permanece viva principalmente através da oralidade e da convivência cotidiana. Não se aprende apenas olhando um diagrama. Aprende-se observando mãos em movimento. Corrigindo erros. Repetindo gestos. Compartilhando tempo.
Talvez por isso a renda renascença diga tanto sobre memória.
Ela não preserva apenas desenhos.
Preserva relações.
Em diferentes estudos sobre as rendeiras do Cariri paraibano, a técnica aparece ligada à construção de identidade coletiva, à autonomia financeira feminina e à transmissão de conhecimento entre gerações. O fazer da renda não funciona apenas como atividade econômica. Também organiza vínculos familiares e formas de pertencimento.
Em 2021, a renda renascença paraibana foi reconhecida oficialmente como patrimônio cultural imaterial do estado. O reconhecimento ajuda a proteger a técnica, mas não resolve sozinho uma questão fundamental: patrimônios vivos dependem de pessoas.
Dependem de quem ensina.
De quem aprende.
De quem escolhe continuar.
Em uma época marcada pela velocidade, existe algo quase radical em uma renda que leva dias para avançar poucos centímetros.
Talvez seja justamente isso que a torna tão valiosa.
Porque cada ponto guarda algo que dificilmente pode ser acelerado: tempo.
Referências:
Artesol — Ilustradoras e artesãs brasileiras reinventam a renda renascença
Artesol — Rendando o sertão
Artesol — A renda renascença na Paraíba: enredos de cultura, moda e desenvolvimento
Rede Artesol — APAZ (Associação das Produtoras de Artes de Zabelê)
Rede Artesol — Renasci Associação dos Artesãos de Monteiro
Paraíba On — Renda renascença é reconhecida patrimônio cultural imaterial da Paraíba
Universidade Estadual da Paraíba — A renda renascença na Paraíba: enredos de cultura, moda e desenvolvimento regional
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