Maternidade sem romantização: a mãe que eu imaginei e a mãe que me tornei
Mãe de dois meninos neurodivergentes, Dalila fala sobre a maternidade sem romantização, a culpa que acompanha tantas mulheres e a importância de construir uma relação de amor, presença e acolhimento com os filhos.
Existe uma versão da maternidade que aparece nas fotografias: a casa organizada, o sorriso paciente, o café ainda quente e a sensação de que uma boa mãe dá conta de tudo. A verdade é que essa versão quase nunca mora dentro da vida real.
Tenho 40 anos, sou terapeuta holística, casada e mãe de dois meninos neurodivergentes: um adolescente de 14 anos com TDAH e um pequeno de 3 anos autista. Entre essas duas maternidades existe um universo inteiro de aprendizados. E talvez o maior deles seja este: eu também preciso existir além do papel de mãe.
Durante muito tempo acreditei que cuidar significava estar disponível o tempo todo. Que descansar era egoísmo, que pedir ajuda era fraqueza e que uma mãe boa era aquela que nunca falhava. Mas a culpa materna é pesada demais para ser carregada diariamente. Ela nos convence de que sempre poderíamos fazer mais, quando, na verdade, muitas vezes já estamos oferecendo tudo o que temos.
Ser mãe de um adolescente também desmonta outra fantasia: a de que nossos filhos sempre precisarão de nós da mesma maneira. Eles crescem, contestam, criam suas próprias ideias e começam a caminhar alguns passos à frente. Soltar não significa amar menos; significa confiar que o amor construído será forte o bastante para acompanhá-los mesmo à distância.
E então chega um filho pequeno, que precisa de colo, de rotina, de presença intensa. Entre um menino que busca autonomia e outro que ainda descobre o mundo, eu aprendi que nenhum dia precisa ser extraordinário. Nem toda tarde renderá brincadeiras inesquecíveis, nem todo jantar será harmonioso. Às vezes, o maior ato de amor é simplesmente estar ali, imperfeita, mas presente.
E foi pensando neste contexto que me tornei terapeuta! Na insana vontade de estar presente e de ser porto seguro deles, dentro de suas tantas necessidades de buscar a morada.
Porque o mundo é campo de caça! E ele é cruel!
Da escola a convivência, não tem brecha e não tem apoio (excesso um anjo sensato aqui e outro ali), então nada mais acolhedor para nossos guerreiros da vida real, que a cada batalha eles pudessem voltar para sua morada e encontrar colo, braços abertos e compreensão para ser eles em seu estado mais puro.
Como terapeuta, observo que criar filhos também nos obriga a revisitar a nossa própria infância. Muitas das reações que temos não nascem do comportamento deles, mas das histórias que ainda vivem dentro de nós. Curar a mãe que fomos filhas é, muitas vezes, o primeiro passo para educar com mais consciência e menos repetição.
Hoje já não busco ser a mãe perfeita que imaginei aos vinte e poucos anos. Prefiro ser a mãe possível: aquela que erra, pede desculpas, recomeça e entende que amor não é desempenho. É vínculo.
Se existe uma romantização que precisa acabar, talvez seja esta: a de que mães precisam dar conta de tudo sozinhas. Não precisamos. Precisamos de rede, de descanso, de escuta e, principalmente, da permissão para sermos mulheres completas.
E nós também merecemos crescer junto com eles, de mente e corpo sãos, sem culpa e com um pouco mais de leveza!
Sobre a autora
Dalila escreve sobre aromaterapia, tarô, perfumaria ancestral e os pequenos rituais que tornam a vida mais consciente e sensorial. Interessada pelos saberes que atravessam gerações, explora a relação entre natureza, bem-estar e autoconhecimento. Mãe de Júlio e João, acredita que a escuta, a presença e a curiosidade são algumas das formas mais bonitas de cuidado. Na Pitaya, compartilha caminhos, reflexões e tradições que convidam a olhar para dentro sem perder a conexão com o mundo ao redor.
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