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Na Chanel, Matthieu Blazy revisita Gabrielle sem transformar o passado em regra

Matthieu Blazy revisitou a história de Gabrielle Chanel na coleção de verão 2027, apresentada no Grand Palais. Tweed transparente, bordados, estampas gráficas e silhuetas fluidas renovam os códigos da casa sem romper com seu legado.

Um vestido branco translúcido abriu o desfile de verão 2027 da Chanel. Ao lado dele, uma bolsa 2.55 que pertenceu à própria Gabrielle Chanel estabelecia uma ligação direta entre a fundadora e o trabalho de Matthieu Blazy. A escolha sintetizava a intenção da coleção: olhar para a história da casa a partir de suas contradições, sem tratá-la como um conjunto de códigos imutáveis.

Na Chanel, Matthieu Blazy revisita Gabrielle sem transformar o passado em regra

Apresentada no Grand Palais, em Paris, em 5 de outubro, a coleção se desenvolveu como uma espécie de percurso pela vida e pelo imaginário de Gabrielle. Blazy não procurou reconstituir épocas específicas nem reproduzir os looks históricos da marca. Seu interesse estava nas diferentes camadas que formaram a identidade da estilista, da experiência inicial como costureira às transformações que fizeram da Chanel uma das casas mais reconhecidas da moda.

Essa abordagem apareceu em peças que colocavam referências tradicionais em situações inesperadas. O tweed, material associado aos tailleurs da casa, surgiu em versões transparentes, com bordados, franjas e acabamentos metálicos. Um conjunto em tweed com estampa de tigre aproximava um dos tecidos mais emblemáticos da Chanel de uma imagem mais gráfica e expressiva. Saias plissadas, vestidos leves e jaquetas curtas conviviam com casacos e peças de inspiração masculina.

O resultado não dependia de abandonar os símbolos da marca para parecer contemporâneo. Blazy preferiu alterar a maneira como eles são construídos e usados. O tweed continuava reconhecível, mas deixava de funcionar como garantia automática de elegância clássica. Ao receber transparências e superfícies ornamentadas, passava a sugerir outras possibilidades para o guarda-roupa Chanel.

A coleção também recuperou uma dimensão de liberdade presente na história de Gabrielle. A estilista ficou conhecida por desafiar convenções de vestuário feminino e incorporar referências práticas, incluindo elementos associados às roupas masculinas. Essa memória aparece aqui menos como uma lição a ser repetida e mais como uma pergunta: como uma casa que nasceu da contestação continua capaz de se transformar?

A resposta de Blazy está nas proporções, nos materiais e na maneira como as roupas se movimentam. As silhuetas alternam fluidez e estrutura, enquanto os acabamentos elaborados convivem com peças de aparência mais simples. A coleção permite que a Chanel seja reconhecida sem exigir que todas as roupas repitam a mesma imagem de mulher.

O cenário ampliou a dimensão imaginativa do desfile. Sob estruturas iluminadas que lembravam pássaros em voo, a passarela criava uma atmosfera entre o familiar e o fantástico. A trilha sonora, que incluiu Britney Spears, afastava a apresentação de uma reverência excessivamente solene ao legado da marca.

Essa é uma questão central para qualquer direção criativa que assume uma casa histórica. Preservar sua identidade não significa manter cada código intacto, assim como introduzir novidades não exige apagar aquilo que veio antes. O desafio está em descobrir quais elementos ainda têm capacidade de produzir sentido quando mudam de forma.

Na coleção de verão 2027, Blazy encontra esse espaço ao tratar o arquivo Chanel como uma história em movimento. A bolsa de Gabrielle, o tweed e as referências à alfaiataria permanecem presentes, mas não encerram a conversa. São pontos de partida para imaginar o que a mulher Chanel pode vestir agora.

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Redação Pitaya

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