Miguel Vieira faz do preto uma matéria
Miguel Vieira encerra o calendário presencial de Milão com Back to Black, coleção que usa o preto como ponto de partida para explorar corte, textura, transparência e volume. Alfaiataria precisa e flores construídas sobre os próprios tecidos revelam diferentes comportamentos da mesma cor.
Miguel Vieira encerrou o calendário presencial da Milan Fashion Week com uma coleção que poderia ter começado por qualquer cor. Ele escolheu o preto.


Back to Black usa o tom como ponto de partida para uma pesquisa sobre corte, textura, volume e movimento. Não há necessidade de recorrer a uma paleta extensa quando o tecido pode fazer esse trabalho sozinho.
A coleção começa pela alfaiataria.
Blazers de ombros definidos, calças retas, shorts de corte preciso e vestidos longos estabelecem uma linha bastante limpa. O corpo aparece através de decotes, recortes e transparências, enquanto o preto muda de comportamento conforme a matéria.
Veludo absorve a luz. Cetim devolve brilho. Malha cria relevo. Renda deixa a pele aparecer. Lã e tecidos mais estruturados seguram a silhueta.
As flores entram de uma maneira menos óbvia.
Em vez de funcionarem apenas como estampa, elementos botânicos são construídos em tecido e aplicados em lapelas, ombros, golas e pontos de cintura. Algumas peças parecem carregar pequenas esculturas sobre o corpo.
Essa relação entre forma e matéria atravessa a coleção inteira.
Um vestido preto de veludo segue uma linha quase colunar, interrompida apenas por uma abertura no decote. Em outro look, uma blusa texturizada encontra uma calça ampla de cetim. Há ainda sobreposições de renda sobre alfaiataria e peças com aplicações que quebram a superfície lisa do preto.
O resultado depende dos contrastes que aparecem quando a cor permanece a mesma.
A coleção também marca a chegada de Miguel Vieira ao calendário feminino de Milão. O designer português já tinha presença na cidade com suas apresentações masculinas e agora amplia sua participação para o ready-to-wear feminino.
Encerrar a programação presencial com Back to Black produz uma imagem bastante clara para a semana: depois de dias em que as coleções falaram de cor, arquivo, espetáculo, memória e transformação, Miguel Vieira reduz a discussão à matéria.
O preto não precisa ser o fim da cor.
Aqui, ele é o começo da roupa.


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