Fashion Weeks

Milan Fashion Week começou: os acontecimentos que já estão definindo a temporada

Prada abriu a temporada com 63 saias, Glenn Martens se despediu da Diesel e Vogue World transformou a Galleria Vittorio Emanuele II em palco para uma celebração do artesanato italiano. Antes mesmo de a semana avançar, Milão já colocou algumas das principais questões da moda contemporânea sobre a mesa.

Milão não costuma precisar de muito tempo para dar o tom de uma Fashion Week. Na terça-feira, 22 de setembro, a cidade abriu oficialmente a temporada Primavera/Verão 2027 com Prada, Diesel e uma edição do Vogue World que ocupou a Galleria Vittorio Emanuele II. Em poucas horas, apareceram três assuntos que devem atravessar os próximos dias: a força de uma ideia de moda bem definida, o espetáculo como ferramenta de marca e a tentativa da indústria de conciliar tradição, tecnologia e um mercado menos previsível.

A programação segue até 28 de setembro, com 54 desfiles físicos e seis apresentações digitais. Entre os nomes que ainda entram em cena estão Fendi, Marni, Gucci, Bottega Veneta, Dolce & Gabbana, Ferragamo e Giorgio Armani. A temporada também marca o segundo momento de Maria Grazia Chiuri na Fendi, de Meryll Rogge na Marni e de Demna na Gucci. O único grande debut criativo da semana será o de Loris Messina e Simone Rizzo na Moschino.

Mas o primeiro dia já entregou bastante.

 

Prada colocou a saia no centro de tudo

A coleção da Prada, assinada por Miuccia Prada e Raf Simons, abriu a Fashion Week com uma proposta extremamente específica: os 63 looks apresentados tinham a saia como ponto de partida.

Não houve vestidos nem calças. Apareceram saias de comprimento próximo ao joelho, modelos evasê, pregueados, de couro, transparentes e com detalhes que pareciam deslocados ou prestes a sair do lugar. Algumas foram combinadas com suéteres e camisas; outras, com sutiãs de renda e peças mais delicadas.

A escolha não foi apresentada como uma tentativa de criar uma nova “tendência de saia”. A própria Miuccia Prada explicou que a peça permite trabalhar contrastes e diferentes lados de uma mesma personalidade. Para Raf Simons, a proposta partia justamente da liberdade de usar a saia em situações diferentes.

É uma maneira bastante Prada de começar uma temporada: pegar uma peça familiar e restringir o vocabulário para descobrir quantas possibilidades ainda existem dentro dela.

E pode ser que seja justamente isso que torne o desfile interessante neste momento. Em uma temporada em que a indústria continua procurando novas fórmulas para chamar atenção, Prada apostou em uma ideia simples o suficiente para ser reconhecida imediatamente e complexa o bastante para sustentar uma coleção inteira.


Diesel encerrou uma era

Se Prada começou com uma fórmula, Diesel terminou com uma despedida.

O desfile de Primavera/Verão 2027 marcou a última coleção de Glenn Martens para a marca. O designer deixa a direção criativa da Diesel depois de transformar a etiqueta em um dos exemplos mais evidentes da relação entre moda, cultura digital e espetáculo durante os últimos anos.

Para o seu último desfile, Martens voltou a uma linguagem que já fazia parte de sua passagem pela marca: provocação, denim, corpos, festa e uma apresentação pensada para ser comentada tanto quanto fotografada. A performance teve música explícita e performers ao vivo, mantendo a atmosfera de excesso que acompanhou alguns dos momentos mais marcantes de sua Diesel.

A saída acontece enquanto Martens permanece à frente da Maison Margiela. Para a Diesel, fica a pergunta sobre o que vem depois de um período em que a marca conseguiu transformar o próprio desfile em parte fundamental de sua comunicação.

E essa é uma das histórias que vamos acompanhar de perto nesta semana.

Glenn Martens deixa a Diesel depois de transformar a marca em um dos nomes mais reconhecíveis da nova geração do denim e do fashion spectacle. Em breve, a Pitaya vai voltar ao assunto para olhar de perto esse capítulo e o que ele deixa para a marca.

Acompanhe, em breve, por aqui.


Vogue World levou o “Made in Italy” para o centro da Fashion Week

Na noite de abertura, a Galleria Vittorio Emanuele II recebeu a quinta edição do Vogue World. Depois de Nova York, Londres, Paris e Los Angeles, o evento chegou a Milão com uma proposta particularmente ligada à identidade italiana: colocar o artesanato e o trabalho manual no centro da narrativa.

Dividido em cinco atos, o espetáculo percorreu referências que vão do Renascimento à industrialização italiana e ao cinema, chegando à relação entre inteligência, tecnologia e moda. A ideia central foi estabelecer um diálogo entre aquilo que é feito à mão e aquilo que é produzido por máquinas, uma escolha especialmente significativa em um momento em que a inteligência artificial ocupa cada vez mais espaço na indústria criativa.

A escolha da Galleria Vittorio Emanuele II também fez parte da mensagem. Um dos símbolos arquitetônicos de Milão, o espaço colocou moda, patrimônio, turismo e espetáculo dentro da mesma imagem.

O Vogue World também mostra como os grandes eventos de moda estão assumindo uma função que vai além do desfile tradicional. O formato é transmitido globalmente, reúne celebridades e marcas e transforma a própria cidade em cenário.

Em Milão, isso ganhou uma camada adicional: a celebração de uma indústria que construiu parte de sua identidade justamente em torno do artesanato, da manufatura e da ideia de Made in Italy.

E existe uma questão maior por trás de tudo isso

Enquanto os desfiles continuam produzindo imagens grandiosas, o mercado que sustenta essa indústria atravessa uma fase bem menos confortável.

Uma análise publicada pela Reuters na abertura de Milão aponta que as grandes marcas de luxo estão aumentando investimentos em lojas, experiências e desfiles justamente enquanto enfrentam desaceleração nas vendas. A agência cita estimativas de que uma apresentação de grande porte pode chegar a custar € 10 milhões e destaca a pressão provocada pela inflação, pela redução do consumo da classe média e pela disputa cada vez maior pelos clientes de alta renda.

Segundo a Reuters, executivos e especialistas do setor também vêm observando uma mudança nos gastos dos consumidores, com maior interesse por categorias como bem-estar, saúde, longevidade, hotéis e restaurantes.

É uma contradição interessante para acompanhar durante esta Fashion Week: a moda precisa criar desejo em uma indústria que está, ao mesmo tempo, tentando justificar preços cada vez mais altos e convencer consumidores a continuar escolhendo produtos de luxo.

E Milão parece ter decidido responder a isso com algumas das ferramentas que conhece melhor: ideias fortes, experiência e espetáculo.

 

Donatella abriu outro capítulo antes mesmo do primeiro desfile

Como se a semana ainda precisasse de mais uma grande história, Donatella Versace anunciou, na segunda-feira, uma nova parceria com a varejista digital REVOLVE para criar um negócio independente de moda e beleza voltado principalmente para consumidores Millennials e da Geração Z.

A notícia chega poucos meses depois de a Prada concluir a aquisição da Versace e enquanto Pieter Mulier se prepara para apresentar sua primeira coleção para a casa, em 2027.

Donatella, que deixou a direção criativa da Versace em 2025 e hoje atua como embaixadora da marca, passa agora a construir uma nova frente com uma operação pensada desde o início para o ambiente digital e para um público mais jovem.

É uma história que merece ser separada do restante da programação porque toca em uma questão maior: o que acontece quando uma das figuras mais reconhecíveis do luxo decide construir algo fora da casa que ajudou a definir?

A Pitaya vai aprofundar essa história.


Donatella Versace está de volta. Mas agora, com uma marca só dela.


Milão ainda está só começando

O primeiro dia não entrega uma tendência única, nem deveria. Entrega pistas.

Prada escolheu a repetição de uma única peça para mostrar quantas possibilidades cabem dentro dela. Diesel encerrou um ciclo baseado em espetáculo e provocação. Vogue World olhou para o passado artesanal italiano enquanto colocava inteligência e tecnologia no mesmo palco. E, por trás dos desfiles, o mercado continua procurando uma maneira de recuperar crescimento sem perder relevância.

Nos próximos dias, entram em cena novos diretores criativos, casas em transformação e coleções que podem confirmar ou contrariar algumas dessas primeiras impressões.

Por enquanto, uma coisa já está clara: Milão não começou falando de uma única moda. Começou falando sobre o que a moda precisa ser agora.

 

 



Fontes consultadas

Vogue, Reuters, WWD, FashionNetwork, The Guardian e Camera Nazionale della Moda Italiana.

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Redação Pitaya

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