O que fica de uma mãe depois que ela vai embora?
A partir das memórias de João Marcello Bôscoli, filho mais velho da cantora, Elis & Eu revisita a mulher por trás do mito e as diferentes versões de Elis que permanecem nas lembranças de quem conviveu com ela.
Baseado nas memórias de João Marcello Bôscoli, filho mais velho de Elis Regina, documentário revisita a cantora a partir das lembranças de quem a conheceu como mãe, amiga, parceira e uma das maiores vozes da música brasileira.
Quando uma pessoa morre, a memória não fica parada.
Ela muda de lugar. Passa pelas histórias que alguém conta, por uma fotografia guardada durante décadas, por uma música que volta a tocar, por uma receita, por uma frase que ninguém mais diz exatamente como aquela pessoa dizia. Com o tempo, aquilo que parecia pequeno pode se tornar justamente o que mais importa.
João Marcello Bôscoli tinha pouco menos de 12 anos quando perdeu a mãe. Elis Regina morreu em janeiro de 1982, aos 36 anos. Décadas depois, ao tentar preservar as lembranças que tinha dela, percebeu que muitas delas só haviam ganhado importância porque ela havia partido.

É a partir desse lugar, o da memória de um filho, que nasce Elis & Eu, documentário dirigido por André Bushatsky e inspirado no livro Elis e Eu: 11 anos, 6 meses e 19 dias com minha mãe, escrito por João Marcello e lançado em 2019.
Por trás dessa história, existe uma pergunta maior: quantas Elis Regina existiam?
Porque a mulher lembrada por João Marcello como mãe não é necessariamente a mesma Elis que Rita Lee conheceu como amiga. A parceira musical de Tom Jobim não é a mesma mulher que Wanderléa conheceu longe dos palcos. A artista admirada por Milton Nascimento também não é exatamente a intérprete que deu novas dimensões às canções de João Bosco.
É aí que a memória ganha força.
A Elis que João Marcello conheceu

Durante a pesquisa para o documentário, foram reunidas mais de 1.500 imagens de arquivo e cerca de 200 horas de vídeos. Entre esse material e as lembranças de João Marcello, surge uma Elis que nem sempre aparece quando se conta a história da cantora.
A mãe que cozinhava para os filhos. Que participava de reuniões escolares. Que cultivava hortas. Que tentava equilibrar maternidade, carreira, casamento e vida empresarial.
Há uma lembrança especialmente reveladora. Um dia, Elis preparava um camarão na moranga para amigos. Ao ouvir que cozinhava muito bem, respondeu: “você tinha que me ver cantando”.
A história é engraçada, mas também diz muito sobre a dimensão doméstica de uma mulher que, para o público, parecia existir quase inteiramente sobre um palco.
Depois de sua morte, essas pequenas cenas ganharam outro peso.
“Quando a minha mãe morreu, eu passei a lembrar de coisas, e depois percebi que eu não lembraria se ela não tivesse morrido. Coisas absolutamente cotidianas passaram a ser muito importantes”, conta João no documentário.
Depois que alguém vai embora, o extraordinário permanece. O que muda é o peso das pequenas coisas.
A Elis que existia nas relações
Nenhuma pessoa é uma história única.
Elis Regina foi filha, mãe, companheira, amiga, empresária, cantora. Foi também parceira de criação de alguns dos nomes mais importantes da música brasileira e intérprete de compositores que tiveram suas obras transformadas pela voz dela.
Elis & Eu recupera essas diferentes relações por meio de imagens de arquivo e depoimentos, entre eles registros de Ronaldo Bôscoli, César Camargo Mariano, Tom Jobim, Milton Nascimento, João Bosco e Rita Lee, além de uma entrevista inédita com Wanderléa.
Cada um, à sua maneira, ajuda a reconstruir uma Elis diferente.
Ronaldo Bôscoli, compositor, produtor e jornalista, foi um dos grandes amores da vida de Elis e pai de João Marcello. Também acompanhou uma fase importante da carreira da cantora.
César Camargo Mariano foi seu parceiro durante a década de 1970 e responsável pela direção musical de alguns de seus trabalhos mais marcantes. A parceria entre os dois ajudou a redefinir o som de Elis, aproximando sofisticação, modernidade e liberdade artística.
Com Tom Jobim, a história foi outra. Em 1974, os dois se encontraram em Los Angeles para a gravação de Elis & Tom, álbum que se tornaria uma referência da música brasileira. O documentário revisita essa viagem e o encontro entre dois artistas fundamentais.
Milton Nascimento aparece através da amizade e da conexão musical que manteve com Elis, marcada por emoção e inovação.
João Bosco surge por outro caminho: o de compositor cuja obra encontrou na voz de Elis uma dimensão histórica. Entre as canções que ganharam força em sua interpretação está “O Bêbado e a Equilibrista”, composta por Bosco e Aldir Blanc.
São relações diferentes, em momentos diferentes, que não formam uma única imagem de Elis. Formam várias.
A amiga de Rita Lee
Talvez uma das histórias mais delicadas seja a da amizade entre Elis Regina e Rita Lee.
Em 1976, Elis visitou Rita quando a cantora estava presa. Levou consigo o pequeno João Marcello.
O episódio poderia ser apenas mais um capítulo na biografia de duas artistas. Mas, visto pela perspectiva da amizade, ganha outro significado. É um gesto de presença em um momento difícil e um retrato da relação de carinho e admiração que existia entre as duas.
O documentário recupera imagens de arquivo em que Rita fala sobre a amiga.
É uma outra Elis que aparece ali. Não a cantora diante de uma plateia, mas a pessoa que estava presente na vida de outra mulher.
A mulher que existia longe dos holofotes
É também nesse espaço mais íntimo que entra o depoimento inédito de Wanderléa.
Amiga de Elis, ela oferece lembranças de uma mulher afetuosa, divertida e generosa, além da artista que o público conhecia.
Existe algo particularmente interessante nessa perspectiva: quando uma pessoa se torna um ícone, sua imagem pública pode acabar ocupando quase todo o espaço.
Elis Regina virou referência. Sua voz, sua presença e sua trajetória fazem parte da memória cultural brasileira. Mas antes de se tornar esse personagem enorme, ela era uma pessoa que existia também nas relações mais próximas, nos encontros, na casa, na família e nas amizades.
É por isso que os relatos de quem esteve perto são tão importantes.
Eles devolvem alguma medida humana ao mito.
O que permanece

João Marcello conta que sempre achou necessário guardar as coisas. Tinha medo de esquecer e, principalmente, de não poder contar essas histórias aos próprios filhos.
É uma preocupação simples e, ao mesmo tempo, universal.
Guardar para poder contar.
Contar para que alguém que não conheceu possa imaginar.
E é assim que uma memória pessoal começa a se transformar em memória coletiva.
A lembrança de João sobre a mãe encontra as lembranças de quem trabalhou com ela, amou, criou, compôs, tocou, cantou e dividiu a vida com ela. As imagens de arquivo encontram as dramatizações. As músicas encontram as histórias. A Elis mãe encontra a Elis amiga, a Elis parceira, a Elis intérprete, a Elis artista.
Nenhuma delas é Elis inteira. Uma pessoa nunca cabe em uma única versão de si mesma.
Uma pessoa pode ser muitas coisas dependendo de quem olha. Pode ser mãe para um filho, amiga para alguém, parceira para outro, referência para uma geração inteira. E todas essas versões podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.
É isso que faz uma vida continuar depois da morte.
Não apenas aquilo que alguém realizou, mas aquilo que deixou em quem ficou.
Elis & Eu, documentário baseado nas memórias de João Marcello Bôscoli e dirigido por André Bushatsky, estreou em 25 de agosto, exclusivamente no UNIVERSAL+. A produção reúne imagens de arquivo, depoimentos e dramatizações para revisitar a trajetória de Elis Regina a partir dessas diferentes perspectivas.
Sobre a autora
Mayara Morelli é jornalista, publicitária e editora-chefe da Pitaya mag. Sua especialidade é moda e comportamento, mas a curiosidade costuma levá-la para outros lugares. Escreve sobre tudo aquilo que merece uma boa conversa. Ao longo da carreira, entrevistou artistas, escritores, estilistas e criadores de diferentes partes do mundo. Estudou moda na Università Bocconi, trabalhou com marcas do universo joalheiro no Brasil e em Dubai e atualmente aprofunda seus estudos em cultura e pensamento moderno e pós-moderno pela Wesleyan University. Fora da redação, divide a vida com quatro cachorros que ocupam muito mais espaço do que deveriam. E exatamente o espaço que merecem.
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