Quando uma modelo grávida entra na passarela, a “moda” inteira para para olhar

Entre tantas imagens produzidas pelas semanas de moda, poucas geraram tanta repercussão recente quanto um gesto simples.

Durante a apresentação da coleção Métiers d’Art da Chanel, em Seul, a modelo Sora Choi caminhava pela passarela usando um vestido branco inspirado nos anos 1920 quando levou as mãos até a barriga.

O gesto parecia pequeno.

Mas foi suficiente para transformar aquele momento em um dos assuntos mais comentados do desfile.

Pouco depois, a confirmação: Sora Choi estava grávida.

Sora Choi para Chanel, desfilando grávida

Foto: divulgação

A repercussão internacional aconteceu porque, apesar dos avanços recentes nas conversas sobre diversidade, mulheres grávidas continuam sendo uma presença extremamente rara nas passarelas de luxo, afinal, corpos que fogem do padrão tradicional da moda seguem aparecendo de forma muito limitada nos desfiles mais prestigiados da indústria.

O mais interessante é que esse não foi um caso isolado dentro da Chanel.

Poucas semanas antes, durante a coleção Cruise 2027 apresentada em Biarritz, a modelo e musicista Kaya Wilkins também desfilou grávida para a maison. Segundo a própria modelo contou em uma entrevista, a equipe de casting estava procurando deliberadamente uma mulher grávida para integrar o desfile. Ela estava com cinco meses de gestação quando recebeu o convite.

O detalhe é importante porque muda completamente a leitura do momento.

Não se tratava de uma modelo que já fazia parte do casting e permaneceu no desfile apesar da gravidez.

A gravidez fazia parte da proposta visual.

E é justamente aí que a discussão fica interessante.

Porque, embora a Chanel venha sendo apontada por veículos internacionais como uma das poucas grandes maisons que recentemente abriram espaço para modelos mais velhas, grávidas e perfis menos convencionais, isso ainda não representa uma transformação ampla da indústria.

Na mesma temporada em que essas imagens ganharam destaque, relatórios de diversidade mostraram que a presença de modelos plus size continuou em níveis extremamente baixos nas principais semanas de moda internacionais. Segundo levantamento citado pela Marie Claire com dados da Vogue Business, apenas 0,3% dos looks apresentados nas temporadas Fall 2026 foram vestidos por modelos plus size.

Por isso, talvez a pergunta mais interessante não seja se a moda se tornou mais inclusiva, mas sim entender por que uma mulher grávida ainda se torna notícia quando aparece em uma passarela.

A resposta diz muito sobre o momento atual da indústria.

Ao mesmo tempo em que marcas falam sobre diversidade, feminilidade contemporânea e representação, cresce uma nova obsessão cultural pela magreza extrema. A popularização de medicamentos como Ozempic e Mounjaro reacendeu discussões sobre padrões corporais e alimentou a percepção de que a moda estaria retornando silenciosamente a estéticas mais próximas dos anos 1990 e 2000.

Nesse contexto, ver uma barriga de grávida em uma das passarelas mais observadas do mundo acaba carregando um significado que vai além do desfile.

Não porque a indústria tenha resolvido suas questões de representação.

Mas porque aquele corpo lembra algo que a moda ainda parece ter dificuldade de mostrar com naturalidade: mulheres vivendo experiências reais.