As três vezes em que a maternidade me pariu
A vida antes de ser mãe era uma pista de dança. Eu não sei te dizer se eu dançava bem, mas eu dançava muito.
Era uma moleca de 24 anos com mais energia do que juízo, entre uma noitada e outra, rindo alto, dividindo o aluguel e a conta de luz com a minha mãe e meu padrasto. Tinha responsabilidade, sim, mas não com a vida. A minha própria vida era como um copo pela metade – cheio de agito, mas vazio de certezas.
Então, veio o Fábio Henrique. E com ele, um susto chamado pré-eclâmpsia. Não dava mais pra dançar como antes. Ele só tinha a mim, e eu não fazia ideia do que fazer com aquele amor novo, assustador, que nascia junto com ele. No dia 6 de maio, ele chegou ao mundo. No dia 9, no Dia das Mães, ele foi embora. Meu filho foi embora. E junto com ele, foi-se a menina que eu era. A maternidade me pariu, mesmo sem colo pra dar. Mesmo sem bebê no berço. Nasci mãe do mesmo jeito.
A dor do Fábio me moldou de um jeito que nenhuma escola poderia fazer. Ela me colocou em um lugar de silêncio e de maturidade precoce. Mas a vida, teimosa como ela só, não parou por aí. Dois anos depois, veio o Júlio. Um respiro. Uma redenção. Um novo motivo. Aos 26 anos, eu já não era mais aquela menina inconsequente, mas ainda estava aprendendo a ser mulher. E aí veio ele, com o choro fraco de quem nasceu prematuro e ficou 15 dias na UTI. E mesmo assim, o Júlio me mostrou a parte mais bonita da maternidade. Ele me devolveu a fé que eu tinha deixado em algum canto esquecido.
Com ele, conheci a rotina da nebulização, dos hospitais, das noites em claro. E conheci também a força que eu desconhecia em mim. Mas foi com o João, aos 37, que eu compreendi a maternidade como uma estrada que eu queria caminhar inteira. Sem atalhos. Com o João, eu senti a bolsa estourar, vi o nascimento como um milagre redondo: gravidez completa, parto respeitado, bebê no peito. Ele é grudado em mim como quem sabe que eu esperei por esse sonho. E ele veio, sabe? O sonho. De amamentar, de parir com calma, de ver crescer. O João me ensinou a realização.
Hoje, sou mais emotiva. Choro com propaganda de margarina. Penso no filho dos outros como se fosse o meu. A maternidade me amoleceu, me moldou. Me tirou planos, sim. Adiei a faculdade, deixei a carreira em segundo plano. Vi empresas não entenderem quando precisei faltar porque o filho estava internado. Troquei promoções por fraldas. Troquei viagens por boletos escolares. Sonhava em conhecer o mundo; conheci o coração de cada filho meu – e não me arrependo.
O tempo não foi generoso com meus planos, mas foi generoso com o amor que eu recebi. O que eu achava que era ser mãe antes de ser mãe? Achava que era difícil. Mas não sabia que seria tão bonito, mesmo com as dores. Minha mãe me teve aos 14 e me deixou com a minha avó. Eu cresci sob as asas dela, e jurei que, quando fosse minha vez, faria diferente. Hoje, sou mãe em tempo integral. Não divido a maternidade com ninguém. Cada crise, cada risada, cada consulta, cada vitória – sou eu ali. Inteira.
Ser mãe me fez mais forte, mais empática, mais viva. E apesar dos sonhos que ficaram pra depois, das viagens que não aconteceram, das noites mal dormidas – eu ganhei tudo. Ganhei três vezes. Porque, em cada maternidade, eu fui parida de novo.
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