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Lumiar

Edição 3 · setembro 2026

Liz Reis: A vida em muitos atos

"Eu sou atriz, e acho que quem nasce com este dom não deixa de ser"

Atriz, produtora, diretora e empresária, Liz Reis construiu uma trajetória entre o palco, o audiovisual e os bastidores. Agora, enquanto A Conspiração Condor ganha novos capítulos fora das telas, ela se prepara para voltar a um lugar que nunca deixou completamente para trás: o de atriz. | Fotografia por Carlo Locatelli

Mayara Morelli 13 minutos de leitura
Liz Reis: A vida em muitos atos

Há uma frase de Liz Reis que poderia ter aparecido em qualquer momento da nossa conversa e, ainda assim, parece resumir bem o lugar em que ela está hoje:

“Eu acho que é saber que a menina que sonha ainda habita em mim, mas com a maturidade da mulher.”

A menina continua ali. O que mudou foi todo o resto.

Liz começou como atriz, passou pela televisão, pelo teatro e, anos depois, encontrou na produção uma maneira de continuar próxima das histórias que queria contar. A mudança não aconteceu por falta de desejo de atuar. Pelo contrário. “Eu sou atriz, e acho que quem nasce com este dom não deixa de ser”, conta.

A vida familiar, porém, pediu outro tipo de presença. Ela se casou cedo, teve filhos e interrompeu uma trajetória profissional que, segundo suas próprias palavras, estava “voando”.

Quando decidiu voltar, oito ou nove anos depois, havia responsabilidades financeiras que tornavam difícil imaginar um recomeço aos 30 anos. Voltar para onde havia parado já não parecia uma opção tão simples. Foi então que Liz encontrou outra maneira de permanecer perto do que conhecia.

“E aí resolvi virar produtora, o que me manteria perto do que eu amo e me permitiria voltar a me conectar com pessoas que já me conheciam, além de conhecer gente nova.”

Talvez seja justamente aí que a trajetória de Liz comece a ficar mais interessante. Porque, olhando de fora, seria fácil contar essa história como uma mudança de profissão. Mas a própria Liz parece não enxergar uma ruptura tão clara.

Afinal, onde termina a atriz e começa a produtora?

Na resposta, ela não faz muita questão de escolher um lado.

“Na verdade eu faço as duas coisas”, diz.

E logo explica que teve a sorte de ser formada em artes cênicas e em ciências contábeis. É uma combinação que, para ela, acabou encontrando uma definição bastante própria: “eu tenho a alma da artista com o cérebro de um empresário que sabe executar um orçamento”.

De repente, a mudança de percurso ganha outra dimensão. A produtora não veio ocupar o lugar da atriz. Deu a ela outra forma de continuar trabalhando com histórias, pessoas e projetos enquanto a atuação esperava seu próximo momento.

Uma produtora, ainda atriz

A LEP Filmes nasceu em 2005, com outra sócia, e Liz entrou efetivamente na sociedade em 2017. Desde então, ela conta que nunca parou de atuar. O crescimento da produtora, com muitos trabalhos realizados, acabou ocupando boa parte do tempo que antes seria dedicado à atriz. Ainda assim, entre um projeto e outro, ela continuou aparecendo no cinema e no teatro.

Vieram Cordialmente Teus, em que viveu Antonia sob direção de Aimar Labaki; O Monstro, de Márcio Rebelo; uma participação em Madame Duroche, dirigido por Andradina Azevedo e Dida Andrade; a personagem Elvira, uma das protagonistas da peça Vocês Não Entenderam Nada, dirigida por Marcelo Marcus Fonseca em 2025; e, mais recentemente, Maria Thereza Goulart em A Conspiração Condor.

É uma lista que ajuda a entender uma coisa: mesmo quando a produção ocupava o centro da agenda, a atriz nunca desapareceu completamente.

Mas o que os bastidores fizeram com ela?

Quando pergunto o que a produção lhe ensinou que nenhuma formação poderia ensinar, Liz responde sem rodeios.

“Eu aprendi que quando você é ético, honesto, sincero, você é respeitado e visto como uma pessoa séria. E isto faz você crescer.”

A resposta ganha peso quando vem acompanhada de um dado sobre a rotina. Liz trabalha, em média, 15 a 16 horas por dia, seis dias por semana. Não há muito espaço, portanto, para a ideia romântica de que uma trajetória longa no audiovisual simplesmente acontece.

“Produzir ou atuar não é sorte, envolve muito trabalho e dedicação.”

A mesma lógica aparece quando falamos sobre as histórias que ela escolhe. Para Liz, existe espaço para o nome conhecido, o grande diretor, o player forte. Tudo isso ajuda a colocar um projeto no mercado. Mas, depois de tantos anos, parece haver outra pergunta antes dessa: por que contar essa história?

“Tanto como produtora e atriz, eu quero fazer coisas em que eu acredito, que me modificam e me fazem aprender”, diz.

E existe uma segunda resposta, ainda mais curta, para explicar o que faz um projeto valer a pena.

“A troca é o que me anima!”

Não por acaso, Liz sabe também o que não quer por perto.

“Pessoas agressivas, falsas e desonestas não me representam”, afirma.

Para trabalhar com ela, é preciso “amor, paixão, tesão pela arte”.

A frase é direta, mas talvez diga tanto sobre a profissional que ela se tornou quanto sobre o tipo de ambiente que decidiu construir ao redor de si. Depois de tantos anos, a escolha de quem divide o trabalho com ela parece ser tão importante quanto a escolha do projeto.


Duas gerações

Liz e Beatriz Reis – crédito: Victoria Mendes

Em algum momento da nossa conversa, a história profissional deixa de ser apenas a trajetória de Liz e passa a incluir Beatriz, sua filha e sócia na LEP.

É aqui que a relação entre as duas poderia facilmente cair naquela narrativa conhecida de mãe e filha que trabalham juntas. Liz, porém, faz questão de estabelecer outra medida. Beatriz não está ali apenas por ser sua filha. Está porque tem experiência, competência e um espaço próprio dentro da empresa.

“Trabalhar com a Bia é um presente, pois somos duas gerações”, conta.

Duas gerações significam, também, duas direções de aprendizado.

“Eu estou sempre aprendendo com ela, com sua juventude”, diz Liz.

A filha está à frente do set, cuida da comunicação com a equipe e, quando o assunto é tecnologia ou novas formas de lidar com a juventude, as duas trocam conhecimento o tempo todo.

“Tecnologia 100%, lidar com a juventude 100%”, resume Liz.

Existe ainda uma diferença de temperamento entre elas. Liz reconhece que não é tão delicada quanto a filha, enquanto Beatriz é sensível e escuta muito. A diferença poderia ser um ponto de atrito. Na prática, parece funcionar como complemento.

As duas, no entanto, voltam sempre para uma mesma questão: respeito.

E quando discordam?

“Ela sempre me convence.”

A resposta vem quase como uma pequena síntese da sociedade entre as duas. Beatriz escuta a experiência da mãe quando entram em cena os critérios jurídicos, os licenciamentos e os direitos. Liz, por sua vez, escuta a filha quando ela busca o melhor para a equipe e procura soluções que caibam no orçamento.

Uma sabe onde a outra enxerga melhor. E é justamente dessa diferença que a parceria parece tirar força.


Uma história que ainda precisava ser contada

Foi também trabalhando juntas que Liz e Beatriz chegaram a um dos momentos mais importantes da trajetória da LEP.

A Conspiração Condor, dirigido por André Sturm, é o primeiro longa de ficção da produtora e está entre os 15 filmes brasileiros pré-selecionados para representar o Brasil na disputa pelo Oscar 2027. A escolha do representante brasileiro acontece em setembro.

Chegar até ali já seria uma história. Mas, para Liz, a indicação parece ter vindo acompanhada de uma sensação mais complexa: a de olhar para tudo o que foi construído e reconhecer o trabalho por trás daquele momento.

“Tem algo de merecimento pela nossa dedicação incansável, e a surpresa de ter nossa primeira ficção indicada nos mostra que estamos no caminho certo. Eu só tenho a agradecer a todos que fizeram este filme. Que o mérito é de todos!”

E então a rotina reaparece.

A comemoração precisou dividir espaço com novos editais, projetos em andamento e, agora, uma preparação para viver uma protagonista.

É um movimento que combina com a maneira como Liz conta a própria história. A conquista chega, é celebrada, mas não parece produzir uma pausa muito longa. Há sempre alguma coisa esperando na próxima página.

No caso de A Conspiração Condor, o ponto de partida foi uma história que chegou até ela por meio de André Sturm. O filme parte das mortes de Juscelino Kubitschek e João Goulart e passa também por Carlos Lacerda e pela Frente Ampla.

Para Liz, havia uma questão urgente naquela história, especialmente em uma época marcada pelas fake news.

“Fizemos um filme sem bandeiras políticas”, explica.

O que interessava era provocar uma outra atitude diante daquilo que chega até nós: “não aceitarmos tudo que nos dizem por aí, e sim estudar e nos aprofundar.”

Essa ideia ajuda a entender por que a pesquisa ocupou tanto espaço durante o processo. A direção, o roteirista Victor Bonini, a própria equipe e o trabalho de arte de Ana Rita Bueno participaram de uma investigação extensa.

E, conforme Liz avançava nesse processo, uma das descobertas que mais a surpreendeu foi justamente a dimensão de acontecimentos que ela considera pouco investigados ao longo do tempo.

Em maio de 2026, após o lançamento do filme, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos anunciou que JK foi assassinado pela ditadura.

A história do filme, então, continuava produzindo perguntas fora dele.

É nesse contexto que Liz fala também sobre o papel da investigação. A jornalista Silvana, personagem do filme, é inspirada em profissionais que viveram aquela época e atravessaram barreiras para investigar versões oficiais.

“Eu vejo como um pedaço de cada profissional que investigou na época e atravessou tantas barreiras”, conta.

Algumas desistiram. Outras podem ter sido silenciadas pela própria ditadura.

“E nunca foi efetivamente investigada a sua morte.”

Talvez por isso, quando perguntamos o que gostaria que o público levasse do filme, Liz não fale apenas sobre o que acontece dentro da tela.

Ela lembra de um debate de que participou depois de uma sessão nas Fábricas de Cultura, na periferia. Fala do interesse dos jovens, das perguntas, dos questionamentos. O que fica da experiência parece ser justamente a vontade de continuar perguntando.

E então vem um conselho que serve para aquela história, mas também para o tempo em que estamos vivendo:

“pesquisem, investiguem e não aceitem tudo que escutam”.

Até quando a fonte é uma inteligência artificial, ela diz, é preciso questionar, pedir profundidade, buscar outras fontes confiáveis, assistir a filmes, ler livros e construir opiniões a partir de camadas de conhecimento.


Maria Thereza

No meio de uma história em que Liz já ocupava um lugar de responsabilidade enorme como produtora, André Sturm fez um convite que mudaria também a sua relação com o filme: viver Maria Thereza Goulart.

“Que sinceramente só ela já valia um novo filme”, brinca.

O papel veio como um presente, mas também como um desafio particular. Liz precisava liderar uma produção daquele tamanho e, nos dias de filmagem, fazer uma coisa que talvez fosse uma das mais difíceis para quem estava acostumada a controlar tantos detalhes: se desconectar completamente da produtora para entrar na personagem.

Foi aí que Beatriz assumiu uma função importante.

“Ainda bem que tenho a Bia, que fez com que nada da produção me afetasse nos dias de atuação.”

No set, Liz diz que não era produtora.

“Eu não fui ninguém além da minha personagem Maria Thereza Goulart.”

Para chegar a ela, estudou a biografia de Maria Thereza Goulart escrita por Wagner Willian. A leitura a sensibilizou e despertou o desejo de construir aquela mulher a partir daquilo que nem sempre está escrito.

“Tentei dar à Thereza, no silêncio do seu luto, no meu subtexto, a dor da perseguição e a perda do marido”, conta.

E fala dela como uma potência feminina importante para a história do Brasil, especialmente por seu lugar como primeira-dama.

A experiência também trouxe uma ansiedade que Liz conhece de outro lugar. Como produtora, diz que fica responsável, ligada, atenta e comprometida. Como atriz, fica “intuitiva, ansiosa e entregue”.

São estados bastante diferentes. E talvez seja justamente por isso que a volta à atuação tenha exigido tanto desprendimento.

Quando entrou no set ao lado de um elenco que incluía Dan Stulbach, Mel Lisboa, Maria Manoela e Pedro Bial, o coração tremeu.

Havia uma cobrança diferente. Liz já conhecia o peso de ser responsável por uma produção. Agora precisava se permitir experimentar, confiar e aceitar que, diante da câmera, não teria como controlar tudo.

“Os diretores confiavam no meu trabalho de atriz, pra além da produtora, e isto me deu confiança”, conta, lembrando também de Cordialmente Teus e da parceria com Aimar Labaki.

As duas Liz, no fim, não precisaram disputar espaço.


O que vem depois

Depois de quase 50 obras produzidas, muitas delas documentais, Liz ainda fala sobre o futuro com a disposição de quem não está interessada em fechar uma trajetória.

Ela dirigiu Abre a Coxia, ao lado de Andradina Azevedo e Dida Andrade, série de oito episódios para a Arte 1 sobre os bastidores das coxias de teatro. Produziu Baleias em Abrolhos, com o diretor Humberto Bassanello, e dirigiu Nômade, sobre o cantor Renato Goda, exibido na Box Music.

Agora, quer dirigir uma ficção. Quer trabalhar com grandes diretores brasileiros que respeita e admira. E quer experimentar a televisão também como atriz, fazendo novelas.

A vontade de continuar aparece, mais uma vez, antes de qualquer plano definitivo.

Há histórias que já estão esperando. Liz não conta quais.

“Tem muitas histórias que quero fazer, mas não vou revelar pra ninguém ter a mesma ideia”, diz, rindo.

O que ela revela é o tipo de personagem e de narrativa que procura agora: “histórias que falam de pessoas adultas, profundas”.

Enquanto isso, a atriz se prepara para viver uma protagonista. A produtora continua trabalhando. E a menina que sonha, aquela da primeira frase, aparentemente também.

No fim da nossa conversa, pergunto o que Liz gostaria que Beatriz dissesse sobre ela muitos anos adiante, quando estiver contando a história da LEP.

A resposta não fala de números, de prêmios ou da quantidade de projetos realizados.

“Quero que ela diga que eu fui jovem de espírito até o fim, caminhei com paixão e sabedoria, e que sempre acreditei que ser ético e justo é o único caminho que constrói algo que dura.”

 

 

Direção de Arte: André Izeis

Assessoria: Patricia Rabello

Foto: Carlo Locatelli

Beleza: Pedro Villar

Stylist: Rafael Menezes

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