O Brasil entrou no radar. Mas o que estamos exportando?
A Samaritaine dedica o verão de 2026 à criatividade brasileira, reunindo moda, beleza, design e arte em Paris. A iniciativa amplia a presença de marcas brasileiras no exterior, mas também coloca em discussão como a identidade do país é apresentada internacionalmente.
O Brasil ganhou uma vitrine em Paris neste verão.
Entre 3 de julho e 26 de agosto, a Samaritaine realiza o Brésil Samaritaine – Bold Summer Edition, uma iniciativa dedicada à cultura e à criatividade brasileiras. O projeto ocupa o espaço com uma curadoria inspirada no modernismo brasileiro das décadas de 1940 a 1960.
A seleção reúne artistas e designers brasileiros, além de marcas de moda, beleza e lifestyle como FARM Rio, Água de Coco, Lapima, La Sirene, Viv Beauty, Manolita, Glorinha Paranaguá e outras.
O dado mais interessante talvez esteja justamente nessa combinação.
A iniciativa não apresenta apenas moda brasileira.
Ela apresenta um ecossistema criativo brasileiro.
Arte, design, beleza, acessórios, moda e lifestyle aparecem juntos. A curadoria foi concebida para funcionar como uma experiência cultural e comercial dentro de um dos endereços mais conhecidos do varejo parisiense.
Isso acontece em um momento em que a brasilidade também ganhou atenção internacional como referência de moda.
Em julho, a Vogue Business publicou uma análise sobre o chamado Brazilcore, identificando elementos como camisas de futebol brasileiras, Havaianas, óculos inspirados nos anos 2000 e uma paleta associada às cores da bandeira como parte do fenômeno. A publicação também apontou que grandes varejistas internacionais, como H&M e Zara, passaram a incorporar referências brasileiras em produtos.
É aí que surge uma questão relevante.
Quando uma cultura passa a despertar interesse internacional, existe sempre o risco de que sua representação seja reduzida a alguns códigos facilmente reconhecíveis.
No caso brasileiro, esses códigos são conhecidos: futebol, praia, tropicalismo, verde e amarelo, verão.
Eles fazem parte da nossa cultura.
Mas não são a cultura brasileira inteira.
A presença da Samaritaine é interessante justamente porque amplia esse repertório. Ao lado das marcas, o projeto apresenta artistas e designers contemporâneos e utiliza o modernismo brasileiro como referência para a ambientação.
Isso permite uma leitura mais ampla do momento.
O Brasil não está apenas sendo usado como inspiração visual.
Está sendo apresentado como origem de produtos, criadores e linguagens contemporâneas.
Ainda assim, não é possível afirmar que uma iniciativa como essa represente uma mudança definitiva na percepção internacional sobre a criatividade brasileira.
É um acontecimento específico, com duração determinada e curadoria própria.
O que ele mostra, de maneira concreta, é que existe interesse comercial e cultural em apresentar uma seleção mais ampla da produção brasileira ao público internacional.
E talvez a pergunta mais interessante não seja se o Brasil virou tendência.
Mas o que acontece quando a nossa identidade deixa de ser apenas referência e passa a ocupar espaço de mercado.
Porque exportar brasilidade não deveria significar transformar o Brasil em estampa.
Pode significar permitir que diferentes versões do país encontrem seu próprio público.
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