Hannah Bonam-Young: Romances que envolvem a todos
Em conversa com Nina Portolan, Hannah Bonam-Young fala sobre literatura, representatividade, amor, família e os personagens que desafiam estigmas e estereótipos. Autora best-seller da Amazon, hoje, Hannah celebra o lançamento de Antes que você me esqueça, seu novo romance publicado pela Globo Livros, e compartilha os caminhos que atravessam sua escrita e suas histórias. | Foto: Megan Preece
Hannah Bonam-Young é uma autora listada nos best-sellers da Amazon, cujas obras literárias se parecem com histórias de pessoas que você conhece. Ler um de seus romances é se sentir vista e representada de um jeito autêntico e irreverente. Os personagens de seus livros se apaixonam profundamente enquanto navegam por questões que circundam suas deficiências, saúde emocional, adoção, ou laços complicados de família. Contudo, estes tópicos tão complexos não sobrepõem suas paixões, que são mostradas sem filtros quanto aos estigmas e estereótipos.
Quando me sentei com Hannah, nossa conversa fluiu tranquilamente entre risadas compartilhadas e vivências que nos conectam. Parecia mais um café com uma velha amiga do que uma entrevista, e não só porque partilhamos vivências enquanto mulheres com deficiência ou como leitoras ávidas, mas pelo fato de que estar na presença de Hannah é sinônimo de se sentir acolhida e incluída. Nós conversamos sobre deficiências, inclusão, representatividade, amor, sexualidade, identidade e mulheridade, seguida de seu caminho para o sucesso internacional.
“Eu só queria escrever livros que trouxesse a sensação de familiaridade com os personagens e com as pessoas das quais eu me cerco.” ela disse referenciando seu início na literatura. A verdade é que uma simples frase carrega em si toda a essência de quem ela é, não só como autora, mas como pessoa.
A série “Out” e seu impacto
Minha melhor parte (Out on a limb)
“Minha melhor parte” (em inglês: Out on a Limb) é o livro que lançou a carreira de Hannah no caminho que está hoje. O romance, que traz dois personagens principais com deficiência, já foi traduzido para 20 idiomas, com mais saindo em breve. Enquanto Hannah diz que ainda não acredita em seu sucesso, eu entendi porque essa história é tão amada. Quando eu li o livro pela primeira vez, a profundidade e autenticidade dele me moveu intensamente. Eu me senti empoderada ao me ver refletida de maneira atraente e sexy em uma história genuína e poderosa sobre o amor, automaticamente me tornei uma fã de seu trabalho.
Dado que a diversidade e inclusão estão longe de serem a norma na literatura e na mídia, eu perguntei a Hannah sobre seu comprometimento em trazer personagens diversos à vida: “ Eu tinha que abordar essas questões de maneira intencional, porque eu queria fazer o certo por uma comunidade que eu tenho muito orgulho de fazer parte.”, ela explicou frisando que basear “Minha melhor parte” em sua experiência pessoal era uma escolha intencional, e que ao mesmo tempo ela sentia que era a história que deveria ser contada, mesmo que fosse muito intimidante. “Eu não necessariamente queria fazer desta forma, no início” ela brincou enquanto nós duas reconhecemos o quão desafiador é se colocar diante dos outros, apesar de ter valido a pena.
“O que foi muito legal de ter publicado o Minha melhor parte foi ter aberto o espaço para todas essas conversas que eu pude ter com outras pessoas com deficiências e leitores que tinham dificuldade de se enxergar em outras obras”, ela explica destacando o quanto isso significa pra ela escutar as pessoas dizendo o que os personagens Bo e Winn significam para elas. “Isso mostrou às pessoas ‘Oh, eu posso ter uma história de amor, eu posso ser amada(o/e) deste jeito, eu não estou pedindo muito’ e isto realmente é um reflexo do desejo que todos nós temos de sermos vistos e compreendidos.”
Onde muitas das tentativas de representatividade falham, quase forçadamente mostrando seus personagens centrais confinados a um rótulo em particular, a história de Hannah mira em trazer multitudes. Bo e Winn não são unidimensionais, eles são pessoas, e isto é muito maior que suas deficiências. Suas identidades enquanto pessoas com deficiência não são o foco da história ou uma estratégia para o enredo, como podemos encontrar em certos casos da literatura. Para Hannah, a história nunca é apenas sobre o relacionamento, ou só sobre a deficiência, ou questões com a saúde emocional, ou sobre o sistema de guarda familiar ou quaisquer que seja o tópico. A autora divide seu racional na interseccionalidade, definindo a nós mesmos e seus personagens a mais de uma identidade, dizendo “Eu os vejo como meus amigos. Eu não penso neles como pessoas com deficiência, penso neles como um é excelente anfitrião, outro é uma pessoa muito boa, outra é engraçada, outro é fashionista, ou o que seja, só depois penso em suas dificuldades com deficiência, saúde emocional, ou seja lá qual for, isto seria o quinto ou sexto tópico na lista de características que viriam a minha mente. No final do dia, este não é o principal foco ou o que define suas personalidades. Não o que eles são. É apenas algo que eles estão aprendendo a navegar.”
Esta abordagem sobre diversidade é sobre se sentir visto por inteiro. Em função disso – e do quão necessário isso é – a obra teve um impacto significativo em várias comunidades marginalizadas. Eu perguntei a Hannah como ela se sentia sobre o poder que suas palavras tem e se ela esperava que suas histórias continuassem com tamanha influência: “Não, de jeito algum.”, respondeu com uma nota de descrença em sua voz.
Ainda durante a elaboração do livro “Minha melhor parte”, enquanto aprendia a navegar a confusão de emoções e vulnerabilidade que é escrever, com a ajuda de sua amiga e leitora beta Sophie, Hannah chegou a pensar que seu livro talvez nunca “encontrasse seu público”. O que a fez continuar, apesar do medo, foi o desejo simples, porém poderoso, de criar algo que ressoasse com sua comunidade – “Se 10 pessoas lerem isso e fizer alguma diferença para elas, se o o conteúdo comunicar com elas e as fizerem se sentir vistas, já terá valido todo o esforço. Nós continuávamos dizendo isso: ‘se 10 pessoas…’”, frisou ela, relembrando que no período em que estava escrevendo a história ela sequer conseguia imaginar como o livro impactaria as pessoas.
“Eu nunca poderia ter previsto o caminho que isso tomaria, e eu acho que isso é lindo. Ainda não acho que consegui processar completamente. Acho que nunca vou. É incrivelmente validante escrever uma história que é tão importante para mim e que ressoou com as pessoas, por ser profundamente íntimo, pensava que seria algo que só eu e mais 10 pessoas leriam.”
Hoje em dia, este livro é popular no mundo todo, e Hannah tem a oportunidade de ser convidada para eventos que lhe permitem sentir e vivenciar o amor de seus leitores, ouvindo em primeira mão as coisas que eles amaram, as que os fizeram rir ou chorar. No entanto, ela admite que, até hoje, pode ser difícil compreender a magnitude de sua obra, afirmando: “Assim que (Minha melhor parte) começou a ser lido e compartilhado pelos leitores, no primeiro mês de seu lançamento, foi lido mais do que todos os meus outros livros juntos. Não parece nem um pouco real e vou pensar nisso pelo resto da minha vida.”
Desde o lançamento de “Minha melhor parte”, muitos outros autores a procuraram dizendo que ela os ajudou a sentir que publicar histórias de sucesso com diversidade era possível, enquanto antes eles se abstinham por medo de não se darem bem. Sabendo por experiência própria como defensora e palestrante o quão difícil pode ser lutar contra o medo do fracasso ou da rejeição, perguntei à escritora que mensagem ela poderia compartilhar sobre isso agora que algum tempo se passou desde sua descoberta e ela continua a escrever romances únicos que são consistentemente recebidos com amor.
“Haverá pessoas que não pegarão meu livro porque há dois personagens com deficiência, e então não é para elas. Você não pode forçar as pessoas a se importarem, a terem empatia ou a quererem ler uma experiência vivida que não é a delas, mas isso não significa que você não deva aparecer e que eu não deva escrever, porque lutar por estes direitos é a única maneira de fazer a mudança realmente acontecer”, diz a escritora. Além disso, ela enfatizou que é crucial lembrar os leitores de diversificarem as histórias que leem, porque os leitores são a força motriz que fará com que as editoras publiquem mais desses livros.
A Trilha Para O Coração (Out of the Woods)
“Out of the Woods”, a segunda parte da série “Out”, saiu em janeiro de 2025. O livro acompanha a história de Sarah e Caleb – namorados do ensino médio que se casaram, e melhores amigos de Win e Bo, de “Minha melhor parte” – enquanto eles enfrentam uma crise no casamento. Até então, eu havia lido e adorado todos os livros anteriores de Hannah, mas, por não ter conhecido meu parceiro de vida, temia que esta história não fosse me impactar. Com isso em mente, pedi a Hannah que me dissesse o que ela achava do enredo deste livro e da relação com experiências desconhecidas.
“Nem todo mundo se casou com seu namorado do ensino médio. Mas, se aprendi alguma coisa com o processo de escrever e lançar ‘Minha melhor parte’, foi que, às vezes, até mesmo as partes mais vulneráveis e específicas da minha própria história de vida ou da história das pessoas que conheço e amo podem parecer identificáveis para muitas pessoas, porque, no fim das contas, estamos todos apenas tentando sobreviver. Eu escrevo personagens que se sentem desafiados, inadequados e perdidos. E acho que essa é uma emoção humana muito comum e um tema que surge em todos os meus livros”, explica a autora.
Refletindo sobre uma conversa recente, ela aprofunda o tema recorrente em sua obra. “Todas as minhas personagens femininas principais estão realmente em uma posição em que sentem que a vida está acontecendo com elas, e elas não a estão vivendo. E então, no final do livro, elas fizeram escolhas e tomaram decisões que as levaram a viver uma vida, e a vida não está mais acontecendo com elas.”
Isso é algo com que Hannah acredita que qualquer pessoa pode se identificar em algum momento, independentemente da situação em que se encontre. Podemos nos ver e ver nossos entes queridos se sentindo assim. A partir daí, é apenas uma questão de aceitação e encontrar uma maneira de seguir em frente.
“Você pode colocar alguém em qualquer situação, seja casada com o namorado do colégio, tendo uma gravidez acidental ou tendo que acolher seu irmãozinho em um orfanato, e é, de fato, apenas uma questão de aceitar o que a vida está lhe dando e descobrir para onde ir a partir daí. E eu acho que é por isso que ‘Out of the Woods’ funcionou para as pessoas, apesar delas talvez não terem essa parceria ou esse relacionamento de longo prazo, porque Sarah está perdida, confusa e procurando por respostas, e eu acho que isso é muito natural e normal.”
A série “Next” e suas reflexões sobre o amor
Os livros “Sinais do amor”( em inglês: Next of Kin) – o primeiro livro publicado por Hannah Bonam-Young – seguido por “Next to You” são a dupla que pertence a série “Next”. Assim como outros, estes livros oferecem histórias de amor repletas de paixão e comprometimento, sem fugir de temas difíceis que as pessoas costumam a varrer para debaixo do tapete. Ambos os livros têm uma conexão com relacionamentos familiares: o primeiro explora o cuidado familiar e a adoção por meio da história de War e Chloe, enquanto o segundo oferece uma visão igualmente marcante do luto e seu impacto na mente humana, por meio de seus personagens Lane e Matt.
Mais uma vez, lidando com a complexidade da experiência humana com amor e carinho excepcionais, a autora reflete sobre a profundidade das emoções e o mundo interior de seus personagens: “Sinceramente, eu simplesmente não conseguia me imaginar escrevendo outra coisa. Acho que as histórias que adoro ler e as histórias que eu queria escrever são as mesmas”.
“Eu vejo que o romance contempla uma escrita realmente linda, com uma habilidade de conter esses personagens plurais, porque você os conhece muito bem, e muitas vezes não há esses grandes pontos de referência que tiram a voz interior deles ou o mundo interior deles. Então, consigo simplesmente tê-los com seus pensamentos divagantes e com suas experiências vividas, falando sobre seus sentimentos, fazendo terapia e todas essas coisas que os fazem se sentir mais comuns. Mas acho que simplesmente não conseguiria imaginar que fosse diferente.”
Seus personagens “vivem no mundo real” porque suas histórias são as de pessoas com quem ela se cerca. Eles têm as lutas, as histórias e as vidas que todos nós poderíamos reconhecer em nossas famílias ou comunidades. Para Hannah, essas são as pessoas que ela ama e essas são as histórias que ela sente que valem a pena ser contadas.
Esse comprometimento particular com seu estilo de escrita faz com que as histórias de Hannah sejam moldadas de uma forma que todos possam se ver em uma cena ou se conectar a uma história. Em todos os quatro livros que mencionamos até agora, há algo de único em uma experiência específica vivida, mas mostrado de uma forma que a torna universal. Para a autora, esse era exatamente o objetivo que ela esperava alcançar.
“A história de Lane não é apenas para pessoas com ansiedade, a história de Win não é apenas para pessoas com deficiência, e a história de Chloe não é apenas para pessoas que viveram experiências com lares adotivos ou guarda de irmãos. São personagens que contêm dimensões suficientes para que tantos leitores diferentes se sentissem identificados, e o legal disso é que, às vezes, os leitores têm a oportunidade de vivenciar uma experiência sobre a qual nunca haviam pensado.”
Quando os leitores a procuram dizendo que aprenderam algo e que seus livros os fizeram refletir sobre a experiência de um amigo ou ente querido, Hannah frequentemente se sente sem palavras, dizendo que é um privilégio incrível emprestar sua voz a essas conversas que agora parecem maiores do que ela mesma.
Romance, intimidade e crescimento
Nos livros de Hannah Bonam-Young, o romance e a autodescoberta acontecem nos momentos mais lentos. Há momentos pequenos e intensos de aceitação e amor nesses livros, então eu queria saber o que torna o romance especial? Suas histórias são repletas de momentos pequenos e intensos de aceitação e amor, o que me levou a perguntar: o que torna o romance tão especial para ela?
“O que eu realmente gosto em escrever histórias de amor”, ela diz, “são os pequenos momentos que parecem tão importantes quanto as grandes declarações de amor. Acho que são os atos de serviço, as pequenas coisas atenciosas que cada personagem faz pelo outro. Em cada um dos meus livros, há um momento que eu consigo resumir, de consideração e sensibilidade, de uma forma física e tangível. A maneira como Bo divide as despesas não é uma grande declaração de amor, mas é respeito, compreensão e comunicação, e mostra alguém que é realmente capaz de ter conversas desconfortáveis quando quer cuidar de alguém. E querer cuidar de alguém com respeito em mente. Ou como Matt, quando Lane estabelece um limite de que ela não quer mais vê-lo, ele escreve cartas e as envia para a irmã dela. Assim, ela pode lê-las ou talvez nunca as leia, mas é a maneira dele de se fazer presente. Ou como Caleb em “Out in the Woods”, quando Sarah está chateada porque eles vão acampar e não têm eletricidade. Ela não leva o Kindle, mas ele leva e compra um carregador solar para ela. É uma pequena maneira de deixar alguém saber que é visto e que suas influências passadas importam.
Esses homens entendem a história e a personalidade de suas parceiras/interesses amorosos e agem de uma maneira que lhes traz uma sensação de conforto, o que Hannah explica mais detalhadamente: “Lane tem um medo muito profundo de abandono, então Matt sabia que, mesmo fisicamente separados, ele precisava demonstrar que não iria a lugar algum. Win tem muitos traumas por sentir as coisas desequilibradas e muita ansiedade por questões financeiras, em se sentir uma pessoa justa e por não querer ser um fardo. E ele assume isso para si mesmo, para descobrir isso de uma forma que funcione para ambos. Sarah é realmente ansiosa e gosta de seus confortos, e Caleb garante que ela tenha um desses confortos em um ambiente onde ele sabe que ela se sentiria desconfortável.”
Para esta escritora, a essência do romance é que é maravilhoso declarar amor e afirmá-lo com palavras, mas o mais importante é como as pessoas se fazem presentes umas às outras. Estes momentos em seus livros ocupam um ou dois parágrafos, mas são cuidadosamente entrelaçados na história e são lindamente sinceros. Ela gentilmente explica esse rico componente emocional dizendo: “Sinto que eles são tão impactantes porque mostram que cada um tem sua própria maneira de precisar ser amado e a pessoa certa fará isso por você.”
Outra verdade é que buscar o amor pode nos deixar inseguros e nos fazer pensar que precisamos mudar. Amar a nós mesmos e buscar o amor do outro exige um crescimento que pode ser doloroso, especialmente quando enfrentamos turbulências em nossas vidas. Os romances de Hannah frequentemente mostram esse processo interno, levando seus personagens a um caminho de profunda mudança.
“É definitivamente um equilíbrio delicado, porque é difícil escrever uma história em que pareça haver esse crescimento, mas não é porque de repente encontraram o amor ou encontraram alguém que aconteceu o crescimento deles.” Hannah diz: “este amor está agindo mais como um espelho do que como uma cura, porque encontrar o amor não é uma cura. É apenas algo que pode ajudar você a refletir e traz à tona as partes mais feias de si mesmo, suas maiores inseguranças. Sinto que quando as pessoas estão começando a desenvolver uma paixão ou sentimentos por alguém, elas começam a analisar demais: ‘Ok, como estou? Como falo? Como me apresento? Essa pessoa vai gostar de mim?’. Elas começam a se dar conta de todas essas coisas que talvez estivessem adiando.”
Através de seus personagens principais, a autora molda narrativas que, para o leitor, subconscientemente apresentam esse equilíbrio entre as pessoas que encontram o amor-próprio e, ao mesmo tempo, encontram amor externo e validação. Esse desenvolvimento pessoal e emocional se manifesta nos obstáculos que seus personagens enfrentam, onde os problemas não são “resolvidos magicamente” pelo amor da outra pessoa. Não é um caso de “bem, agora alguém gosta de mim, então agora estou bem”, diz ela. Ao invés disso, esse amor leva a personagem a uma jornada de autoconhecimento.
Win, de “Minha melhor parte”, e Lane, a personagem principal de “Sinais do Amor”, são ótimos exemplos disso. Ambas as mulheres passaram por muitas dificuldades e traumas e, embora suas histórias sejam muito diferentes, Hannah diz que foi incrivelmente gratificante escrevê-las sob a perspectiva de não apenas aprendendo a processar e aceitar o amor da pessoa que as presenteou, mas também “se apaixonando por si mesmas ao mesmo tempo”.
Enquanto conversamos, lembro-me de quão profundamente me senti em relação a alguns dos pensamentos de Win sobre ser mãe com deficiência, porque me reconheci neles. Também quase evitei algumas páginas de “Sinais do Amor”, por me sentir muito absorta nas descrição dos ataques de ansiedade da Lane, tanto que para mim era quase palpável. Entretanto, ambas as mulheres eventualmente encontram seus caminhos e crescem enquanto indivíduos, com suas histórias de amor atuando como catalisadores destes momentos.Hannah explica: “Ela (Win) jamais questionaria o quão capaz ele (Bo) era, e por isso surgiu a pergunta: ‘bem, então por que me sinto assustada? Por que me sinto incapaz?’ E com a Lane, acho que foi simplesmente ver alguém tão paciente e compreensivo que não se cansaria dela.”
A novela de Hannah sobre um casal LGBTQI+ intitulada “Set the record straight”, assim como “Minha melhor parte” e todos os seus outros romances, são picantes, quentes, sensuais e divertidos, com muita ação nas páginas. No entanto, há um tom tangível de respeito, inclusão e consentimento nessas cenas íntimas, independentemente do contexto ou das preferências dos personagens. Sabendo que pessoas de muitas identidades marginalizadas, incluindo pessoas com deficiência, ainda enfrentam uma narrativa que faz com que suas vidas íntimas sejam colocadas sob uma lente de aumento e se tornem divididas entre o escrutínio e a curiosidade, perguntei à autora sobre sua abordagem a esse aspecto de sua escrita.
“Meu principal objetivo com “Minha melhor parte” era que eles fossem muito sensuais… Eu estava farta da narrativa de que pessoas com deficiência simplesmente não são sexuais, ou que lhes faltaria intimidade, ou que não se divertiriam tanto nesse sentido, ou que não se sentiriam confortáveis em ter um caso de uma noite só. Eu sabia que Win passaria por uma jornada de amor-próprio e superaria algumas inseguranças, mas também sabia que Win é uma mulher linda, atlética e deslumbrante, que poderia dormir com qualquer pessoa que quisesse.”
Referindo-se ao arco da história, Hannah explica que, como a intimidade sexual é um elemento básico em romances, ela estava consciente de não deixar que isso parecesse algo secundário, ou pior, como se estivesse cortando atalhos. Era importante não menosprezar este fator só porque esses personagens tinham muita coisa acontecendo. “Quer dizer, é uma gravidez acidental, eles tiveram que engravidar”, ela diz enquanto nós duas rimos, e então corrige: “Mas aí eles se arrastaram até o ponto em que basicamente não se tocam mais (por um longo tempo)”, quando trocamos um olhar penetrante, relembrando algumas cenas particularmente frustrantes, porém carregadas.
Refletindo mais sobre a dinâmica do casal, ela acrescenta: “O que é diferente na forma como ela interage com Bo é o nível de compreensão que eles compartilham e a maneira como ele não a apressa… É aquele momento em que ela está desabotoando a blusa e isso leva um instante. E em vez de fazer isso por ela, ele apenas se inclina para trás e a observa fazer.” As ações de Bo dizem: “Não estou com pressa e não estou tentando acelerar as coisas só porque você tem um ritmo ou porque pode ser difícil”. Fica claro que, em termos simples, as conexões em seus romances não são sobre diferenças, mas sobre estar presente um para o outro e mostrar um ao outro que somos vistos como inteiros e humanos.
O processo criativo, as inspirações e os próximos livros
Embora os livros de Hannah tenham impactado e repercutido em pessoas do mundo todo, a trilogia “The Brown Sisters”, de Talia Hibbert, e a série “Bergman”, de Chloe Liese, foram os que tornaram seu sonho de escrever e publicar romances diversos tangível e possível. Ela se sentiu fortalecida e reafirmada ao ver que esses livros são amados e populares. No entanto, há uma história de amor que se destaca:
“O livro em que mais me senti presente, e depois tive essa sensação de calma, foi “Yours Truly”, de Abby Jimenez. A experiência de Jacob com a ansiedade e a maneira como sua ansiedade se manifesta e se apresenta são profundamente semelhantes às minhas. E acho que foi a primeira vez que senti isso enquanto estava lendo um livro e torcia por ele tão profundamente. Tipo, eu entraria em guerra por ele”, ela me conta, com partes iguais de gentileza e humor na voz.
Neste momento, Hannah está “integralmente dedicada a escrita” – seu próximo livro, “People Watching”, será lançado em setembro. É o primeiro de uma nova série de duetos “People”, e seu primeiro romance completo com um ponto de vista duplo. Embora ela ache que a entrevista foi uma boa pausa, fiquei curiosa para saber como foi seu processo criativo e, especialmente, o desenvolvimento de seus personagens.
“Tenho uma necessidade muito intensa de saber absolutamente tudo o que há para saber sobre eles. Então, o que eu preciso fazer antes de começar a escrever é simplesmente esse documento enorme com informações sobre tudo o que sei sobre cada personagem, desde quem foi seu professor favorito na infância até quem é sua maior influência, e qual pasta de dente eles usam.”
Hannah diz que essa abordagem lhe permite entender a história de fundo de um personagem e o que o define, então é fácil saber quais decisões eles tomariam e evitar seu maior medo de impor sua própria lógica a eles. “É a minha maneira de conhecê-los a ponto de sentir que eu só preciso transcrever a história. É como se eu estivesse contando a história que eles estão me contando, em vez de eu ter que tomar decisões e influenciar o que eles escolhem fazer.”
A autora diz que o processo de escrever “People watching” foi uma experiência muito diferente devido à mudança de perspectivas, explicando que, embora seu despejo de informações sobre os personagens seja sempre sobre os dois, desta vez ela se concentrou ainda mais em seu personagem principal masculino – “Eu realmente precisava conhecer o Milo e realmente precisava tentar entrar na cabeça dele.”
Enquanto ela falava, percebi que, até aquele momento, eu não tinha me dado conta de que seus livros tinham um único ponto de vista, devido ao quão imerso alguém pode se sentir em suas histórias.
“Fico tão animada quando as pessoas dizem que não percebem que meus livros têm um único ponto de vista, porque é difícil de transmitir”, exclama Hannah, acrescentando que, como suas personagens femininas principais estão passando por uma jornada turbulenta de autodescoberta ou passando por algo transformador, ela sempre quer dar a elas o foco e o tempo para que a história se desenrole.
Seus livros são histórias de amor sensuais e lindas, mas são igualmente sobre cada personagem e quem eles são. “Eu também queria criar homens tão transparentes e tão sinceros na forma como abordo a história, a ponto de que você soubesse o que eles estavam pensando e como se sentiam, e sentisse na cabeça deles, mesmo que não estivesse lendo da perspectiva deles.” Ela acrescenta.
Os romances de Hannah Bonam-Young também se tornaram incrivelmente populares nas redes sociais. Além dos ilustradores com quem a autora colabora diretamente, exibindo seus trabalhos no Instagram e criando detalhes especiais para fãs sortudos, ela também tem playlists no Spotify dedicadas a cada livro, permitindo que o leitor mergulhe na história. Como fã, isso é algo que eu realmente amo nela e em sua comunidade, e conversamos animadamente sobre como ela adoraria ver uma edição ilustrada de qualquer um de seus livros.
Como ela geralmente escreve seus livros em pares, interligados pelos personagens principais de um aparecendo como coadjuvantes no outro e vice-versa, perguntei a ela sobre essa escolha e a decisão de não expandir para trilogias: “Para mim, como escritora, é importante seguir em frente. Há muitas histórias que ainda não tive a chance de contar e que estou animada para contar. Por mais que eu sinta falta dos meus personagens, de conviver com cada um deles e de desejar poder passar mais tempo com eles, também sei que o processo de conhecer um novo conjunto de personagens em um novo ambiente é tão precioso que eu não gostaria de não ter isso. Acho que muitas vezes só faço duetos porque não estou pronta para terminar com os personagens do primeiro livro. Mas acho que, depois desse ponto, começa a virar autoindulgência e eu preciso conhecer novos amigos”, explica ela, e nós duas rimos, pois mais uma vez me lembro do quão comprometida ela é.
Ela me conta, animada, que há fanfics sobre Win e Bo, e que os fãs estão contribuindo com a história deles, acrescentando que a melhor coisa de ser autora é que os leitores podem pegar as histórias dela e torná-las suas. “Eu acho que é algo contínuo.Que só não precisa mais de mim.”
Ser merecedora e digna
À medida que me aproximo lentamente do fim da minha conversa com Hannah, estou animada com o que está por vir. “People Watching” chega aos leitores em setembro, e “People Pleasing”, a segunda metade da série, também já foi anunciada. Há um contrato para pelo menos mais dois livros posteriormente, embora ela diga que suas ideias sobre eles ainda não a alcançaram.
Quando expressamos mais uma vez a necessidade de uma representação mais diversa, ela compartilha um conselho para autores que buscam escrever romances diversos, dizendo-lhes para não se preocuparem com o que é popular ou o que é mais amado e está funcionando agora, e, em vez disso, se concentrarem na história que só eles podem contar e nos personagens que desejam dar vida.
Para seus colegas com deficiência e outros escritores de identidades marginalizadas, ela tem uma mensagem simples: “simplesmente desliguem a comparação”, porque é difícil para autores com deficiência e doenças crônicas abrirem mão disso, apesar da luta para se sentirem bem ou não sentirem dor.
“Você não vai conseguir produzir a mesma quantidade que outra pessoa, mas sua voz é necessária. Sua história é necessária. E se demorar mais, demora mais, mas não compare no sentido de que ‘fulano tem oito livros saindo este ano, então talvez eu devesse ter pelo menos dois’. Você precisa fazer isso com seu próprio corpo, sua própria mente e como você trabalha e opera.”
Ela acrescenta que mais autores marginalizados são necessários, mas tentar se destacar com essas histórias pode parecer se jogar contra uma porta fechada. Ainda assim, ela acredita que a dedicação compensa, porque “às vezes essa porta se abre, e vale a pena”. A publicação independente, ela observa, é um caminho poderoso para essas histórias, permitindo que elas alcancem os leitores mesmo quando as editoras tradicionais demoram a entender o que as pessoas realmente querem.
Por fim, não posso deixar de admirar essa mulher brilhantemente criativa e gentil, pedindo-lhe que compartilhe uma mensagem com as mulheres que vivem as histórias complexas de personagens, ou com a versão anterior dela mesma, agora que assumiu o controle da narrativa, criando sua própria e bela história.
“Coloquei grande parte disso em ‘Minha melhor parte’ e, infelizmente, em ‘Out of the woods’ e agora em ‘People watching’. Acho que estou revelando demais”, ela ri, e então me surpreende ao compartilhar a história de uma professora carinhosa que ela teve no ensino médio, cujas palavras para Hannah acabaram em ‘Minha melhor parte’. “É quando Sarah diz a Win: ‘Você merece coisas boas'”, explica ela. “Acho que quando somos atingidos repetidamente pela vida de várias maneiras diferentes, a situação fica muito pesada e parece que talvez o mundo esteja torcendo contra você. Então, quando coisas boas acontecem, parece que elas não deveriam acontecer, ou como se algo ruim tivesse que acontecer para compensar. E eu coloco isso na Win”.
É um sentimento que soa verdadeiro para nós duas, e enquanto assimilo o que Hannah compartilhou, ela o repete com firmeza, acrescentando: “Você merece coisas boas. Elas não só vão acontecer com você, mas quando acontecerem, você deve entender que as merece. E há orgulho e responsabilidade nisso. E eu desejo isso para mais pessoas, porque acho que as mulheres muitas vezes são levadas a sentir que devemos ser felizes e contentes com o que temos e não lutar por mais, ou querer mais. Mas, no final das contas, você consegue ter coisas boas. E quando elas acontecem, você as merece. E você pode continuar se esforçando para ter mais delas também.”
Conheça o novo lançamento da autora:
Antes Que Você Me Esqueça
Uma história emocionante de Hannah Bonam-Young sobre cuidado, pertencimento e amor
Prudence Welch aprendeu cedo a colocar as necessidades dos outros acima das suas. Enquanto os dias passam na pequena cidade canadense onde cresceu, ela divide o tempo entre o trabalho na loja de conveniência da família, os poemas que escreve em segredo e os cuidados com a mãe, diagnosticada com Alzheimer precoce. Prue está determinada a permanecer ao lado de quem ama, mesmo que, para isso, precise deixar os próprios sonhos sempre para depois.
Até que Milo Kablukov chega à cidade e altera o ritmo previsível de sua vida. Aventureiro, inquieto e dono de uma velha van coberta de adesivos, ele está acostumado a viver na estrada e não costuma criar raízes. Milo representa tudo aquilo que Prue nunca se permitiu ser: livre, espontâneo e disposto a seguir adiante sem saber exatamente aonde o caminho vai levar.
Apesar das diferenças, os dois constroem uma amizade inesperada, marcada por cumplicidade, desejo e uma conexão cada vez mais difícil de ignorar. Ao lado de Milo, Prue começa a imaginar uma existência para além das responsabilidades que assumiu — e a se perguntar se cuidar dos outros precisa significar abandonar a si mesma. Para Milo, o encontro também traz uma descoberta inédita: talvez permanecer em um lugar possa exigir tanta coragem quanto partir.
Mas, quando segredos familiares vêm à tona e a realidade que Prue passou anos tentando preservar começa a se transformar, ambos precisam confrontar seus maiores medos. Entre despedidas, escolhas difíceis e sentimentos que já não podem esconder, Prue e Milo terão de decidir se estão dispostos a abrir espaço em suas vidas para um amor capaz de mudar seus planos.
Conhecida por romances divertidos, sensuais e repletos de reflexões, como o best-seller Minha melhor parte, Hannah Bonam-Young apresenta aos leitores mais uma narrativa sensível e encantadora. Em Antes que você me esqueça, ao abordar temas como Alzheimer precoce, relações familiares e renúncia, a autora mostra que recomeçar não significa abandonar aqueles que amamos, mas compreender que também merecemos construir uma vida verdadeiramente nossa.
Sobre a autora
Natural da Sérvia e Coordenadora de Juventude da European Network on Independent Living, Nina Portolan atua na defesa dos direitos humanos e dos direitos das pessoas com deficiência, com foco em inclusão, acessibilidade e representatividade. Seu trabalho está profundamente ligado às discussões sobre autonomia, dignidade e a construção de espaços mais acessíveis — temas que, infelizmente, ultrapassam fronteiras e seguem fazendo parte de uma conversa global. Na Pitaya, Nina contribui com reflexões, análises e conversas sobre sociedade, inclusão e pertencimento, trazendo um olhar crítico, humano e necessário para temas que ainda costumam ser invisibilizados.
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