Fashion Weeks

Em Lonesome Heaven, Ann Demeulemeester veste as marcas do tempo

Durante sua viagem a Los Angeles, Gallici visitou o antigo hangar de Howard Hughes em Playa Vista, parte do complexo histórico ligado à Hughes Aircraft. A experiência inspirou a entrada de jaquetas de aviação e couro patinado na coleção, combinados com coletes formais e calças de alfaiataria.

Stefano Gallici estava na Califórnia quando começou a imaginar a nova coleção da Ann Demeulemeester. Durante uma viagem entre Palm Springs e Los Angeles, atravessando uma paisagem seca e quase vazia, o designer ouviu música, observou o deserto e se afastou temporariamente das referências europeias que costumam acompanhar a maison.

Dessa experiência nasceu Lonesome Heaven, coleção de primavera-verão 2027 apresentada em Paris. O ponto de partida era americano, mas a intenção não era transportar o guarda-roupa do Oeste para a passarela. Gallici queria descobrir o que aconteceria ao aproximar essa paisagem dos códigos históricos da marca.

Stefano Gallici aproxima Ann Demeulemeester do imaginário americano

Stefano Gallici aproxima Ann Demeulemeester do imaginário americano

Stefano Gallici aproxima Ann Demeulemeester do imaginário americano

 

A coleção começa quase sem cor. Branco, creme, ecru, preto e denim azul dominam os primeiros looks. Um colete de renda branca aparece sobre uma calça de algodão; uma saia assimétrica é sobreposta a uma camada transparente de organza. Depois entram coletes de inspiração napoleônica, blusas vitorianas, alfaiataria preta e peças de denim.

Com uma paleta restrita, a atenção se volta para as texturas e para a construção. Algumas roupas parecem ter sido retiradas de um arquivo e usadas durante anos. Forros ficam expostos, tecidos surgem amassados e uma calça creme apresenta marcas que lembram manchas antigas. Gallici contou à Vogue que se interessou pela sensação transmitida por peças envelhecidas de seu próprio acervo e quis reproduzir essa aparência na coleção.

A ideia de desgaste também aparece na combinação entre referências. Durante a viagem, Gallici visitou o antigo hangar de Howard Hughes, em Playa Vista, e incorporou à pesquisa imagens ligadas à aviação e ao couro envelhecido. Jaquetas de inspiração militar dividem espaço com coletes formais, calças de alfaiataria e peças que remetem ao vestuário eduardiano.

O resultado aproxima universos que, à primeira vista, parecem distantes. Um smoking de aparência destruída encontra uma camiseta de denim. Jaquetas de aviação aparecem sobre coletes estruturados. Saias de babados chegam ao chão, enquanto calças jeans surgem sob peças de construção histórica. A referência americana está na paisagem, nos materiais e na música, mas a silhueta continua ligada ao romantismo sombrio da maison.

As botas de combate, já familiares aos admiradores da marca, permanecem importantes. Vestidos fluidos, peças de jersey com franjas e calças de gancho baixo retomam outros elementos desse repertório. Penas pretas e azul-petróleo aparecem como acabamento de saias e ombros, criando contraste com a leveza das camadas transparentes.

A coleção não abandona os códigos da Ann Demeulemeester para começar do zero. Gallici experimenta com eles, alterando o contexto e a combinação entre as peças. A alfaiataria ganha marcas de desgaste; referências históricas convivem com roupas casuais; o romantismo aparece acompanhado por materiais mais ásperos.

A música também participa dessa construção. Josh Homme, vocalista do Queens of the Stone Age, desfilou com um terno risca de giz e camisa de denim clara. Sua presença dialoga com o imaginário musical que acompanhou Gallici durante a viagem. Ethel Cain encerrou a apresentação em um vestido preto de renda Chantilly, inspirado no período eduardiano. A cantora desenvolveu o look em colaboração com o designer, em um processo realizado por videochamadas.

A escolha dos dois artistas aproxima a maison de pessoas que compartilham afinidades com seu universo estético, sem transformar o desfile em uma reunião de referências nostálgicas. A música e a imagem pessoal dos convidados fazem parte da narrativa, mas são as roupas que dão forma à coleção.

Gallici está em sua quarta temporada à frente da Ann Demeulemeester. Em entrevista à Vogue, afirmou que procura trabalhar com reverência pela história da marca, embora queira se permitir uma abordagem menos ortodoxa a cada coleção. É uma posição relevante para um designer que assumiu uma maison cuja identidade foi construída ao longo de décadas e que continua associada à visão de sua fundadora.

Desde a aquisição da marca por Claudio Antonioli, em 2020, a Ann Demeulemeester vem buscando recuperar espaço cultural e se aproximar de uma nova geração. Gallici assumiu a direção criativa em 2023, com a tarefa de desenvolver esse movimento sem descaracterizar a linguagem que tornou a maison reconhecível.

Lonesome Heaven mostra como ele pretende avançar. Em vez de repetir os códigos mais conhecidos da marca, o designer os coloca em contato com referências pessoais: o deserto californiano, o couro envelhecido, o denim, a aviação e a música americana. O resultado preserva a tensão entre delicadeza e aspereza, entre roupa histórica e peças que parecem ter vivido fora da passarela.

A coleção ainda carrega a escuridão, o romantismo e o desconforto que fazem parte do vocabulário da Ann Demeulemeester. O que muda é o cenário imaginário em que essas roupas passam a existir. Há poeira de estrada junto à renda, jaquetas de aviação ao lado da alfaiataria e uma sensação de tempo acumulado nos tecidos.

Gallici não precisa apagar a história da maison para encontrar espaço dentro dela. Na primavera-verão 2027, sua interpretação começa a ganhar forma justamente no encontro entre os códigos que recebeu e as referências que escolheu acrescentar.

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Redação Pitaya

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