Ana Petta e Helena Petta em fotografia por Flavia Wolf

Duas das vozes mais importantes do audiovisual brasileiro quando o assunto é saúde

Duas vozes importantes do audiovisual brasileiro, Ana e Helena Petta, estabelecem um diálogo entre medicina, sociedade e narrativa. Com produções como “Unidade Básica” e “Quando Falta o Ar”, exploram a saúde pública além do sensacionalismo, revelando a realidade de profissionais e pacientes. Agora, na série “MED”, ampliam a discussão sobre saúde como uma experiência emocional e social.

Nem todo audiovisual está atrás do acontecimento. Alguns preferem olhar para o que sustenta o cotidiano ou expõe suas falhas.

É nesse lugar que Ana Petta e Helena Petta construíram uma das trajetórias mais consistentes do audiovisual brasileiro quando o assunto é saúde pública. Irmãs, mas vindas de formações diferentes, as duas transformaram suas áreas de atuação em um diálogo contínuo entre medicina, sociedade e narrativa. Ana é cineasta. Helena, médica. Juntas, encontraram uma maneira rara de contar histórias sobre saúde sem reduzir a experiência humana a estatística, heroísmo ou espetáculo.

Muito antes de o debate sobre saúde pública ocupar o centro das conversas no país, elas já olhavam para esse universo com atenção, complexidade e intimidade.

Foi assim em “Unidade Básica” (no ar na Universal TV) série criada pelas irmãs e considerada um marco ao colocar as UBSs no centro da dramaturgia brasileira. Em vez da estética tradicional dos hospitais ultra tecnológicos e diagnósticos mirabolantes, a produção escolheu acompanhar a realidade dos médicos de família e da atenção primária no Brasil, profissionais que muitas vezes são o primeiro contato de milhões de brasileiros com o sistema de saúde.

Elenco de Unidade Básica, Vinícius de Oliveira, Ana Petta, Caco Ciocler e Carlota Joaquina em foto por Marina Prado

Foto: Marina Prado

A série entendia algo fundamental: existe enorme potência dramática no cotidiano.

Nas consultas rápidas, nos vínculos construídos ao longo do tempo, nos conflitos éticos, na falta de recursos, no esgotamento emocional e, principalmente, nas diferenças brutais entre os territórios brasileiros. “Unidade Básica” ajudou a apresentar ao público uma medicina distante do glamour frequentemente retratado na ficção e muito mais próxima da experiência real da população.

Mas talvez tenha sido durante a pandemia que o trabalho das duas tenha alcançado uma dimensão ainda mais urgente.

Em “Quando Falta o Ar”, documentário lançado após os momentos mais devastadores da Covid-19, Ana e Helena acompanharam profissionais da saúde em hospitais públicos de diferentes regiões do Brasil enquanto o país atravessava o colapso sanitário. O filme não se apoia apenas na tragédia coletiva da pandemia. Ele observa também o desgaste físico e psicológico das equipes médicas, a exaustão permanente, a falta de estrutura, a escassez de recursos e o sentimento de abandono que atravessou tantos hospitais naquele período.

Documentário Quando Falta o Ar, por Ana Petta e Helena Petta

Foto: Documentário Quando Falta O Ar

Sem recorrer ao sensacionalismo, o documentário registra um Brasil ferido.

Um país onde profissionais improvisavam para continuar atendendo pacientes, enquanto famílias aguardavam notícias do lado de fora e corredores hospitalares se transformavam em retratos silenciosos da desigualdade brasileira. Ao acompanhar diferentes realidades do país, o filme também evidencia como a pandemia nunca foi vivida da mesma forma por todos.

Existe um cuidado importante na forma como as irmãs Petta abordam a saúde: elas não transformam médicos em super-heróis intocáveis, nem pacientes em personagens reduzidos à própria dor. Há humanidade suficiente para admitir falhas, cansaço, medo e limites.

Talvez por isso seus projetos consigam gerar identificação mesmo quando tratam de temas tecnicamente complexos.

Agora, as duas retornam ao universo médico em “MED”, primeira série médica brasileira da Netflix. Ambientada em um hospital universitário, a produção acompanha a rotina intensa de jovens médicos em formação e mergulha nos conflitos emocionais, éticos e humanos da profissão. Mais uma vez, o interesse das criadoras parece menos voltado ao procedimento em si e mais às pessoas por trás dele.

Elenco da série da Netflix MED

Foto: divulgação

Ao acompanhar residentes diante da pressão, do excesso de responsabilidade e das ambiguidades da medicina contemporânea, “MED” amplia uma discussão que Ana e Helena vêm construindo há anos: a saúde não é apenas um sistema. É também uma experiência emocional, social e política.

Num audiovisual frequentemente guiado por tendências rápidas, franquias e fórmulas prontas, o trabalho das irmãs Petta insiste em outro caminho. Um caminho que observa o SUS, os hospitais universitários, os profissionais invisibilizados e os dilemas humanos que existem dentro dos consultórios e corredores hospitalares.

E talvez seja justamente por isso que suas obras permaneçam tão necessárias.