Martins revisita a história da moda em desfile na SPFW
Tom Martins reúne referências de cinco coleções internacionais em uma apresentação marcada por sobreposições, estampas, volumes amplos e acessórios expressivos.
Depois de uma apresentação anterior concentrada no jeans, no branco e em uma estética mais contida, Tom Martins voltou à passarela da São Paulo Fashion Week com uma coleção que abraça o excesso. Para a temporada N61, o estilista partiu de trabalhos que marcaram sua formação e construiu uma proposta na qual diferentes momentos da história da moda se encontram.
Entre as referências estão a coleção grunge de Marc Jacobs para a Perry Ellis, de 1993; a alta-costura da Maison Margiela para a primavera de 2014; a Dior de John Galliano para o verão de 2002; o trabalho masculino de Vivienne Westwood para o inverno de 2016; e a coleção de Alexander McQueen para o inverno de 2009.
O repertório aparece em combinações que aproximam peças esportivas, alfaiataria, estampas e materiais delicados. O xadrez divide espaço com desenhos de frutas e flores, enquanto rendas, organza, seda e brocados são aplicados sobre tecidos como algodão e denim.

As proporções oversized, características da Martins, permanecem presentes. Recortes, patchwork e acabamentos desfiados reforçam o caráter experimental das roupas. As máscaras que cobrem os rostos das modelos também chamam a atenção e acrescentam uma dimensão performática à apresentação.
Os acessórios acompanham a profusão de referências: correntes, escapulários, miçangas, cristais e broches aparecem combinados nos mesmos looks. Até as camisetas brancas, aparentemente básicas, recebem aplicações metálicas.

A escolha dos materiais também merece atenção. Parte dos tecidos delicados e dos aviamentos veio de estoques antigos, enquanto o jeans foi garimpado e reaproveitado com técnicas de upcycling. Esses recursos se integram à pesquisa visual sem restringir a coleção a uma única proposta estética.

Em vez de esconder suas inspirações, Tom Martins as incorpora à narrativa do desfile. O resultado não segue uma referência isolada, mas mistura códigos de diferentes épocas e criadores, reorganizados a partir das proporções, das estampas e do gosto pelo maximalismo que caracterizam a Martins.
A coleção mostra uma marca disposta a explorar seu repertório sem abandonar a própria linguagem. O exercício está justamente em reunir tantas referências e fazer com que elas coexistam em uma mesma apresentação.
Sobre a autora
Mayara Morelli é jornalista, publicitária e editora-chefe da Pitaya mag. Sua especialidade é moda e comportamento, mas a curiosidade costuma levá-la para outros lugares. Escreve sobre tudo aquilo que merece uma boa conversa. Ao longo da carreira, entrevistou artistas, escritores, estilistas e criadores de diferentes partes do mundo. Estudou moda na Università Bocconi, trabalhou com marcas do universo joalheiro no Brasil e em Dubai e atualmente aprofunda seus estudos em cultura e pensamento moderno e pós-moderno pela Wesleyan University. Fora da redação, divide a vida com quatro cachorros que ocupam muito mais espaço do que deveriam. E exatamente o espaço que merecem.
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