Fashion Weeks

O que vestimos quando ninguém está olhando

Ao completar dez anos, a The Attico deixa a vida pública de lado para investigar aquilo que acontece quando ninguém está olhando. Em um desfile montado entre camas e luzes baixas, Gilda Ambrosio e Giorgia Tordini exploram intimidade, desejo e a vida secreta por trás da imagem que escolhemos mostrar.

Existe uma versão de nós que só aparece quando ninguém está olhando.

É justamente essa pessoa que Gilda Ambrosio e Giorgia Tordini quiseram encontrar na primavera-verão 2027 da The Attico, coleção que também marca os dez anos da marca. O título, Quando Nessuno Guarda, já entrega a pergunta que conduz o desfile: o que acontece com a maneira de se vestir quando desaparece a necessidade de agradar, impressionar ou corresponder ao olhar de alguém?

Para procurar essa resposta, as designers escolheram um quarto.

Ou melhor, muitos deles. Um longo túnel escuro foi ocupado por camas com lençóis amassados e travesseiros espalhados, enquanto os convidados se sentavam nelas para assistir ao desfile. A imagem poderia facilmente levar a outras interpretações, mas Ambrosio e Tordini fizeram questão de explicar que as camas não tinham relação com sexo. O que interessava ali era a intimidade: o lugar privado onde uma pessoa pode ser quem quiser sem precisar se explicar.

A referência veio de uma ideia atribuída a Gabriel García Márquez: cada pessoa teria três vidas, uma pública, uma privada e uma secreta. A The Attico escolheu olhar para a última.

É uma escolha que combina com uma marca que, ao longo de dez anos, construiu uma mulher difícil de colocar em uma única definição. Na coleção de aniversário, isso aparece de maneira bastante literal. Há uma mulher de terno e outra de lingerie; uma mais rígida, outra mais lânguida; uma sensual, outra quase agressiva. Nenhuma precisa substituir a anterior.

A roupa acompanha essa multiplicidade.

Vestidos, saias e calças aparecem drapeados, torcidos e deliberadamente amassados. Um fio metálico inserido no tecido mantém algumas dessas formas alteradas, como se a peça tivesse sido deixada em determinada posição e decidido permanecer ali. A silhueta, por isso, não parece completamente resolvida. Pode ser ajustada, deformada, rearranjada.

A sensação de que alguma coisa já aconteceu com a roupa também aparece em outros elementos da coleção. A lingerie sai debaixo da roupa e passa a fazer parte dela. Zíperes percorrem calças justas, recortes deixam as costas à mostra, transparências encontram alfaiataria, enquanto peças de couro e ombros marcados trazem uma estrutura mais rígida para o conjunto.

É aí que a coleção fica mais interessante.

Porque a The Attico não está dizendo que existe uma versão verdadeira de uma mulher escondida dentro da roupa. Pelo contrário. As próprias designers afirmam que, no espaço privado, versões diferentes de si podem coexistir sem precisar fazer sentido para os outros. Não necessariamente aparece o “eu verdadeiro”. Pode simplesmente aparecer outra pessoa que também somos.

Essa ideia ajuda a entender por que a coleção não procura uma silhueta única.

O dressing gown, um dos códigos que acompanham a história da marca, volta em proporções mais dramáticas. O veludo reaparece. Há alfaiataria masculina, peças de inspiração militar, franjas, peles, paetês e vestidos pensados para a noite. São referências diferentes convivendo no mesmo guarda-roupa, como se cada uma pudesse corresponder a um estado de espírito.

E talvez seja justamente aí que a comemoração de dez anos faça mais sentido.

Em vez de olhar para trás e organizar uma retrospectiva da própria história, Ambrosio e Tordini revisitam algumas das imagens que ajudaram a construir a The Attico e deixam que elas mudem de lugar. A coleção não parece interessada em dizer “foi assim que chegamos até aqui”. Está mais preocupada em mostrar quantas mulheres ainda podem caber dentro da marca.

A cama, nesse contexto, deixa de ser apenas cenário.

É o lugar onde a roupa perde parte da obrigação de funcionar para os outros. Onde alguém pode dormir vestida, tirar uma peça, colocar outra, mudar de ideia. Onde a aparência não precisa obedecer a uma lógica tão organizada quanto a que mostramos quando sabemos que estamos sendo observados.

A moda costuma ser construída para o olhar.

A The Attico decidiu, por uma temporada, imaginar o que acontece quando ele desaparece.

E talvez a resposta não seja encontrar uma versão mais autêntica de nós mesmos, mas descobrir quantas outras ainda existem ali.

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Redação Pitaya

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