Justiça Climática: quando o clima também revela desigualdades sociais

A crise climática não é apenas uma questão ambiental; ela revela desigualdades sociais profundas e estruturas de poder que marginalizam comunidades.

A crise climática deixou de ser apenas uma discussão sobre meio ambiente. Hoje, ela também expõe desigualdades sociais, estruturas de poder e os grupos que continuam sendo deixados à margem das decisões sobre o futuro do planeta.

Após a COP30, realizada em Belém em 2025, o debate climático voltou a ganhar força globalmente. Mas uma pergunta continua necessária: quando falamos sobre sustentabilidade, quem realmente está sendo incluído nessa conversa?

Nos últimos anos, cresceu cada vez mais a quantidade de evidências mostrando que desastres ambientais e mudanças climáticas afetam de forma desproporcional aqueles que já vivem à margem da sociedade.

Muitas pessoas ainda pensam em ação climática e sustentabilidade apenas dentro da lógica da reciclagem, reutilização e consumo consciente. Porém, a realidade aponta para uma questão muito mais complexa, interseccional e social. Ela exige que olhemos mais profundamente, reconhecendo discriminações, privilégios e as atitudes que moldam nossas ideias e soluções.

Justiça Climática é um conceito que conecta ação ambiental e justiça social dentro de uma estrutura que reconhece a mudança climática como uma questão de direitos humanos, exigindo equidade, inclusão e mudanças sistêmicas.

Esse conceito, fundamentado tanto em comunidade e apoio quanto em legislação e políticas públicas, lança luz sobre desigualdades que muitas vezes passam despercebidas para a maioria das pessoas.

Trata-se de uma mudança de paradigma que coloca em evidência comunidades indígenas, pessoas com deficiência, minorias, pessoas isoladas em áreas rurais ou impactadas pela pobreza, oferecendo voz e ferramentas de ação para essas comunidades.

O que significa justiça climática, na prática, para minorias e comunidades marginalizadas?

Um novo relatório da Anistia Internacional, publicado no início deste ano, mostra que “iniciativas verdes” e uma “transição energética limpa e justa” não significam a mesma coisa para todos.

O relatório é emocional e profundamente humano, mas também abrangente, ao retratar a vida do povo Sámi, um dos povos indígenas da região do Círculo Polar Ártico.

Os Sámi, assim como muitos povos indígenas, são fortemente impactados pelas mudanças climáticas. Não apenas sua cultura e modo de vida — espalhados pelos territórios da Suécia, Noruega e Finlândia — sofrem diretamente com as mudanças climáticas no Ártico, mas muitas das soluções criadas para construir energia limpa ou reduzir a poluição acabam também causando danos às suas comunidades.

Eles aprenderam a desconfiar de iniciativas verdes e projetos de “transição justa” que buscam mobilizar exploração industrial em larga escala em terras Sámi sem considerar os impactos causados.

Eles descrevem essa realidade como “colonialismo verde”.

Velhos padrões, apenas com novos caminhos para atingir os mesmos objetivos — ou pelo menos é assim que parece.

Porque quando ações são planejadas e implementadas sem consentimento informado e sem consulta às comunidades afetadas, os impactos sobre aqueles que deveriam ser protegidos se tornam devastadores.

Nessa narrativa, os Sámi acabam sendo retratados, de forma dolorosa, como se fossem contra soluções climáticas, quando tudo o que buscam é ter voz.

Uma dinâmica parecida acontece com outras comunidades marginalizadas, não apenas com povos indígenas.

Em um novo documento do Fórum Europeu da Deficiência intitulado “Desastre por Projeto: o custo das respostas climáticas inacessíveis e por que precisamos de ações climáticas inclusivas para pessoas com deficiência”, a dura realidade enfrentada por pessoas com deficiência durante desastres climáticos fica evidente.

Pessoas com deficiência frequentemente se tornam vítimas silenciosas de catástrofes climáticas.

Quando estratégias de preparação e resposta a desastres ignoram a diversidade humana, essas pessoas acabam presas, traumatizadas ou até perdem suas vidas.

Na tentativa urgente de pressionar instituições internacionais a agir, o documento reúne propostas políticas junto de relatos honestos e brutais de pessoas com deficiência que sofreram ou se tornaram vítimas de enchentes na Alemanha, Bélgica, Espanha e França nos últimos anos.

Essas histórias revelam um problema mais profundo: a sociedade ainda é estruturada em torno de uma ideia de “normalidade”, e aqueles que não agem ou reagem dentro desses padrões normativos acabam ficando para trás.

Além do óbvio — de que protocolos de emergência e respostas a desastres precisam ser construídos em diálogo com quem pode ajudar a torná-los acessíveis para todos —, isso abre uma conversa sobre como acessibilidade urbana, pobreza, transição energética e isolamento social moldam a realidade de pessoas que possuem muito pouco controle sobre o que acontece quando o planeta se torna hostil.

Quando o desastre acontece, vidas de pessoas com deficiência acabam sendo tratadas como um peso para a sociedade, transformadas em vítimas sem rosto, em vez de participantes ativos das ações coletivas.

O que os Sámi do norte e pessoas com deficiência na Espanha têm em comum?

Eles carregam o peso de nunca terem sido perguntados.

As histórias das pessoas à margem deixam claro que políticas climáticas frequentemente reproduzem desigualdades históricas.

O Conselho da Europa e muitas outras instituições internacionais já reconhecem que desastres ambientais, perda de biodiversidade e mudanças climáticas estão transformando rapidamente a forma como vivemos — e que não estamos conseguindo acompanhar.

É fácil olhar para esses exemplos como algo “distante”, acontecendo “em outro lugar”, removendo-os da nossa consciência.

Até percebermos que em toda comunidade, em todo país e em cada canto do mundo, existem pessoas cujo impacto ambiental é o menor possível — mas cujo peso das consequências é o maior.

Porque as soluções climáticas do passado tiveram medo demais de nomear o verdadeiro responsável pelo estado atual do planeta: gerações de pessoas em países desenvolvidos, com recursos e poder, construindo sistemas que serviam apenas a elas mesmas.

Hoje, sabemos mais.

O futuro da sustentabilidade e da transição verde vai muito além da reciclagem ou das energias renováveis.

Ele é construído na comunidade, pela comunidade e para a comunidade, dentro de um sistema que reconhece que justiça climática e justiça social são partes inseparáveis de um mesmo todo.

E que cada um de nós possui um papel em garantir que a forma como reconstruímos o futuro esteja baseada em uma visão coletiva.

Uma visão que celebra cultura, diversidade e singularidade, em vez de tentar pintar todos nós com o mesmo tom de verde.

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