Cartas Pitaya

Corpos livres duraram pouco

O corpo ideal ficou mais acessível e isso muda toda a indústria da moda

Teve um momento em que parecia impossível abrir uma campanha de moda sem encontrar palavras como liberdade, diversidade e aceitação corporal.

As marcas descobriram o discurso dos “corpos reais”. O mercado plus size cresceu. Influenciadoras começaram a falar sobre autoestima sem transformar cada foto em projeto de emagrecimento. Durante alguns anos, existiu a sensação de que a indústria finalmente estava sendo obrigada a rever a obsessão histórica pela magreza extrema.

Mas bastou observar as últimas temporadas internacionais para perceber que essa conversa começou a desaparecer rápido.

As passarelas foram mudando de novo. Silhuetas cada vez mais secas, vestidos desenhados para corpos mínimos, cinturas muito marcadas, ossos aparentes, quadris estreitos. Em paralelo, celebridades começaram a surgir visivelmente mais magras em um intervalo muito curto de tempo. O assunto deixou de ser apenas dieta, treino ou wellness. Entrou outra palavra na conversa: GLP-1.

Ozempic, Wegovy, Mounjaro e medicamentos semelhantes foram desenvolvidos para tratar diabetes tipo 2 e, em alguns casos, obesidade. Só que rapidamente ultrapassaram o espaço médico e passaram a circular como objeto de desejo estético. Hoje, o uso desses medicamentos já interfere na indústria da beleza, na moda, nas redes sociais e no comportamento de consumo.

E talvez a mudança mais curiosa seja justamente a velocidade com que o discurso sobre “corpos livres” perdeu força.

Porque a verdade é que boa parte da indústria nunca deixou de preferir a magreza. Ela apenas aprendeu, temporariamente, a falar outra linguagem.

Agora, com medicamentos capazes de produzir emagrecimento rápido — e cada vez mais próximos de uma popularização maior — o mercado parece voltar silenciosamente para um padrão que nunca abandonou de fato.

Isso aparece nas roupas.

Profissionais de moda já comentam nos bastidores uma procura crescente por numerações menores em empréstimos para eventos, fittings e produções editoriais. O tamanho 34, que durante muito tempo parecia distante da realidade da maior parte das brasileiras, voltou a circular como referência aspiracional. Em alguns showrooms, grades maiores começam a diminuir. Não oficialmente, claro. Essas mudanças quase nunca são anunciadas. Elas só começam a acontecer.

E existe um motivo econômico importante nisso.

Emagrecer movimenta consumo.

Uma pessoa que perde peso rapidamente costuma trocar boa parte do guarda-roupa em pouco tempo. Mas não é só uma questão prática. Existe também um componente emocional muito forte nessa relação. Comprar roupa depois do emagrecimento funciona como validação da mudança corporal. A peça nova não serve apenas no corpo — ela serve numa ideia de pertencimento. Existe prazer, reconhecimento social, sensação de conquista e até recompensa química envolvida nesse processo.

Vestir um número menor ainda carrega status.

E a indústria conhece profundamente esse mecanismo.

Nos Estados Unidos, pesquisas de mercado já identificaram aumento no consumo de moda entre usuários de medicamentos da classe GLP-1. Um levantamento da Circana mostrou que a maioria dos consumidores acredita que precisará renovar o guarda-roupa após a perda de peso, enquanto parte deles já começou a comprar roupas novas mesmo durante o processo de emagrecimento.

No Brasil, a tendência ainda encontra uma barreira importante: preço.

Hoje, medicamentos como Mounjaro e Wegovy ainda pertencem a uma realidade inacessível para grande parte da população. Mas o cenário deve mudar nos próximos anos com a chegada de alternativas mais baratas e versões produzidas por farmacêuticas nacionais. E é justamente aí que médicos e especialistas começam a demonstrar preocupação.

Porque a popularização não vem acompanhada, necessariamente, de acompanhamento médico.

Nas redes sociais, já circulam relatos de pessoas importando versões ilegais ou não autorizadas pela Anvisa, especialmente vindas do Paraguai. Em alguns casos, sem qualquer supervisão clínica. Em outros, sem sequer existir diagnóstico de obesidade ou diabetes. O medicamento deixa de ser tratamento e passa a funcionar como ferramenta estética de urgência.

Tudo isso para alcançar um corpo que, ironicamente, a própria internet dizia estar tentando abandonar.

Existe uma contradição difícil de ignorar nisso tudo. Nos últimos anos, a conversa sobre saúde mental, compulsão alimentar e pressão estética parecia finalmente ganhar espaço de maneira mais madura. Só que a chegada dos medicamentos de emagrecimento reorganizou prioridades muito rápido. O que antes era tratado como violência estética voltou a ser vendido como autocuidado — desde que venha acompanhado da palavra wellness.

E talvez esse seja o aspecto mais delicado dessa história.

Porque emagrecer não resolve automaticamente a relação de alguém com o próprio corpo. Ansiedade, compulsão, culpa alimentar e distorção de imagem continuam existindo. Em muitos casos, apenas mudam de forma. O problema é que a transformação física costuma ser muito mais visível — e socialmente premiada — do que qualquer processo emocional.

A moda entende perfeitamente a força simbólica disso.

Corpos magros vendem fantasia há décadas. A diferença agora é que essa fantasia parece mais próxima, mais rápida e mais farmacêutica.

E isso inevitavelmente muda consumo, comportamento e desejo coletivo.

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Mayara Morelli

Sobre a autora

Mayara Morelli

Mayara Morelli é jornalista, publicitária e editora-chefe da Pitaya mag. Sua especialidade é moda e comportamento, mas a curiosidade costuma levá-la para outros lugares. Escreve sobre tudo aquilo que merece uma boa conversa. Ao longo da carreira, entrevistou artistas, escritores, estilistas e criadores de diferentes partes do mundo. Estudou moda na Università Bocconi, trabalhou com marcas do universo joalheiro no Brasil e em Dubai e atualmente aprofunda seus estudos em cultura e pensamento moderno e pós-moderno pela Wesleyan University. Fora da redação, divide a vida com quatro cachorros que ocupam muito mais espaço do que deveriam. E exatamente o espaço que merecem.

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