Naruna Costa, atriz brasileira, em ensaio fotográfico por Nikolle Krüger

“Eu me sinto muito amparada pelo caminho que decidi traçar”: Naruna Costa fala sobre sonho, arte e permanência

"Eu nunca vou sozinha." Entre memórias, sonhos e escolhas, Naruna Costa fala sobre arte, representatividade e a responsabilidade de ocupar espaços sem se desconectar da própria essência. Uma conversa sobre permanência, criação e os caminhos que continuam sendo abertos.

Há artistas que interpretam personagens. Há artistas que ajudam a ampliar o imaginário de um país. Naruna Costa pertence ao segundo grupo. Em cena, suas mulheres carregam complexidade, desejo, contradição e força. Fora dela, a atriz, diretora, cantora e compositora vem construindo uma das trajetórias mais consistentes da cultura brasileira contemporânea, conectando arte, memória e transformação social.

Nascida em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, Naruna construiu sua carreira entre diferentes linguagens. Teatro, música, direção, televisão e cinema nunca apareceram como territórios isolados em sua trajetória. Ao contrário. Cada experiência parece alimentar a outra, ampliando as possibilidades de criação de uma artista que sempre transitou entre múltiplas formas de expressão.

Hoje, aos 43 anos, vive um momento especialmente significativo. Está presente em diferentes frentes do audiovisual e das artes cênicas, coleciona trabalhos marcantes e segue expandindo sua atuação criativa. Ainda assim, quando falamos sobre esse período da carreira, a resposta não passa pela ideia de conquista.

"Eu me sinto muito amparada pelo caminho que decidi traçar."

A frase inaugura uma reflexão sobre percurso, pertencimento e construção artística.

"Acho muito emocionante a possibilidade de confluir as linguagens que me forjaram na artista que sou hoje. Poder unir os conhecimentos do teatro de grupo, do canto, da direção, com a televisão ou com o cinema."

As diferentes áreas pelas quais circula aparecem em sua resposta ligadas pelo mesmo fio: a curiosidade, a troca e o desejo constante de aprender.

"Eu acredito muito numa arte que agrega conhecimento, não isola, nem separa."

É uma visão que parece atravessar não apenas seu trabalho, mas também a maneira como observa o próprio caminho. Em vez de compartimentos, encontros. Em vez de fronteiras rígidas, troca.

Em sua resposta, ela retorna brevemente à adolescência, quando ainda não imaginava que a arte se tornaria o centro da própria vida.

"Eu, que até a adolescência, nem sabia o que era teatro..." A lembrança surge quase como uma medida da distância percorrida. Hoje, essa mesma trajetória encontra eco em pessoas que enxergam nela uma possibilidade. "De repente me vejo como uma referência para tantas pessoas, especialmente meninas negras que também sonham com esse ofício e se sentem hoje representadas por mim. Isso é um grande presente. É uma honra poder contribuir com o caminho que Ruth de Souza, Lea Garcia, Xica Xavier, Zeze Motta e tantas outras construíram. Sinto que estou no lugar certo, que honra as que vieram antes e abre espaço para as que estão chegando.”

A observação aponta para um tema que reaparecerá diversas vezes ao longo desta conversa: a compreensão de que nenhum caminho é construído sozinho.

Mais do que um reconhecimento individual, ela enxerga esse lugar como parte de uma continuidade. Um caminho que começou muito antes de sua chegada e que seguirá existindo depois dela.

Naruna Costa, atriz brasileira, em ensaio fotográfico por Nicole Kruger

Foto: Nikolle Krüger

A GUARDIÃ DOS SONHOS

Se o presente aparece em sua fala como resultado de um caminho, o passado continua ocupando um lugar igualmente importante nessa construção.

Quando pergunto o que mudou entre a Naruna que começou no teatro em Taboão da Serra e a artista que hoje transita entre cinema, televisão, música e direção, a resposta não estabelece uma ruptura. 

"Existe mais pó de palco, trajetória, malícia, história. Existe mais dor também. Mais vida." O tempo aparece como experiência acumulada, não como distanciamento. "Mas também ainda há muita identificação. Ainda faço teatro em Taboão da Serra."

Embora sua trajetória tenha alcançado novos espaços, as referências que a formaram continuam presentes. É nesse momento que surge uma das imagens mais bonitas da entrevista.

"E a Naruna jovem, que 'sem saber que era impossível, foi lá e fez', virou uma espécie de guardiã dos sonhos mais profundos. Sempre recorro a ela para me lembrar do porquê das coisas, das escolhas, do caminho."

A frase diz muito sobre a maneira como ela enxerga a própria história.

Em vez de olhar para a juventude como uma etapa superada, Naruna a transforma em companhia. Uma presença que continua ajudando a orientar decisões, lembrando motivações e preservando aquilo que o tempo nem sempre consegue proteger.

O sonho reaparece ali não como fantasia, mas como memória.

Como direção.

Como uma parte de si mesma que continua sendo consultada sempre que o caminho precisa ser reencontrado.

NUNCA VOU SOZINHA

A ideia de caminho reaparece diversas vezes ao longo da entrevista. Mas, quando Naruna fala sobre trajetória, raramente fala apenas de si mesma.

Pergunto se, ao longo dos anos, a responsabilidade de ocupar determinados espaços se tornou maior.

A resposta vem sem hesitação.

"Sim. Absolutamente. Eu sinto que a responsabilidade só aumenta com o passar do tempo."

Ela explica que essa percepção está diretamente ligada às pessoas que se reconhecem em sua presença.

"Eu percebo que quando vou pra qualquer cena, eu nunca vou sozinha. Sempre levo muitas e muitos comigo. Pessoas que, a partir dos espaços que ocupo, se veem representadas, estimuladas, esperançadas."

A frase ajuda a iluminar um aspecto recorrente de sua visão de mundo. Em suas respostas, o trabalho artístico dificilmente aparece dissociado da comunidade que o cerca.

A própria Naruna reconhece o peso que acompanha essa consciência.

"É muito grave não levar isso em consideração. Por outro lado, é muito trabalhoso também."

A observação não surge como queixa, mas como reconhecimento da complexidade que existe em ocupar determinados lugares.

Seu ofício, afinal, está diretamente ligado à ideia de representação.

"Meu ofício tem como princípio a representação e representar, pra mim, está bem longe de simular. Minha representação passa pela representatividade e isso eu levo muito a sério."

Ao longo da conversa, essa talvez seja uma das respostas que melhor ajudam a compreender a artista por trás das personagens.

Existe uma responsabilidade que ela não delega.

Uma atenção constante ao impacto que determinadas presenças produzem.

Não apenas para quem está diante da câmera ou do palco, mas também para quem se vê refletido ali.

Mais cedo, Naruna havia citado mulheres como Ruth de Souza, Léa Garcia, Xica Xavier e Zezé Motta ao falar sobre o próprio percurso. Nomes que ajudaram a tornar possíveis sonhos que vieram depois.

Agora, a lógica parece se inverter.

Ao mesmo tempo em que carrega consigo quem abriu caminhos antes dela, também sabe que passou a ocupar esse lugar para outras pessoas.

E é justamente dessa continuidade que nasce sua compreensão sobre responsabilidade.

Naruna Costa, atriz brasileira, em ensaio fotográfico por Nikolle Krüger

Foto: Nikolle Krüger

NA BORDA

Ao longo da conversa, Naruna fala sobre pertencimento com frequência. Mas esse sentimento não aparece necessariamente associado aos espaços mais tradicionais do meio artístico.

Quando pergunto se existe algo que hoje enxerga de forma diferente na indústria cultural, sua resposta surpreende.

"Eu nunca criei muitas expectativas sobre o 'meio artístico'. Acho que não faço parte do meio."

A frase parece desafiar a lógica que costuma organizar trajetórias como a sua. Afinal, depois de décadas de carreira, trabalhos marcantes no teatro, na televisão e no cinema, seria fácil supor que esse pertencimento já estivesse consolidado.

Mas Naruna escolhe outro lugar para se definir.

"Eu tô na borda, né?" A observação não surge como ressentimento. Surge como localização. "Meu teatro é na quebrada."

Ao longo da carreira, ela atravessou espaços historicamente fechados para artistas negras, mas sem abandonar as referências que a formaram.

"Sou uma artista negra que, mesmo com tantas novas aberturas e espaços, ainda fura muitas bolhas e, invariavelmente, esbarra em muitas limitações para os lugares que poderia chegar, não fosse a raça e o gênero."

A resposta acrescenta uma camada importante à conversa.

Porque desloca a ideia de sucesso para um terreno mais complexo.

Nem sempre ocupar determinados espaços significa que as estruturas que os sustentam tenham mudado na mesma velocidade.

Por isso, ao falar sobre as transformações que observou nos últimos anos, Naruna prefere uma leitura menos triunfalista.

"O que vejo hoje é uma necessidade ética das produções incluírem ou reconhecerem a presença de artistas como eu."

A frase não fala apenas sobre presença.

Fala sobre reconhecimento.

E, sobretudo, sobre quem continua tendo o poder de definir quais histórias são contadas, quem as conta e a partir de qual perspectiva.

Questões que ajudam a explicar por que, ao longo da entrevista, a conversa retorna tantas vezes à disputa por narrativas mais amplas, complexas e diversas.

QUEM CONTA AS HISTÓRIAS?

Quando a conversa chega ao audiovisual brasileiro, Naruna evita respostas confortáveis.

Pergunto se sente que a indústria mudou a forma como olha para artistas e histórias negras.

"Acho que os artistas negros que mudaram o olhar do audiovisual brasileiro." A resposta desloca imediatamente o centro da discussão.

Em vez de atribuir as transformações a uma mudança espontânea da indústria, ela chama atenção para o trabalho de artistas que insistiram em ocupar espaços, criar narrativas e disputar perspectivas historicamente ausentes.

"O povo contém a fonte, a matéria-prima, a história do Brasil. O povo do Brasil é negro, é indígena."

Para Naruna, seria impossível que o audiovisual permanecesse indiferente a essa realidade.

"Ele teve que mudar. A demanda mudou."

Mas a frase seguinte impede qualquer leitura triunfalista.

"Os passos são lentos."

Embora reconheça avanços importantes, ela não considera que a questão esteja resolvida.

"Enquanto não tivermos pessoas negras ocupando espaços de poder dentro do audiovisual — criação, produção, entre outros — não haverá segurança em nossas narrativas, mesmo que a representatividade esteja aparentemente preenchida pela presença de pessoas negras na cena."

A observação ajuda a compreender por que sua reflexão sobre personagens vai além da tela.

Quando pergunto o que mais aprende com as mulheres que interpreta, Naruna fala sobre a importância da complexidade.

"Acho muito valioso esse caminho, justamente pela oportunidade de interpretar mulheres com muita complexidade. Acho isso de uma riqueza absurda para a composição da diversidade das nossas narrativas.”

Ela lembra que, durante muito tempo, personagens negras foram construídas a partir de recortes limitados.

"Pessoas negras, historicamente, foram representadas no audiovisual com características que consideramos estereotipadas. Personagens sem contexto, família, subjetividade."

Por isso, a possibilidade de interpretar mulheres atravessadas por conflitos, ambiguidades e desejos possui um significado especial.

"Poder hoje fazer personagens que, de alguma maneira, trazem uma humanidade profunda, no sentido de ter camadas de comportamento e dilemas profundos, me enchem de alegria e me fazem ampliar os conhecimentos acerca das humanidades femininas.Que nem sempre são adequadas, corretas, justas, mas que são reais."

A conversa então se amplia para além das personagens.

Quando pergunto o que ainda gostaria de ver nas narrativas femininas brasileiras, sua resposta é simples.

"Diversidade."

Mas ela logo detalha o que isso significa.

"Acho que nós temos um material muito rico que foi e ainda é produzido acerca de um tipo de mulher brasileira. A mulher branca, burguesa e suas inúmeras facetas, dilemas, fases da vida. Mas e as outras?"

A pergunta permanece aberta.

"As mulheres negras, indígenas. Trans? Suas variações, seus incômodos, seus erros, desejos, acertos, idades? Podemos contar nos dedos protagonistas femininas com essas características, que não sejam cinebiografias."

Ao final da resposta, Naruna formula uma questão que parece atravessar não apenas este trecho da entrevista, mas boa parte de sua trajetória artística.

"A quem interessa nossas histórias?"

Naruna Costa, atriz brasileira, em ensaio fotográfico por Nicole Kruger

Foto: Nikolle Krüger

O ENCANTO E O RISCO

Depois de falar sobre responsabilidade, representatividade e os limites ainda presentes dentro da indústria, a conversa retorna ao lugar mais íntimo do trabalho artístico: aquilo que continua despertando desejo.

Pergunto o que ainda faz seus olhos brilharem quando recebe um roteiro.

A resposta vem rápida.

"Desafios. Eu adoro desafios."

Mais do que personagens específicos, o que parece mobilizá-la é a possibilidade de deslocamento.

"Ir para lugares onde possa me arriscar, aprender, descobrir coisas novas."

Teatro, direção, música e atuação aparecem em sua fala como territórios ainda capazes de provocar descoberta.

"Trabalhos que possam trazer parcerias novas, com pessoas que admiro. Isso me brilha muito os olhos. E grandes personagens, né? Ainda tenho muita história pra contar."

Quando menciona sonhos futuros, a resposta mantém o mesmo tom.

"Quem sabe uma obra onde possa ser dirigida por uma diretora negra?"

E logo depois, quase como quem protege algo que ainda precisa amadurecer:

"Vários sonhos."

O encantamento, porém, não está apenas no resultado final. Está também no processo.

Ao responder o que ainda a fascina na atuação depois de tantos anos, Naruna não fala de reconhecimento, visibilidade ou carreira. Fala de presença.

"A presença."

A palavra inaugura uma reflexão bonita sobre a criação de personagens.

"Atuar é sempre um recomeço."

Ela descreve um processo baseado menos em certezas e mais em escuta.

"Quando eu inicio uma pesquisa de personagem, eu procuro me esvaziar. Não querer saber, não impor nada, até porque eu não sei nada ainda."

A construção acontece aos poucos.

"Começar do zero. E ficar atenta, presente. Me encantar aos poucos pelas características, pela personalidade, pelo estado da personagem."

Só então surgem as escolhas.

"Só então começar a propor, errar bastante até acertar o tom."

Há algo de artesanal na maneira como descreve o próprio ofício. Um trabalho que exige observação, disponibilidade e tempo.

Mas talvez a parte mais reveladora da resposta esteja no final.

"Todo o processo me encanta. Especialmente os encontros."

Ao longo da carreira, foram muitos personagens, muitos palcos, muitos sets. Ainda assim, é no encontro com o outro que ela parece localizar uma das razões mais profundas para continuar criando.

"Aprendo muito com minhas parcerias de cena. Colegas que trazem suas bagagens, seus medos e movimentos. E tudo isso me encanta."

Naruna Costa, atriz brasileira, em ensaio fotográfico por Nikolle Krüger

Foto: Nikolle Krüger

O TEMPO

Quando pergunto o que mais a desafia artisticamente hoje, Naruna responde com uma única palavra.

"O tempo."

A explicação vem logo em seguida.

"Eu preciso de tempo pra criar."

A ideia já havia aparecido em outros momentos da conversa. Aqui, essa ideia aparece de forma direta. Mesmo conduzindo diferentes projetos simultaneamente, procura encontrar maneiras de dedicar a cada trabalho o tempo que considera necessário.

"Mesmo fazendo muitas coisas simultâneas, eu tento sempre aterrar e dedicar o tempo necessário a cada coisa. Aprofundar."

A resposta não ignora as transformações do presente. Pelo contrário. Naruna observa com atenção a velocidade que atravessa a vida contemporânea.

"Sinto que estamos vivendo um momento speed em nosso cotidiano. Áudios em 2x, micro novelas, micro cenas, micro experiências e excesso de informação."

Mas não há julgamento em sua observação.

"Acho que está tudo certo, é o beat desta era."

Seu desafio está em outro lugar.

"O meu desafio é, apesar de tudo isso, tentar manter o compasso necessário para que minhas criações tenham profundidade. Minha arte é tudo que tenho, é o melhor de mim, e à ela eu devo esse assentamento."

Ela reconhece que nem sempre é simples.

"É difícil, e muitas vezes frustrante, mas eu sigo tentando."

A frase encerra a resposta sem qualquer grandiosidade. Apenas com a honestidade de quem continua buscando, todos os dias, as condições necessárias para criar.

ESCOLHAS

Com o passar dos anos, Naruna se tornou mais cuidadosa com a própria energia e com os trabalhos que aceita. Mas ela faz uma ressalva importante: esse cuidado não surgiu recentemente.

"Sem dúvidas. Na verdade, eu sempre tentei ser."

Mas o assunto não fica restrito à carreira. O que aparece é uma preocupação antiga com as histórias que escolhe contar e com a forma como essas histórias são construídas.

"Há muitas armadilhas no caminho."

Ela cita narrativas que, durante muito tempo, insistiram em retratar personagens racializadas a partir de perspectivas limitadas.

"Narrativas viciadas em contar histórias de personagens racializadas sob uma perspectiva superficial demais. Estereotipada demais. Preconceituosa."

Naruna reconhece que nem sempre foi possível controlar todas as circunstâncias. O trabalho também envolve necessidades concretas, negociações e limites impostos pela realidade.

Ainda assim, procurou preservar alguns critérios.

"Eu sempre, durante toda a minha trajetória, considerando os limites, claro, para não ficar sem trabalhar, procurei fazer coisas em que me sentisse confortável e que, de alguma maneira, não compactuasse, de forma leviana, com certos pactos da branquitude a respeito de nossas histórias."

Quando pergunto se ainda existe um personagem dos sonhos, Naruna confirma que sim.

Mas não entrega detalhes.

"Existe sim, mas eu não posso contar. Senão, deixa de ser sonho e vira expectativa."

Ela então acrescenta, entre risos:

"Inclusive de outras pessoas."

E encerra o assunto do mesmo jeito que abriu.

"Mas tenho sim. Meu orí sabe."

Naruna Costa, atriz brasileira, em ensaio fotográfico por Nikolle Krüger

Foto: Nikolle Krüger

DOLORES

Ao longo da conversa, uma palavra reaparece com frequência: sonho.

Ela surge quando Naruna fala sobre a própria trajetória, quando recorda a jovem que ainda consulta para orientar suas escolhas e quando reflete sobre as possibilidades que a arte pode abrir.

Não surpreende, portanto, que esse tema também esteja no centro de Dolores.

No filme, Naruna interpreta Deborah, uma mulher atravessada pela perda, mas que se recusa a abandonar a esperança.

"Foi maravilhoso. Deborah é uma mulher romântica e que passa um drama muito grande ao ser abandonada pelo grande amor."

Ao falar da personagem, a atriz evita defini-la pela dor.

O que a interessa é o movimento que vem depois.

"É lindo ver a maneira como ela se recompõe, se reconfigura para não perder a esperança na felicidade e voltar, tanto amor que tem no coração, para si mesma."

A identificação parece nascer justamente dessa humanidade.

"É uma mina real."

Quando pergunto o que mais a emocionou no roteiro, a resposta nos leva novamente a um tema que atravessa toda esta entrevista.

"Justamente a perspectiva do sonho enquanto uma tecnologia de sobrevivência."

Naruna fala das mulheres retratadas pelo filme com atenção e delicadeza.

"Elas vivem em meio a muita precariedade, vulnerabilidade. E sonhar, pra além de ser algo que as tira da realidade em que vivem, projetam possibilidades reais de uma vida almejada. E isso é revolucionário."

Entre as lembranças das filmagens, uma cena permanece especialmente viva.

"Tem uma cena do silêncio. Que Deborah está diante de um lago, pensando."

A memória se expande para o ambiente daquele dia.

"Aquele dia foi muito bonito. Um dia frio, melancólico e acho que esse tempo foi muito marcante pra mim."

No encerramento da conversa, pergunto o que espera que o público leve consigo ao assistir ao filme.

A resposta chega sem hesitação. 

"Esperança na vida sensível."

Ela reconhece as características do tempo em que vivemos.

"Apesar de toda a tecnologia e o tempo acelerado e descartável que essa era está vivendo, apesar de tudo que nos desvia do interior, eu acho que o filme tem a potência de trazer outro pulso. Uma conexão com o que nenhuma inteligência artificial é capaz de traduzir ou reproduzir."

E então retorna à palavra que atravessou toda a conversa desde o início.

"A volta do sonho nas nossas vidas."

Naruna Costa, atriz brasileira, em ensaio fotográfico por Nikolle Krüger

Foto: Nikolle Krüger

INTEIRA

Ao olhar para tudo o que construiu até aqui, Naruna não menciona primeiro personagens, prêmios ou conquistas.

A resposta vem em uma única palavra.

"Orgulho."

Mas não se trata de um orgulho associado à chegada.

O sentimento está ligado à forma como percorreu o caminho.

"Tenho muito orgulho da minha caminhada. E o motivo é a conexão com a minha essência."

A ideia atravessa diferentes momentos da conversa. Está presente quando fala da jovem de Taboão da Serra que ainda consulta para se lembrar das próprias escolhas. Quando fala da responsabilidade que carrega ao ocupar determinados espaços. Quando fala da necessidade de proteger o tempo de criação. Quando fala dos sonhos que prefere não revelar.

"Nada, até aqui, fez eu me perder de mim."

A frase abre espaço para uma reflexão sobre as contradições da própria caminhada. 

"Nem as conquistas e nem as derrotas. E foram muitas. Elas sempre existem, mesmo dentro das maiores conquistas."

Naruna não romantiza o lugar que ocupa.

"É muito complexo esse lugar que ocupo hoje. É muito frágil também."

Ainda assim, há algo que permanece.

"Mas até aqui, tem muita dignidade envolvida.Eu me sinto viva, inteira, presente e isso me deixa muito orgulhosa."

Quando pergunto o que gostaria que as pessoas compreendessem sobre ela para além das personagens, sua resposta amplia a conversa para um território que atravessa toda a matéria.

"Talvez deixar fortalecida a ideia de que eu sou uma artista que faz arte popular contemporânea. Que procuro estar sempre conectada com o “povo” e com o “tempo” que estamos agora."

Ela fala sobre teatro, televisão, cinema, música, direção e escrita não como atividades separadas, mas como expressões de uma mesma formação.

"Eu atuo em teatro, TV, cinema, componho, dirijo, canto, escrevo e isso tudo, do lugar de onde eu venho — teatro de grupo, periferia, comunidade negra — é normal."

Em sua visão, essas linguagens não competem entre si.

"Todas as coisas caminharem juntas, se somarem umas às outras e fortalecerem as linguagens. Os talentos ou habilidades. Isso é próprio da cultura do povo brasileiro, das tradições populares, das religiões de matriz africana, das artes das ruas.."

A ideia remete a um conceito citado por ela durante a entrevista.

"A confluência, como bem denominou o mestre Nego Bispo."

A descrição também ajuda a compreender a artista que ela se tornou. 

"Tudo isso é de um valor imensurável. E eu tenho muito orgulho e muita crença na força de uma arte que nasce assim."

E, no fim, tudo parece voltar para a mesma ideia.

"Eu sou assim."

Fotos por Nikolle Krüger

Assessoria: Patricia Rabello