Uma saia, 63 possibilidades: o raciocínio por trás da Prada
Em uma temporada obcecada por tendências, Miuccia Prada e Raf Simons fizeram algo curiosamente simples: escolheram uma peça e passaram uma coleção inteira pensando sobre ela.
Há uma pergunta que poderia resumir a coleção Primavera/Verão 2027 da Prada: o que uma saia pode ser?
Miuccia Prada e Raf Simons fizeram os 63 looks apresentados em Milão girarem em torno da mesma peça. Saias curtas e na altura dos joelhos, retas e evasê, pregueadas, transparentes, decoradas, minimalistas ou carregadas de informação apareceram ao longo do desfile.
A ideia não surgiu do nada.
Em uma entrevista de 2006 ao Charlie Rose, Miuccia Prada havia descrito a saia como uma peça semelhante a uma camiseta: parte de um uniforme, mas aberta a diferentes maneiras de usar. Na mesma época, uma exposição chamada Waist Down reuniu saias produzidas pela Prada entre 1998 e 2004.

Vinte anos depois, a peça voltou a ocupar toda a coleção.
E é justamente aí que o desfile fica interessante.
Uma peça, 63 possibilidades
A Prada poderia ter escolhido uma tendência e construído a coleção ao redor dela. Em vez disso, partiu de um objeto conhecido e tratou a própria peça como matéria de pesquisa.
Algumas saias eram praticamente envoltórios presos ao corpo por grandes faixas de Velcro, decoradas com cristais. Outras receberam laços, fitas e estruturas de crinolina. Houve modelos que lembravam pinturas abstratas, enquanto outros exploravam materiais pouco convencionais, como algodão revestido para criar aparência de couro e tecidos tecnológicos.


A variedade não servia para esconder a falta de uma direção. Era a própria direção.
Raf Simons explicou que a coleção partia da possibilidade de continuar pensando sobre a saia e sobre as diferentes maneiras de transformá-la. A roupa aparece, portanto, como um ponto de partida para a construção de uma identidade, não como uma resposta imediata ao que já está circulando.
É uma distinção importante em uma temporada na qual as referências chegam de todos os lados.
O oposto de uma lista de tendências
Existe uma diferença entre reconhecer o que está acontecendo na moda e simplesmente reproduzir o que está acontecendo.
A primeira opção exige observação. A segunda pode ser resolvida com uma lista.
A Prada escolheu a primeira.
Isso também dá continuidade a um interesse que Miuccia Prada e Raf Simons vêm demonstrando nas coleções recentes: olhar para peças comuns e investigar o que ainda pode ser feito com elas.


No desfile masculino de Primavera/Verão 2027, a dupla trabalhou a partir do jeans de cinco bolsos, outro item extremamente familiar. A proposta era descobrir quantas maneiras diferentes uma peça tão conhecida poderia assumir.
Na coleção feminina, a saia ocupa esse lugar.
A roupa continua sendo reconhecível. O que muda é a quantidade de possibilidades que existe dentro dela.


E o que isso diz sobre tendência?
Uma temporada pode produzir dezenas de imagens classificadas imediatamente como tendências. Uma saia aparece, uma cor ganha força, determinado styling viraliza, uma referência histórica retorna. Em poucas horas, já existe uma lista pronta dizendo o que devemos observar.
A Prada fez o caminho inverso.
Em vez de perguntar “qual é a próxima tendência?”, a coleção parece perguntar “o que ainda podemos descobrir sobre uma peça que já conhecemos?”

Não há nada de novo na ideia de revisitar um clássico. O que chama atenção é fazer disso a estrutura inteira de uma coleção.
E é justamente por isso que o desfile produz assunto: uma ideia suficientemente boa não precisa de muitas ideias ao mesmo tempo.
Uma coleção que não precisa correr
Há também algo bastante atual na escolha.
A moda contemporânea convive com ciclos cada vez mais rápidos, microtendências e uma quantidade enorme de referências disputando atenção. Nesse ambiente, dedicar uma coleção inteira a uma única peça soa quase como um exercício de concentração.
A Prada não precisou inventar uma nova categoria de roupa. Trabalhou com uma que já existe há séculos.
O resultado mostra que novidade e velocidade não são necessariamente a mesma coisa.
Uma peça conhecida pode continuar gerando novas imagens quando existe uma visão por trás dela.
É justamente essa a diferença entre uma coleção que apenas participa de uma tendência e uma coleção que consegue produzir assunto.

Fontes consultadas:
Vogue e Prada
Fotos:
Alessandro Lucioni/Gorunway
Sobre a autora
Mayara Morelli é jornalista, publicitária e editora-chefe da Pitaya mag. Sua especialidade é moda e comportamento, mas a curiosidade costuma levá-la para outros lugares. Escreve sobre tudo aquilo que merece uma boa conversa. Ao longo da carreira, entrevistou artistas, escritores, estilistas e criadores de diferentes partes do mundo. Estudou moda na Università Bocconi, trabalhou com marcas do universo joalheiro no Brasil e em Dubai e atualmente aprofunda seus estudos em cultura e pensamento moderno e pós-moderno pela Wesleyan University. Fora da redação, divide a vida com quatro cachorros que ocupam muito mais espaço do que deveriam. E exatamente o espaço que merecem.
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