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Lumiar

Edição 4 · outubro 2026

“Eu e a minha arte caminharemos juntas pelo resto da vida” – Ana Jeckel

Ana Jeckel e tudo o que ainda cabe numa história

Há uma fotografia da infância de Ana Jeckel em que ela aparece vestida de pirata ao lado da irmã. As duas estão na casa dos avós, onde também…

Mayara Morelli 15 minutos de leitura
“Eu e a minha arte caminharemos juntas pelo resto da vida” – Ana Jeckel

Há uma fotografia da infância de Ana Jeckel em que ela aparece vestida de pirata ao lado da irmã. As duas estão na casa dos avós, onde também brincavam de luta de espadas pela sala. Quando pensa naquele período, são essas imagens que aparecem primeiro: as duas juntas, desenhando, brincando, tocando piano. Em quase todas, a arte já estava por perto.

Ana começou a tocar piano aos três anos. Conta que cantava antes mesmo de começar a falar. Cresceu entre duas referências que ajudariam a formar seu caminho: a mãe, que vem dos palcos, e o pai, da escrita.

“Sempre gostei de escrever, mas sempre adorei música. Eu comecei a tocar piano quando tinha 3 anos de idade e eu canto antes mesmo de ter começado a falar. Sempre fui muito influenciada pelos meus pais. Minha mãe vem dos palcos e o meu pai da escrita e eu acho que sou um pouquinho dos dois.”

Quando criança, teve muitos sonhos. Entre eles, estava o mar.

“Quando eu era criança, eu tinha todos os tipos de sonho, mas sempre amei o mar. Lembro de querer ser oceanógrafa e trabalhar com animais marinhos.”

Hoje, ela reconhece que essas vontades acabaram encontrando espaço na arte.

“Acho que juntei as minhas paixões todas na minha arte. Hoje escrevo histórias para jovens sobre aventuras no mar e componho canções para os meus livros… Acho que foi algo que aconteceu naturalmente.”

Uma das primeiras histórias que inventou se passava em uma ilha. Havia um grupo de amigas, animais da floresta e um tesouro pirata. A inspiração vinha das brincadeiras com a irmã e das histórias que conhecia naquela época. Também existia o desejo de morar em uma ilha.

“Acho que assisti ‘A Ilha da Imaginação’ um pouco demais quando criança!”

O mar e as viagens apareciam também nos sonhos que Ana tinha fora das histórias. Ela se lembra de um mapa-múndi que ganhou da madrinha. Usava uma moeda para raspar os países conforme os conhecia e queria vê-lo inteiro colorido.

Se pudesse encontrar hoje a Ana de dez ou doze anos, imagina que ela perguntaria se as duas conseguiram conhecer o mundo. Nova York, Paris, os lugares que existiam naquele mapa.

“Eu costumava ter esse mapa mundi que a minha dinda me deu e eu raspava com uma moeda todos os países que eu ia conhecendo até todo ele ficar colorido. Sempre sonhei trabalhar com algo que me permitisse viver isso.”

Para aquela menina, Ana teria uma resposta:

“Eu contaria que vivemos grandes aventuras. Que aquelas histórias que viviam apenas na nossa cabeça, viraram um universo inteiro e inspiraram milhares de jovens por todo o mundo.”


Uma escolha que nunca aconteceu

Se a arte esteve presente desde cedo, escolher uma única forma de fazer dela profissão nunca funcionou para Ana.

Ela passou pela atuação, pela música e pela literatura. Durante muito tempo, achou que precisaria escolher uma delas. A pressão vinha também de fora. Ouviu que as artes não levavam a lugar algum e que deveria encontrar outra profissão, uma área em que pudesse se encaixar.

“Só que eu nunca consegui. Os testes vocacionais no ensino médio eram o meu maior pesadelo!”

Os pais fizeram o caminho contrário. Sempre perceberam que Ana era das artes e apoiaram suas escolhas. A atuação acabou se tornando profissão antes da literatura, embora a escritora já existisse havia muito tempo.

“A Ana escritora existiu muito antes da atriz, mas a vida aconteceu e a Ana atriz passou a trabalhar antes do que a escritora. Consequentemente, amadureceu e aprendeu sobre o mundo antes.”

A experiência como atriz entrou diretamente no processo de escrita. Ana costuma imaginar primeiro suas histórias como roteiros. Os personagens aparecem em cena, com seus movimentos, vozes e maneiras próprias de falar.

“Eu amo escrever diálogos e imaginar os meus personagens como atores em cena. Imagino o jeitinho que cada um deles vai dar uma fala e até os movimentos que eles fazem, como se eu estivesse assistindo-os em um set de cinema.”

A literatura trouxe uma descoberta que ela não havia feito na atuação.

“Descobri o que é paixão de verdade pelo meu ofício.”

Ana conta que tratava a carreira de atriz como um trabalho comum. A relação com a escrita foi diferente desde o primeiro livro e, principalmente, desde o encontro com os leitores.

“Quando publiquei o meu primeiro livro, quando encontrei os meus leitores pela primeira vez… eu senti que tinha finalmente encontrado o meu lugar.”

Aos 25 anos, ela diz que já encontrou seu lugar na arte. A vida, porém, continua aberta.

“Ainda não acho que eu tenha encontrado o meu lugar no mundo, uma vez que ainda tenho muita coisa para viver, fazer e explorar, mas na arte sim.”

Ela quer continuar estudando história da arte, ciências, cultura, literatura, cinema e arqueologia. Quer seguir aprendendo enquanto sua própria arte muda.

“Sinto que hoje, com a idade que eu tenho, eu e a minha arte caminharemos juntas pelo resto da vida. Sempre em constante mudança e aprendizado.”


Os livros que ficaram

Quando Ana fala sobre os adolescentes que leem seus livros, volta para uma época em que também precisava encontrar um lugar para pertencer.

Ela tinha doze ou treze anos quando lia Rick Riordan e Paula Pimenta. Entre tantas possibilidades para ocupar o tempo livre, escolhia voltar para aqueles livros.

“Me sentia amiga daqueles personagens e sonhava poder viver aquelas aventuras. Eram o meu verdadeiro refúgio da vida real.”

O que ela procurava era pertencimento.

“Lembro de me sentir confusa e incompreendida e eu só queria pertencer verdadeiramente a algum lugar. E lembro de encontrar esse refúgio nos livros.”

Hoje, adulta, Ana olha para essas leituras de outra maneira. Não diz que sentia falta de algo específico naquela época. A percepção sobre representatividade veio com as experiências que acumulou depois.

“Hoje, como uma mulher adulta que passou por inúmeras descobertas pessoais e ensinamentos, vejo o quanto a representatividade é importante e o quanto ela ainda faz falta para os jovens.”

As aventuras e os romances que lia aos treze anos continuam sendo referências. A preocupação agora é fazer com que seus próprios leitores encontrem nas páginas um espaço em que possam se reconhecer.

“Hoje, bebo na fonte dos livros de aventura e romance que eu lia aos treze anos de idade, mas o principal para mim é fazer com que todos os meus leitores adolescentes se sintam vistos nas minhas páginas.”

Os assuntos que aparecem em seus livros também vêm da própria experiência: amizade, luto, liberdade, pertencimento e a dificuldade de crescer.

“Da vida. De todos os sentimentos da minha adolescência. De toda a frustração, daquela vontade de gritar.”

Ana tinha doze anos quando sentiu pela primeira vez que crescer poderia ser assustador. Era noite de Ano-Novo quando começou a chorar porque não queria deixar de ser criança.

“Não queria crescer. Não queria deixar de ser criança.”

A sensação voltou em diferentes momentos da vida. É por isso que, quando escreve para adolescentes, ela não tenta eliminar o medo que acompanha essa fase. Quer conversar com quem está vivendo aquilo.

“Quero me conectar, encontrar outros jovens que estejam passando por isso e dizer a eles que tudo ficará bem. Que eles não estão sozinhos.”

Há coisas que gostaria de ter ouvido quando era mais nova. Uma delas é que poderia transformar a escrita em carreira.

“Queria ter ouvido que tudo é possível. Que posso fazer da escrita a minha carreira.”

A outra veio com o tempo: pessoas mudam, amizades terminam e algumas histórias ficam para trás.

“Algumas pessoas vêm, algumas pessoas se vão da nossa vida e tá tudo bem. Sempre sofreremos por isso, mas faz parte.”

Ela não tenta suavizar a perda.

“Sempre encontraremos novos amigos e sempre choraremos pela perda daqueles que seguiram um caminho diferente. Choraremos pelo tempo que não vai voltar mais, mas ainda teremos muitas histórias incríveis para viver.”


Nalu, o mar e quase dez anos de história

Quando começou a imaginar Kiwi e os Garotos Perdidos, Ana sabia que queria o mar. Nalu, porém, demoraria quase uma década para chegar às páginas.

“‘Kiwi e os Garotos Perdidos’ tem quase dez anos de vida dentro da minha cabeça.”

A escolha de Ilhabela veio depois que Ana conheceu as histórias locais de tesouros, piratas, feiticeiras e fantasmas. O lugar trouxe para a história aquilo que ela já procurava.

“Sabia que eu precisava escrever um livro que se passasse naquele lugar. E, de repente, Kiwi era a história perfeita.”

Nalu se muda para Ilhabela e se junta a amigos de infância em busca de um tesouro pirata escondido na ilha. A aventura leva os personagens por amizade, luto, liberdade e pela passagem da infância para a vida adulta.

Ana queria escrever sobre o medo de crescer sem transformar esse medo em um problema que precisasse ser resolvido.

“Queria passar a mensagem que está tudo bem. Que é sim aterrorizante, principalmente essa fase da adolescência para a vida adulta, mas também olhar para trás, para a nossa infância e perceber que estava tudo diferente.”

“Queria passar a mensagem que está tudo bem. Que é sim aterrorizante, principalmente essa fase da adolescência para a vida adulta, mas também olhar para trás, para a nossa infância e perceber que estava tudo diferente.”


Quando a história encontra os leitores

Ana sempre teve muito carinho por Kiwi e os Garotos Perdidos. Os números, ainda assim, foram maiores do que esperava.

O livro chegou ao primeiro lugar em algumas categorias da Amazon e ganhou uma segunda tiragem. Na Feira do Livro de São Paulo, foi o terceiro título mais procurado de todo o catálogo da Rocco. Entre os autores da editora, ficou em segundo lugar nas vendas, atrás de Clarice Lispector.

Mas Ana percebeu que o livro havia encontrado seus leitores antes de qualquer ranking.

Foi na primeira sessão de autógrafos, no lançamento. Ela chegou à livraria e encontrou uma fila quilométrica. Havia pessoas que tinham viajado de longe e estavam esperando havia horas.

“Soube que tinha encontrado o meu público quando cheguei na minha primeira sessão de autógrafos, no lançamento do livro e tinha uma fila quilométrica na frente da livraria!”

A cena materializou uma coisa que, até então, existia apenas na relação entre autora e livro: os leitores estavam ali, diante dela.

Quando soube do resultado da Feira do Livro, sentiu-se realizada.

“É uma honra sem tamanho dividir esse espaço com a nossa Clarice, mas além disso, senti que estava definitivamente no caminho certo.”

A conquista também trazia uma lembrança menos confortável. Ana estuda publicação desde a adolescência e passou boa parte dela e do início dos vinte anos enviando originais para editoras tradicionais brasileiras.

As respostas eram quase sempre iguais.

“‘Desculpe, mas não recebemos originais’.”

Ela conta que isso a desmotivava e fazia com que acreditasse que talvez nunca publicasse seu livro. Ao mesmo tempo, acompanhava um mercado em que os títulos de maior sucesso eram majoritariamente estrangeiros.

Por isso, quando fala em um “respiro esperançoso para a literatura nacional”, não está pensando apenas na própria carreira.

“Ver que eu posso ser um exemplo positivo para novos escritores é a minha maior realização.”

Hoje, uma parte dos leitores que chegam até Ana também sonha em escrever.

“Sempre me toca quando um adolescente me abraça e fala que eu sou uma inspiração, pois eles também sonham em escrever e publicar os próprios livros.”

Ela conhece a importância desse tipo de referência porque não teve uma figura assim para olhar quando começou.

“Isso porque eu nunca tive essa figura para me inspirar, mas me emociono ao saber que estou abrindo caminho para escritores brilhantes no futuro.”


A escrita depois do sonho realizado

A chegada do público mudou a relação de Ana com os próprios livros.

Antes da publicação, escrever era uma brincadeira. Ela escrevia para si e para a irmã, como uma extensão das histórias que inventavam juntas.

“Era como estar com a minha irmã brincando pela casa, só que dessa vez, eu estava escrevendo histórias para ela ler.”

Agora existem milhares de pessoas esperando por uma nova história. E, com elas, vem a expectativa.

“Com o sucesso vem o público e, com o público, vem a expectativa. E a expectativa, por sua vez, gera pressão.”

A escrita continua sendo prazerosa, mas nem sempre.

“A escrita agora flutua entre o divertimento e a dor.”

Há dias em que escrever é maçante, fisicamente difícil. O desafio, segundo ela, é recuperar a relação que existia antes de a escrita virar profissão.

“Minha maior luta diária é tentar resgatar aquele momento em que a escrita era simples, porque era apenas para mim e para a minha irmã.”

Por isso, Ana tem tentado voltar a tratar a escrita como brincadeira.

“Tenho tentado, cada vez mais, voltar a tratá-la como uma brincadeira e menos como a minha profissão.”

O sucesso trouxe vontade de continuar e medo de não conseguir repetir o que aconteceu. Ana sabe que outras histórias podem não funcionar da mesma maneira.

“A verdade é que a vida é cheia de tropeços, desvios e caminhos escorregadios.”

Se uma história não der certo, ela pretende seguir para a próxima.

“Se uma história não vinga, paciência. Seguimos para a próxima.”

E não pretende parar.

“Não quero parar e não pretendo também.”

A cobrança, entretanto, continua.

“O tempo todo! Eu sofro diariamente com a síndrome da impostora.”

Ana diz que se cobra mais do que qualquer pessoa e que sente necessidade de provar que é capaz, mesmo depois de conquistas importantes.

“Preciso provar que sou capaz, mesmo que eu já tenha conquistado coisas maravilhosas.”

Ainda há muito que ela quer fazer.

“Sinto o tempo todo que ainda tem muito a se fazer e que eu preciso conseguir. Preciso melhorar. Preciso amadurecer… e assim por diante.”


O que ainda falta escrever

Ana tem vontade de contar as próprias experiências aos vinte anos. Ainda não sabe quando fará isso.

“Eu escrevo histórias adolescentes e sinto que ainda preciso esperar um pouco mais para contar as outras, mas tenho aprendido tanta coisa nessa etapa da vida, que sei que, daqui, nascerão grandes histórias.”

Quando imagina a próxima década, não pensa apenas em novos livros. Espera continuar publicando e que os leitores continuem interessados.

“Espero que eu ainda publique livros e que as pessoas ainda se importem. Que ainda leiam.”

Quer continuar perto da família e dividir com eles as próximas conquistas.

“Quero estar com as pessoas que eu amo, fazendo o que amo.”

Também quer ver mudanças no mercado editorial brasileiro. Depois de passar anos recebendo recusas, Ana gostaria que os escritores nacionais ocupassem mais espaço no exterior, tanto nas editoras quanto no audiovisual.

“Quero que os escritores brasileiros tenham cada vez mais espaço no resto do mundo, na publicação estrangeira e no mercado audiovisual de adaptações literárias também.”

E tem uma ambição que não poderia ser mais coerente com a criança que inventava tesouros piratas, queria morar em uma ilha e raspava países de um mapa-múndi:

“Espero que consigamos dominar o mundo com a nossa brasilidade!”

Para quem está começando agora, ela tem uma resposta simples. Se uma criança escreve, atua, canta, desenha ou inventa histórias e acredita que o sonho é grande demais, Ana diria que não é.

“Que é possível. Que, com um pouco de determinação, uma boa ideia pode se tornar algo gigante.”

Acredita também que a arte sempre encontra alguém do outro lado.

“Sempre existirá alguém que se identificará com a nossa arte e que o mais importante é nunca desistir dela.”

Aos 25 anos, Ana já sabe que não precisou escolher uma única linguagem para construir sua trajetória. Sabe que a literatura é onde encontrou paixão pelo próprio ofício. Sabe que ainda quer estudar, viajar, escrever sobre outras fases da vida e acompanhar o crescimento dos personagens que ainda nem criou.

Também sabe que não chegou ao fim de nenhuma dessas descobertas.

Quando a conversa chega à última pergunta, deixamos de lado a autora, a atriz, a cantora, os livros e os personagens. Perguntamos quem é Ana quando não precisa ser personagem de nada.

Ela pensa na resposta.

“A verdade é que eu ainda estou tentando descobrir.”

Fotos: Marcia Molina

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