Cultura

Gilvan Azevedo e as escolhas que ainda cabem na vida

Autor de Nós, Ursos, que também interpreta um dos protagonistas, fala sobre adaptar sua própria história para o palco, amor na maturidade, masculinidade e a descoberta de um lugar de pertencimento. | Foto: Daniela Ferreira

“O desejo não é a dúvida. A escolha é.”

Uma história pode mudar quando deixa de ser lida em silêncio. Foi o que aconteceu com Nós, Ursos, adaptação teatral do romance Éramos Ursos e Não Sabíamos, de Gilvan Azevedo. No palco, o próprio autor interpreta Rodney, enquanto Mauricio Constantino dá vida a Saulo, os dois homens maduros que se encontram quando suas vidas já parecem ter seguido caminhos definidos.

Há família, trabalho, responsabilidades, escolhas feitas há muito tempo. Há também desejo, afeto e a possibilidade de uma vida que ainda não foi vivida.

Para Gilvan, transformar o romance em teatro nunca significou simplesmente transportar a história de uma linguagem para outra. “Adaptar não foi colocar o livro em pé; foi descobrir qual peça existia dentro dele.”

No romance, havia espaço para entrar nos pensamentos de Rodney e Saulo, acompanhar suas memórias e o tempo interno de cada um. No palco, muita coisa precisa acontecer diante do espectador, no corpo, na fala e no ritmo entre os atores. A história também precisou ser condensada em cerca de uma hora, o que tornou inevitável escolher o que realmente precisava permanecer.

Mas a adaptação não foi apenas uma redução. O teatro abriu possibilidades que não estavam no livro. Algumas cenas ganharam humor, outras encontraram uma tensão diferente quando passaram a ser ditas em voz alta. Também surgiram situações novas, escritas especificamente para a peça.

A experiência se tornou ainda mais particular porque Gilvan passou a interpretar o personagem que criou.

“Eu escrevi Rodney e hoje interpreto Rodney, enquanto Mauricio Constantino interpreta o outro protagonista. Nós dois descobrimos aspectos desses personagens durante os ensaios e continuamos descobrindo durante as apresentações.”

Existe ainda uma terceira experiência: a de quem chega ao teatro depois de ter lido o romance.

Para Gilvan, é algo parecido com o que acontece quando voltamos a um livro anos depois. As palavras continuam no mesmo lugar, mas nós chegamos diferentes e prestamos atenção em outras coisas.

“Quem conhece o livro não vem simplesmente assistir ao que já leu. Vem reencontrar aquela história em outra linguagem e descobrir o que ela revela quando ganha voz, corpo, drama e humor diante de uma plateia.”


Os nós que ficam

Rodney e Saulo não se encontram em uma página em branco. Quando o desejo aparece, eles já construíram famílias, carreiras, responsabilidades e relações. Existem vínculos reais e outras pessoas envolvidas nas escolhas que fizeram.

Por isso, a pergunta não é simplesmente se ainda existe tempo para mudar.

“Dá. A questão é o que fazer com aquilo que se descobriu e quais consequências cada escolha traz.”

É daí que surge uma das imagens centrais da peça. Existem os nós que prendem, feitos de medo, convenção, responsabilidade, culpa ou decisões tomadas muito antes. E existem os nós que escolhemos construir, aqueles que também criam vínculo, compromisso e pertencimento.

“Dos nós que nos prendem aos nós que escolhemos.”

A frase resume o percurso de Rodney e Saulo, mas também desloca o conflito. Eles não precisam descobrir se existe desejo. Eles já sabem que existe. O que permanece em aberto é o que fazer com ele.

“O desejo não é a dúvida. A escolha é.”

Depois dos 40, a vida pode estar mais estruturada sem estar concluída. Quando uma parte importante de nós já não cabe inteiramente na vida que construímos, a pergunta passa a envolver também os vínculos que queremos continuar sustentando e aqueles que estamos dispostos a escolher.

 

O que vem depois de se descobrir

A sexualidade é fundamental para a história, mas Gilvan não quis fazer dela uma resposta pronta para os conflitos dos personagens.

“A sexualidade é fundamental para a história, mas seria muito simplista dizer que o conflito se resolve quando Rodney e Saulo reconhecem quem são ou assumem aquilo que desejam. Na verdade, é a partir daí que as questões mais difíceis começam.”

Por isso, seu interesse estava menos em contar uma história sobre a descoberta da sexualidade e mais em acompanhar o que acontece depois dela.

“Que vida você constrói com aquilo que passou a saber sobre si? O que precisa mudar? O que permanece? E quem será afetado por essas decisões?”

A questão também alcança a masculinidade. Rodney e Saulo pertencem a uma geração de homens treinada para cumprir papéis, administrar responsabilidades, sustentar estruturas e acreditar que é possível manter tudo sob controle. Desejo, afeto e escolha, porém, não obedecem necessariamente à mesma lógica.

Os nós que eles precisam desatar podem levá-los a outros vínculos. É aí que Gilvan encontra um dos paradoxos da história: reconhecer quem somos não encerra a questão.

“Pode ser apenas o começo de escolhas muito mais difíceis.”

Encontrar um lugar

A cultura bear aparece em Nós, Ursos por meio da ideia de pertencimento. Rodney e Saulo encontram um grupo com códigos próprios, humor, desejo, música, festas e maneiras de se reconhecer.

O que interessa a Gilvan não é apenas a identificação física, mas a sensação de encontrar um espaço onde determinadas características deixam de parecer estranhas.

“Não é apenas encontrar pessoas fisicamente parecidas com eles; é perceber que existe um lugar em que determinadas características deixam de ser estranhas e passam a ser familiares.”

Em determinado momento, Rodney diz que se sentiu pertencendo. A descoberta ganha força porque, fora daquele ambiente, ainda existe uma vida em que ele precisa representar outra coisa. Quando percebe que existe um “lá dentro”, passa também a olhar de outra maneira para o “lá fora”.

E a cultura dos ursos chega à peça sem a necessidade de uma explicação didática. Eles chegam a uma festa, observam aqueles homens, brincam, tiram a camisa e se divertem. É uma descoberta de uma tribo.

“Pois é, a gente era urso e nem sabia.”

Para Gilvan, a frase concentra algo que ultrapassa uma categoria.

“Não é apenas sobre uma categoria. É sobre encontrar um lugar, reconhecer códigos, criar vínculos e descobrir que existe um pertencimento possível onde antes você nem sabia procurar.”

 

A vida que ainda pode mudar

A pergunta sobre a vida que construímos acompanha Nós, Ursos, mas Gilvan desconfia de respostas definitivas.

“Uma vida pode ter feito sentido durante muitos anos e, em determinado momento, já não responder inteiramente à pessoa que você se tornou. Isso não torna falsa a vida anterior.”

Reconhecer quem somos também não resolve tudo. Pode significar o início de escolhas mais complexas, que envolvem vínculos, responsabilidades, perdas e outras pessoas.

O próprio processo de criação levou Gilvan para dentro dessa pergunta. Primeiro veio o romance. Depois, a adaptação. Então ele se viu no palco, interpretando uma história que havia escrito.

“Isso ampliou muito a pergunta para mim, porque deixei de observá-la apenas como autor. Passei a vivê-la também como ator, diante de uma plateia diferente a cada apresentação.”

Talvez por isso ele prefira não responder pelo espectador o que a história deve provocar.

“Prefiro que cada pessoa venha e descubra o que a história provoca nela.”

Nós, Ursos encerra sua temporada no Teatro Commune em 27 de setembro. As últimas apresentações acontecem nos dias 19, 20, 26 e 27 de setembro, sempre às 20h.

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Mayara Morelli

Sobre a autora

Mayara Morelli

Mayara Morelli é jornalista, publicitária e editora-chefe da Pitaya mag. Sua especialidade é moda e comportamento, mas a curiosidade costuma levá-la para outros lugares. Escreve sobre tudo aquilo que merece uma boa conversa. Ao longo da carreira, entrevistou artistas, escritores, estilistas e criadores de diferentes partes do mundo. Estudou moda na Università Bocconi, trabalhou com marcas do universo joalheiro no Brasil e em Dubai e atualmente aprofunda seus estudos em cultura e pensamento moderno e pós-moderno pela Wesleyan University. Fora da redação, divide a vida com quatro cachorros que ocupam muito mais espaço do que deveriam. E exatamente o espaço que merecem.

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