Michael Rider está encontrando sua própria Celine
Michael Rider apresentou sua sexta apresentação para a Celine com 71 looks femininos e masculinos, combinando alfaiataria, couro, seda, peças casuais e acessórios marcantes. Depois de trabalhar na maison durante a era Phoebe Philo e suceder Hedi Slimane, o designer começa a consolidar uma linguagem própria, baseada em roupas familiares, styling intuitivo e combinações inesperadas.
Quatro looks pretos abriram o desfile da Celine em Paris. Dois ternos e dois vestidos. Nada de uma entrada pensada para causar impacto imediato. O primeiro terno tinha calça relaxada, sandálias de inspiração tabi e brincos grandes, quase escultóricos. O segundo apareceu sob um casaco dourado de flores bordadas. Um vestido preto de seda ganhou tênis estreitos e uma pilha de pulseiras até o cotovelo.
Michael Rider gosta desse tipo de combinação.
Depois vieram a alfaiataria, o veludo, o cetim amassado, os casacos de couro e as calças chino. As peças eram familiares, mas a combinação entre elas raramente seguia o caminho mais previsível.
Essa é a principal característica do trabalho de Rider até aqui. O designer parte de roupas reconhecíveis e altera sua leitura por meio das proporções, dos acessórios e do styling.
Em Paris, Rider apresentou 71 looks femininos e masculinos. Um vestido de veludo preto apareceu com a cauda segurada sobre o braço; ternos dividiram espaço com sandálias de inspiração tabi; camisetas e calças casuais foram combinadas a peças de acabamento mais elaborado. Em outro momento, uma túnica prateada plissada surgiu sobre uma calça, acompanhada por uma pequena bolsa de poás. A coleção alternou precisão e descontração sem estabelecer uma divisão rígida entre roupa de dia e roupa de noite.




Rider descreveu sua abordagem como intuitiva. Em entrevista à Vogue France, disse gostar de buscar elementos familiares sem cair nos clichês. A ideia ajuda a entender por que a coleção não depende de uma única peça emblemática. O interesse está na maneira como cada roupa é construída e na possibilidade de imaginar diferentes combinações fora da passarela.
Os acessórios têm papel central nesse processo. Cintos com presença marcante, óculos redondos, brincos de pérola e sapatos de linhas estreitas dão personalidade a peças que, isoladamente, poderiam parecer convencionais. O vermelho, que já havia ganhado destaque em apresentações anteriores de Rider, reaparece em diferentes intensidades. Os sapatos de inspiração jazz, também presentes em seu vocabulário recente, reforçam a preferência por calçados flexíveis e discretos.


É uma construção que exige atenção aos detalhes. Um acessório muda o peso de um terno; um sapato baixo altera a formalidade de um vestido; uma peça de couro interrompe a delicadeza de um tecido leve. Rider não precisa exagerar o volume ou recorrer a uma imagem espetacular para fazer uma roupa chamar atenção.
A história recente da Celine torna esse caminho particularmente interessante.
Rider trabalhou na maison durante a passagem de Phoebe Philo e retornou à marca em 2024, depois de atuar na Ralph Lauren. Sua chegada aconteceu após sete anos de Hedi Slimane na direção criativa, período em que a Celine ganhou uma identidade muito ligada ao rock, à juventude e a silhuetas estreitas.
São duas heranças visuais fortes. Philo consolidou uma visão de luxo centrada na alfaiataria, nas proporções e em uma mulher que não precisava se vestir para ser observada. Slimane transformou o imaginário da marca, aproximando-o da música e de uma estética mais jovem. Rider conhece a primeira fase por experiência própria, mas não parece interessado em reproduzi-la.
Sua Celine tem outra preocupação: o guarda-roupa como expressão pessoal.

As roupas não precisam chegar prontas em um conjunto fechado. Uma peça sofisticada pode ser usada com outra casual; um look formal pode ganhar uma nota de humor; um acessório pode parecer escolhido por impulso. Essa liberdade dá à coleção uma qualidade menos ensaiada, mesmo quando a construção das peças é precisa.
Na sexta apresentação de Rider para a maison, a linguagem começa a ficar mais fácil de reconhecer. A contagem considera suas apresentações femininas e masculinas, não seis coleções femininas. E o que se repete de uma temporada para outra não é uma fórmula rígida, mas uma maneira de combinar peças, cores e acessórios.
O vermelho é um exemplo. Os sapatos de inspiração jazz são outro. Ambos começam a formar um repertório que pode crescer sem precisar dominar todas as roupas.




A influência de Rider já ultrapassa o público que consome a própria Celine: escolhas apresentadas na passarela passam a aparecer no modo como as pessoas se vestem e interpretam tendências. Esse efeito é importante para uma marca de luxo. Uma coleção pode produzir imagens fortes durante alguns dias; uma linguagem consistente precisa continuar despertando interesse depois que o desfile termina.
Rider ainda está no início de sua trajetória à frente da maison, mas já começa a definir o que a diferencia. Sua Celine preserva a precisão parisiense sem tornar a roupa excessivamente formal. A alfaiataria convive com camisetas, o couro com a seda, e os acessórios introduzem pequenas rupturas no conjunto.
O resultado não depende de romper com tudo o que veio antes. Depende de escolhas que, repetidas e desenvolvidas ao longo das temporadas, começam a formar uma assinatura.
Na primavera-verão 2027, Michael Rider dá mais um passo nessa direção. Sua Celine já tem um vocabulário próprio, e ele está nas combinações.
Sobre a autora
Mayara Morelli é jornalista, publicitária e editora-chefe da Pitaya mag. Sua especialidade é moda e comportamento, mas a curiosidade costuma levá-la para outros lugares. Escreve sobre tudo aquilo que merece uma boa conversa. Ao longo da carreira, entrevistou artistas, escritores, estilistas e criadores de diferentes partes do mundo. Estudou moda na Università Bocconi, trabalhou com marcas do universo joalheiro no Brasil e em Dubai e atualmente aprofunda seus estudos em cultura e pensamento moderno e pós-moderno pela Wesleyan University. Fora da redação, divide a vida com quatro cachorros que ocupam muito mais espaço do que deveriam. E exatamente o espaço que merecem.
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