Cartas Pitaya

A sociedade ainda pune mulheres confortáveis em si mesmas

Por que uma mulher confiante parece incomodar mais do que uma mulher ferida? A partir dos ataques recentes a Ana Paula Renault, refletimos sobre misoginia, envelhecimento, desejo e a dificuldade que ainda existe em aceitar mulheres confortáveis com quem são.

Por que ainda incomoda tanto uma mulher confortável em si mesma?

Existe um tipo de mulher que parece mais fácil de acolher quando está sofrendo.

Quando ela está triste, decepcionada, destruída por alguém ou cansada da própria vida, quase sempre encontra compreensão (quase. Porque também é criticada, Taylor Swift que o diga). As pessoas compartilham frases sobre recomeço, elogiam sua força, dizem que ela merece mais.

O problema parece começar quando ela melhora.

Quando volta a gostar de si mesma, se arruma porque quer, se sente bonita, volta a desejar, ri mais alto e deixa de pedir desculpas pela própria presença.

Foi o que aconteceu recentemente com Ana Paula Renault.

Meses antes, Ana havia feito um ensaio para o Gshow. Apareceu bonita, sensual e segura de si. Uma mulher com mais de 40 anos ocupando o próprio corpo sem tentar parecer menos do que é.

Parte dos comentários não falou sobre o ensaio. Preferiu questionar se aquelas imagens tinham sido feitas com inteligência artificial.

“É IA.”

É uma reação que diz bastante por si só. Afinal, por que a primeira resposta diante de uma mulher bonita seria duvidar que aquela imagem pudesse ser real?

A questão não parecia ser a qualidade das fotos. Era a possibilidade de uma mulher daquela idade (que, na minha opinião, está no auge da idade – longe de ser velha) aparecer daquela maneira.

E os comentários vieram acompanhados de outras cobranças:

“Ela se acha.”

“Precisava disso tudo?”

“Tá muito convencida.”

A aparência, nesse caso, virou uma espécie de autorização para julgar todo o resto.

E o assunto voltou alguns meses depois, de outra maneira.

Ana publicou um vídeo falando sobre misoginia e recebeu, nos próprios comentários, ataques misóginos. Uma mulher estava falando sobre a forma como mulheres são julgadas e parte da resposta foi julgá-la justamente por ser mulher.

Se você gosta de acompanhar a trajetória da Ana, talvez goste dessa matéria também: Ana Paula Renault – O mundo finalmente parou para ouvi-la

É curioso como uma discussão sobre misoginia pode rapidamente virar uma avaliação sobre o corpo, a idade, a aparência ou o comportamento de quem está falando.

Bonita demais para ser real.
Confiante demais para ser espontânea.
Sensual demais para a idade.

A mulher pode até ocupar espaço. O que parece incomodar é quando ela não demonstra constrangimento por estar ocupando.

E isso não acontece apenas com Ana.

Madonna passou décadas enfrentando esse tipo de cobrança. Homens envelhecem mantendo desejo, ego, vaidade e presença e isso costuma ser interpretado como experiência. Para mulheres, continuar desejável depois de determinada idade ainda pode ser tratado como uma espécie de provocação.

Pamela Anderson também passou anos sendo vista quase exclusivamente pelo corpo. Quando começou a contar a própria história de outra maneira e a recuperar o controle sobre a própria imagem, esse movimento também virou assunto.

Megan Fox conhece bem essa contradição. Sua aparência sempre foi uma parte tão importante da maneira como o público a enxergou que, quando ela fala sobre ter sido objetificada, muitas vezes a própria aparência volta a ser usada para desqualificar o que está dizendo.

Com Taylor Swift, a questão aparece de outra forma.

Durante muito tempo, havia uma versão dela que parecia confortável para o público: a mulher que sofria, escrevia sobre os homens que a machucaram e transformava aquilo em música.

Hoje, ela ocupa um espaço de poder muito maior, financeiro, cultural e simbólico. E é interessante perceber como, junto com esse crescimento, também aumentou a irritação de parte do público em relação a ela.

Sabrina Carpenter enfrenta uma discussão parecida quando transforma feminilidade e sensualidade em parte consciente da própria imagem. Há quem enxergue liberdade nisso. Há quem enxergue vulgaridade. A diferença entre as duas leituras diz muito sobre quem está olhando.

São mulheres diferentes, com histórias completamente diferentes.

Mas existe um ponto de contato: nenhuma delas parece interessada em diminuir a própria presença para deixar os outros mais confortáveis.

E é aí que Ana Paula volta para essa conversa.

Ela fala sobre envelhecimento sem esconder que existem inseguranças. Ao mesmo tempo, não parece disposta a abrir mão daquilo que gosta em si mesma. Continua se sentindo bonita, desejável e viva.

Fala sobre relacionamentos, sexualidade, liberdade e sobre não precisar encaixar felicidade em um único modelo de amor.

Não parece interessada em representar uma versão mais comportada de si mesma só porque está envelhecendo.

Talvez seja isso que incomode.

Existe uma expectativa bastante silenciosa sobre como uma mulher deveria se comportar conforme envelhece. Ser mais discreta. Chamar menos atenção. Falar menos sobre desejo. Demonstrar menos vaidade.

E, principalmente, não parecer satisfeita demais consigo mesma.

Isso vale para mulheres bonitas, mas também para mulheres inteligentes, bem-sucedidas, independentes ou simplesmente muito seguras do que querem.

Confiança feminina ainda pode ser lida como arrogância.

Uma mulher que sabe que é boa no que faz precisa tomar cuidado para não parecer convencida. Uma mulher que recebe um elogio muitas vezes sente que precisa recusá-lo. Uma mulher que fala com firmeza aprende a colocar um “acho” antes da própria opinião. E muitas fazem piada de si mesmas antes que outra pessoa faça.

São pequenas adaptações que parecem banais, mas ensinam uma coisa desde cedo: não ocupe espaço demais.

Talvez por isso mulheres fragilizadas recebam tanto acolhimento.

Quando uma mulher está sofrendo, existe uma narrativa pronta. Ela está passando por uma fase. Está se reconstruindo. Vai ficar bem.

Quando ela está bem, segura e satisfeita com quem é, já não existe tanta disposição para acolhê-la.

É como se ela tivesse deixado de pedir alguma coisa.

A mulher que não se diminui precisa ser questionada. Sua roupa, seu corpo, sua idade, sua voz, seu jeito de falar, suas escolhas.

Alguma coisa precisa explicar por que ela se sente tão à vontade.

Talvez o problema nunca tenha sido a sensualidade feminina.

Talvez seja uma mulher que não sente vergonha dela.

Porque o mundo ainda sabe muito bem o que fazer com mulheres machucadas. Sabe oferecer conselhos, acolhimento e frases de efeito.

Já uma mulher inteira exige outra coisa de quem está olhando.

Ela não precisa estar sofrendo para ser interessante. Não precisa parecer insegura para ser querida. Não precisa esconder o desejo para ser respeitada.

E talvez seja justamente isso que ainda incomode tanto.

Mulheres inteiras ainda causam pânico.

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Mayara Morelli

Sobre a autora

Mayara Morelli

Mayara Morelli é jornalista, publicitária e editora-chefe da Pitaya mag. Sua especialidade é moda e comportamento, mas a curiosidade costuma levá-la para outros lugares. Escreve sobre tudo aquilo que merece uma boa conversa. Ao longo da carreira, entrevistou artistas, escritores, estilistas e criadores de diferentes partes do mundo. Estudou moda na Università Bocconi, trabalhou com marcas do universo joalheiro no Brasil e em Dubai e atualmente aprofunda seus estudos em cultura e pensamento moderno e pós-moderno pela Wesleyan University. Fora da redação, divide a vida com quatro cachorros que ocupam muito mais espaço do que deveriam. E exatamente o espaço que merecem.

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