Catarina Mina transforma a chuva do sertão em matéria de moda
Em Bonito pra Chover, Celina Hissa explora técnicas artesanais de diferentes regiões do Nordeste e traduz a relação entre a água e a caatinga em texturas, bordados e acessórios.
No sertão nordestino, a chuva transforma a paisagem. Essa relação entre água, terra e renovação orienta Bonito pra Chover, coleção que Celina Hissa apresentou pela Catarina Mina na São Paulo Fashion Week N61.
A inspiração aparece nos detalhes. Colares em formato de gota são envolvidos em macramê, bordados reproduzem o movimento da água e crochês sinuosos remetem ao percurso dos rios. As referências à vegetação que renasce depois da seca também se manifestam nas texturas e nos materiais utilizados nas peças.

A coleção amplia o repertório artesanal da marca com técnicas de diferentes localidades. A rede de travessa aparece em peças de listras coloridas, enquanto a renda tramoia, produzida pelas artesãs do coletivo Mães do Mar, em Acaraú, no Ceará, é incorporada a tops e sobressaias. A palha de agave, proveniente de Parnaíba, no Piauí, surge como ornamento em vestidos longos.
O crochê também ganha novas possibilidades com o uso de resíduos têxteis provenientes da Riachuelo. As peças produzidas com esse material marcam a introdução do upcycling nos processos da Catarina Mina, ao lado de técnicas que já fazem parte da trajetória da marca, como a renda de bilro e o bordado richelieu.
A variedade de trabalhos manuais não resulta em uma coleção visualmente pesada. Vestidos de alças finas, túnicas alongadas, calças balão, saias midi e robes amplos compõem uma proposta que alterna volumes e comprimentos. A transparência de determinados tecidos acrescenta leveza às peças, enquanto os bordados e as aplicações concentram a atenção nos detalhes.

Os looks de festa também ganham espaço, com vestidos longos de seda e flores aplicadas no busto, além de uma produção em jacquard de algodão azul-escuro. São criações que exploram o potencial ornamental das técnicas artesanais sem limitar o guarda-roupa a peças de ocasião.

A colaboração com artesãs de diferentes regiões é parte importante da construção da coleção. Cada técnica acrescenta uma textura e uma maneira particular de trabalhar os materiais, fazendo com que o conhecimento artesanal participe da estrutura das roupas, e não apenas de sua decoração.
Em Bonito pra Chover, Celina Hissa encontra na paisagem nordestina um ponto de partida para experimentar materiais, formas e técnicas. A coleção se constrói a partir dessas relações, transformando referências à água e à vegetação em uma linguagem própria de moda.
Sobre a autora
Mayara Morelli é jornalista, publicitária e editora-chefe da Pitaya mag. Sua especialidade é moda e comportamento, mas a curiosidade costuma levá-la para outros lugares. Escreve sobre tudo aquilo que merece uma boa conversa. Ao longo da carreira, entrevistou artistas, escritores, estilistas e criadores de diferentes partes do mundo. Estudou moda na Università Bocconi, trabalhou com marcas do universo joalheiro no Brasil e em Dubai e atualmente aprofunda seus estudos em cultura e pensamento moderno e pós-moderno pela Wesleyan University. Fora da redação, divide a vida com quatro cachorros que ocupam muito mais espaço do que deveriam. E exatamente o espaço que merecem.
Ver todos os textosSe este texto ficou com você...
Martins revisita a história da moda em desfile na SPFW
Marina Bitu explora as histórias do mar em coleção de verão 2027
Artemisi leva misticismo e experimentação tecnológica à SPFW
Gostou desta leitura?
Assine a newsletter da Pitaya e receba histórias como esta quinzenalmente.




