Gabriela Hearst leva o trabalho de artesãs afegãs à passarela de Paris
Gabriela Hearst apresentou em Paris uma coleção inspirada na história das mulheres afegãs e desenvolvida em colaboração com a Turquoise Mountain. Técnicas tradicionais de tecelagem e bordado ganham espaço em uma proposta que aproxima moda, preservação cultural e visibilidade feminina.
Na coleção de verão 2027, a estilista aproxima a tradição têxtil do Afeganistão de uma discussão urgente sobre as condições de vida das mulheres no país. O resultado combina pesquisa histórica, trabalho artesanal e uma tentativa de deslocar o olhar para além das imagens que costumam dominar a cobertura sobre a região.
Apresentada em 5 de outubro, durante a Paris Fashion Week, a coleção de Gabriela Hearst parte de um estudo sobre cem anos de história das mulheres afegãs, atravessando períodos de reforma política, guerra e o atual regime do Talibã. A pesquisa também olha para uma tradição artesanal que permanece viva apesar das dificuldades enfrentadas por suas comunidades.
Para desenvolver parte dos tecidos e bordados apresentados na passarela, a designer uruguaia colaborou com a Turquoise Mountain, organização sem fins lucrativos que trabalha com a preservação de ofícios tradicionais e o apoio a comunidades artesãs. Mulheres afegãs participaram da produção de peças que incorporam técnicas como o ikat, conhecido por seus padrões formados no processo de tingimento dos fios, e o bordado shisha, que utiliza pequenos espelhos como elemento decorativo.
Esses trabalhos aparecem em jaquetas construídas com tecidos em patchwork, vestidos bordados e peças de linho que recebem intervenções pictóricas feitas por artesãos afegãos. Em vestidos brancos, romãs bordadas evocam a fruta nacional do Afeganistão. As referências não funcionam apenas como estampas ou adornos: remetem a uma cultura material que atravessa gerações e cuja continuidade depende de pessoas capazes de transmitir esses conhecimentos.



A escolha tem uma dimensão política. Sob o governo do Talibã, as restrições impostas às mulheres afegãs atingem direitos fundamentais, incluindo o acesso à educação. Hearst usou o desfile para chamar atenção para essa realidade e para a riqueza cultural de um país frequentemente retratado apenas por seus conflitos. A estilista se referiu às mulheres afegãs como suas “22 milhões de musas”, expressão que sintetiza a intenção de ampliar a visibilidade delas.
Há, porém, uma questão importante quando o trabalho artesanal chega ao circuito internacional do luxo: como reconhecer quem produz, além de celebrar o resultado? A participação das artesãs precisa ser entendida como trabalho especializado, e não como uma referência estética anônima incorporada à narrativa de uma marca. A parceria com a Turquoise Mountain oferece um ponto concreto a partir do qual discutir a relação entre preservação cultural, remuneração e reconhecimento.
A coleção também dialoga com as preocupações ambientais associadas à trajetória de Hearst. Entre as peças apresentadas, trench coats de seda receberam um acabamento com resina natural para reproduzir características visuais do náilon, material derivado do petróleo. A experiência mostra como a pesquisa de materiais pode se tornar parte da construção de uma coleção, embora uma escolha pontual não seja suficiente, por si só, para medir o impacto ambiental de toda uma marca.
O interesse desse desfile está na aproximação entre roupa e contexto. Os tecidos carregam técnicas, histórias e conhecimentos que não nasceram na indústria da moda contemporânea. Ao levá-los a Paris, Gabriela Hearst coloca essas tradições diante de um público internacional. O próximo passo, para além da passarela, é acompanhar como a colaboração se desenvolve e como as pessoas responsáveis por esse trabalho são reconhecidas.




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