De Milão a Paris: o que muda para Glenn Martens na Maison Margiela
Depois de encerrar sua passagem pela Diesel em Milão, Glenn Martens apresentou sua terceira coleção para a Maison Margiela em Paris e começou a deixar mais claro o que pretende fazer com a casa
Poucos dias separam dois momentos importantes na trajetória recente de Glenn Martens.
Em Milão, o designer apresentou seu último desfile para a Diesel, encerrando uma passagem de seis anos pela marca. Em Paris, voltou à passarela para apresentar a terceira coleção desde que assumiu a direção criativa da Maison Margiela.
A mudança de cenário também muda a pergunta.
Na Diesel, Martens construiu uma linguagem ligada ao denim, à cultura de rua, à experimentação de materiais e à ideia de transformar o cotidiano em objeto de desejo. Na Margiela, ele precisa trabalhar com uma história que já possui seus próprios códigos e uma das identidades mais reconhecíveis da moda contemporânea.
Nesta temporada, ele começou a responder como.
O que sobra quando se tira o excesso

Para a primavera-verão 2027, Martens voltou ao princípio da oposição que existe no próprio DNA da Maison Margiela: duro e macio, estruturado e fluido, masculino e feminino, acabado e inacabado.
A coleção trouxe casacos e jaquetas de construção escultórica ao lado de peças mais leves, vestidos fluidos e sobreposições. Algumas roupas pareciam ter sido desmontadas para depois encontrar outra forma de existir.
A ideia não é nova na Margiela. E é justamente por isso que ela interessa.
Depois de duas apresentações que chamaram atenção pela teatralidade, Martens parece menos interessado em provar que consegue produzir uma coleção “à la Margiela”. Em vez disso, começa a identificar quais elementos da casa podem ser levados para sua própria linguagem.
A Vogue observou esse movimento ao descrever a coleção como uma investigação mais direta sobre o DNA da maison, especialmente a relação entre o duro e o macio que atravessa o trabalho de Martin Margiela desde o final dos anos 1980.
Entre o corpo e a roupa

A desconstrução apareceu, mas não como exercício de estilo.
Peças foram deslocadas, torcidas e reconstruídas. Casacos ganharam volumes inesperados. Saias e vestidos trabalhavam com camadas e diferentes níveis de transparência. Materiais rígidos encontravam tecidos leves.
Em alguns momentos, a roupa parecia estar no meio de um processo de transformação. Não completamente desmontada, mas também distante da aparência convencional de uma peça pronta.
Esse território é familiar para Martens. Sua passagem pela Y/Project e pela Diesel foi construída justamente em torno da capacidade de alterar proporções, materiais e referências conhecidas.
A questão agora é outra: quanto dessa linguagem cabe dentro da Margiela sem apagar aquilo que tornou a casa reconhecível?
Depois da Diesel

A proximidade entre os dois desfiles torna essa coleção especialmente interessante para quem acompanhou Martens em Milão.
Leia também: Diesel depois da meia-noite: a despedida de Glenn Martens
Na Diesel, ele teve espaço para construir uma identidade própria durante anos. Na Margiela, o ponto de partida é diferente. O designer chegou a uma maison criada em torno da ideia de anonimato, desconstrução e questionamento das regras tradicionais do sistema de moda.
O desafio não é criar uma assinatura. Martens já tem uma.
É fazer essa assinatura conversar com uma casa que já possui uma das mais fortes.
Sua terceira coleção começa a mostrar esse processo. Em vez de tentar reproduzir o passado de Martin Margiela, Martens parece procurar os princípios que ainda podem ser usados no presente.
É uma diferença importante.
A Maison Margiela não precisa de uma cópia de seu fundador. Precisa descobrir o que sua linguagem pode significar agora.
Em Paris, Glenn Martens começou a responder essa pergunta com roupa.
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