Fendi, Raffaella Carrà e a roupa que começa pelo corpo
Para a primavera-verão 2027, Maria Grazia Chiuri parte da lingerie, da sensualidade e da liberdade corporal para aproximar a Fendi da energia de Raffaella Carrà.
No segundo desfile de Maria Grazia Chiuri à frente da Fendi, o corpo conduz a coleção, entre lingerie aparente, transparências e a energia de Raffaella Carrà.
Há uma intimidade evidente na Fendi de Maria Grazia Chiuri para a primavera-verão 2027. No desfile apresentado em Milão nesta quarta-feira, 23 de setembro, sutiãs, slips, bodies e outras peças de lingerie deixam de ocupar um lugar escondido no guarda-roupa e passam a participar da composição dos looks. A coleção aproxima roupa íntima, sensualidade e movimento, encontrando em Raffaella Carrà uma de suas principais referências.


Raffaella como ponto de partida
A presença de Carrà não está apenas na trilha sonora. Maria Grazia recupera uma mulher que fez da própria imagem uma ferramenta de expressão: cantora, apresentadora, dançarina e figura central da cultura popular italiana, Carrà construiu uma relação particular com o corpo, a performance e a roupa.
A trilha do desfile misturou “Rumore”, um de seus maiores sucessos, a “Prisencolinensinainciusol”, de Adriano Celentano. A segunda música também carrega uma história ligada à televisão italiana: uma das apresentações que ajudaram a transformar a canção em sucesso contou justamente com Carrà.
Na passarela, essa referência aparece em uma sensualidade bastante italiana dos anos 1970. Transparências, rendas, decotes profundos, costas à mostra, franjas e penas dividem espaço com alfaiataria e peças de aparência mais cotidiana. A lingerie funciona como base, mas não determina uma única maneira de vestir o corpo.
É aí que a referência a Carrà ganha força. Não se trata apenas de recuperar uma estética disco ou de reproduzir o glamour de uma determinada década. O que Chiuri encontra nela é uma mulher que parecia confortável em ocupar espaço, inclusive com o próprio corpo.

Quando a lingerie sai de baixo da roupa
A coleção também conversa com um movimento que já havia aparecido no primeiro dia de Milão. Na Prada, o sutiã apareceu em diferentes combinações dentro de uma coleção dedicada às saias. Na Fendi, a lingerie assume outra função: passa a participar da construção visual do guarda-roupa.
Sutiãs aparecem sobre a pele ou combinados a camadas transparentes; slips ganham protagonismo; peças que normalmente seriam consideradas íntimas passam a participar da composição. Aquilo que costumava ficar escondido vira uma escolha deliberada de styling.
Transformar lingerie em roupa está longe de ser uma novidade. A moda já fez isso inúmeras vezes. O interesse da coleção está em recolocar essa discussão dentro de uma casa histórica e fazê-la dialogar com uma mulher cuja imagem pública sempre esteve ligada à liberdade de performance.
O corpo também é uma questão de linguagem
Para Chiuri, a roupa nunca esteve completamente separada das discussões sobre o corpo feminino. Sua passagem pela Dior foi marcada por esse tipo de investigação, e a Fendi oferece agora outro contexto para a mesma preocupação.
Aqui, a liberdade aparece no movimento, na sensualidade e na possibilidade de vestir o próprio corpo sem a necessidade de escondê-lo.
Raffaella Carrà ajuda a dar forma a essa ideia porque sua imagem pertence a uma cultura popular em que música, televisão, dança e moda estavam profundamente misturadas. É uma referência que vai além da nostalgia e recupera uma mulher que fez da presença física parte essencial de sua linguagem.
No segundo capítulo de Chiuri na Fendi, o corpo ocupa o centro da conversa e a lingerie ganha espaço justamente onde antes se esperava outra camada.


Crédito: Giovanni Giannoni/WWD
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