Em pauta

Crianças e adolescentes diante dos perigos da internet

Por Patrícia Almeida Silvestri (*)

 

O dado faz parte do estudo Disrupting Harm in Brazil, realizado pelo UNICEF, ECPAT International e INTERPOL, com trabalho de campo entre novembro de 2024 e março de 2025.

A dimensão dos riscos também aparece na TIC Kids Online Brasil 2025, pesquisa domiciliar realizada pelo Cetic.br, departamento do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br). Em sua 12ª edição, entrevistou 2.370 crianças e adolescentes de 9 a 17 anos, além de seus pais ou responsáveis, entre março e setembro de 2025. A pesquisa acompanha o uso da internet e os riscos e oportunidades encontrados nesse ambiente.

Os resultados são preocupantes. 92% das crianças e adolescentes brasileiros de 9 a 17 anos são usuários de internet, e 21% dos adolescentes disseram ter sofrido algum tratamento ofensivo on-line. Entre 30% e 35% relataram contato com conteúdos prejudiciais relacionados à automutilação, discriminação ou violência extrema. Na área sexual, quase 15% receberam mensagens sexuais indesejadas e 16% tiveram contato com conteúdo sexual sem consentimento.

Esses números mostram por que falar sobre segurança digital nas escolas deixou de ser uma opção. É uma necessidade.

E casos recentes demonstram a importância de preparar professores e criar ambientes em que crianças e adolescentes se sintam seguros para falar.

Em setembro de 2026, em Ponta Grossa, no Paraná, uma adolescente de 13 anos entregou uma carta à professora pedindo ajuda. No documento, relatou abusos sexuais e maus-tratos. A equipe pedagógica acionou a rede de proteção e a Polícia Civil, que prendeu os adultos investigados.

Em abril de 2026, em Aparecida de Goiânia, Goiás, uma adolescente de 13 anos procurou a escola e relatou aos professores que sofria violência sexual dentro de casa. A direção acionou o Conselho Tutelar, e o caso foi encaminhado às autoridades.

Há ainda um caso particularmente emblemático. Em 2022, em Trindade, Goiás, uma menina de 7 anos revelou à professora que sofria abuso sexual praticado pelo padrasto durante uma palestra realizada na escola sobre prevenção à violência sexual, dentro da campanha Maio Laranja. O relato levou à investigação e à prisão preventiva do padrasto.

Esses episódios mostram que a escola pode ser o lugar onde o silêncio é rompido.

Crianças e adolescentes precisam aprender a reconhecer os perigos da internet e saber que podem procurar um adulto de confiança quando alguma situação provocar medo, vergonha ou constrangimento. E os professores precisam estar preparados para reconhecer sinais de alerta e, principalmente, para ouvir.

Os riscos estão nas redes sociais, nos aplicativos de mensagens e também nos ambientes ligados aos jogos on-line. O Discord, por exemplo, permite conversas por texto e voz, mensagens privadas e a criação de comunidades, inclusive fechadas. O próprio serviço reconhece riscos relacionados a aliciamento, sextorsão e exploração sexual de menores. Ambientes desse tipo exigem atenção porque podem dificultar que pais e professores saibam com quem crianças e adolescentes estão conversando e quais conteúdos estão sendo compartilhados.

É preciso falar sobre cyberbullying, desafios perigosos, aliciamento, exposição de imagens, contatos com desconhecidos, pedidos de fotografias íntimas, violência sexual e conteúdos que estimulam violência ou automutilação.

Mas não basta dizer ao aluno: “não faça isso”.

É preciso explicar por quê, ensinar a reconhecer uma tentativa de manipulação e mostrar a quem recorrer.

 

E, quando um aluno disser “preciso conversar com você”, o professor precisa estar preparado para ouvir.

 

Não para substituir psicólogos, policiais ou conselheiros tutelares, mas para acolher, preservar a segurança do estudante e saber como acionar a rede de proteção.

Por isso, palestras e atividades de orientação nas escolas são importantes tanto para os estudantes quanto para os educadores. Aos alunos, oferecem informação para reconhecer situações de risco e procurar ajuda. Aos professores, oferecem conhecimento para identificar sinais, acolher relatos e saber como agir.

A internet continuará fazendo parte da infância e da adolescência. Precisamos preparar nossas crianças e adolescentes para utilizá-la com conhecimento e segurança e preparar aqueles que convivem diariamente com eles para reconhecer quando alguma coisa está errada.

Educar para o mundo digital também é proteger. E proteger começa pela informação, pela prevenção e pela capacidade de ouvir.

 


(*) Patrícia Silvestri é advogada constitucionalista, membra da Comissão de Defesa da Criança e do Adolescente da OAB-SP.

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