Cartas Pitaya

Por que certos filmes nos desmontam?

Tem uma cena em Lost in Translation em que Charlotte está deitada na cama do hotel olhando para o teto. Não acontece nada grandioso. Ninguém morre, ninguém corre atrás de ninguém no aeroporto, ninguém faz um discurso profundo sobre amor. Ainda assim, talvez seja uma das cenas mais honestas sobre solidão que o cinema já fez.

Acho que certos filmes nos desmontam porque conseguem dar forma a sentimentos que a gente nunca soube explicar.

Os filmes da Sofia Coppola fazem isso comigo. Existe uma tristeza muito particular no jeito como ela olha para as pessoas. A vida continua acontecendo, as coisas precisam ser feitas, as conversas seguem, mas alguma coisa parece ter ficado para trás. E você não sabe dizer exatamente quando isso aconteceu.

Em Lost in Translation, Charlotte anda por Tóquio cercada de luzes, vozes, carros e gente. Está em uma cidade que não para, mas parece não conseguir encontrar um lugar para si mesma. Tudo acontece ao redor dela, enquanto ela tenta entender o que está fazendo ali, naquele momento da vida.

Às vezes, penso que a vida adulta tem um pouco disso.

Você responde mensagens, vai ao mercado, marca consultas, paga contas, pergunta como foi o dia de alguém. Cumpre tudo o que precisa cumprir. Por fora, nada parece especialmente errado. Ainda assim, pode passar semanas sem conseguir entender o que está sentindo, muito menos encontrar tempo para fazer alguma coisa a respeito.

A solidão nem sempre vem acompanhada de tristeza. Às vezes, ela aparece quando você percebe que passou o dia inteiro falando com pessoas e não conseguiu conversar de verdade com nenhuma delas. Ou quando volta para casa e não tem vontade de chegar. Ou quando alguém pergunta se está tudo bem e você responde que sim antes mesmo de pensar na pergunta.

Sofia Coppola presta atenção nessas situações. Nos quartos de hotel, nas conversas que terminam sem resolver nada, nas festas em que ninguém parece estar exatamente onde gostaria. Nos momentos em que uma pessoa está cercada de coisas bonitas, conforto e possibilidades, mas não consegue se sentir parte da própria vida.

Em Encontros e Desencontros, a melancolia não precisa de grandes acontecimentos. Ela está na expressão de Charlotte, nas horas que passam, na intimidade que surge entre duas pessoas que mal se conhecem. Bob e Charlotte não precisam explicar tudo um ao outro. Existe algo de reconfortante em encontrar alguém que também parece não saber muito bem o que está fazendo ali.

Talvez muitas mulheres reconheçam esse sentimento porque aprenderam a continuar funcionando mesmo quando estão exaustas. A mulher que trabalha, cuida, responde, organiza, escuta e ainda se preocupa em não parecer ingrata por estar cansada. A que sente culpa por querer ficar sozinha. A que olha fotografias antigas e tenta lembrar em que momento deixou de fazer certas coisas, de procurar certas pessoas ou de desejar coisas que antes pareciam tão importantes.

Ela continua sendo engraçada, competente, presente. As pessoas continuam contando com ela. Por isso, nem sempre percebem quando alguma coisa mudou.

O que me interessa nos filmes da Sofia é que suas personagens não precisam chegar a uma conclusão para que a gente entenda o que estão vivendo. Elas podem passar boa parte da história sem saber o que querem, sem conseguir tomar uma decisão, sem encontrar as palavras certas. E a história não precisa puni-las por isso. Existe espaço para a confusão, para o tédio, para a vontade de ir embora sem saber para onde.

Quando descobri que Lost in Translation foi associado ao casamento de Sofia Coppola com Spike Jonze, passei a olhar para o filme de outra maneira. A diretora nunca confirmou publicamente que Charlotte fosse um retrato direto daquela relação, e seria simplificar demais a obra tratá-la como um relato autobiográfico. Ainda assim, é difícil não pensar em como as experiências pessoais podem atravessar uma história sem aparecer de maneira literal.

Charlotte não precisa representar Sofia para que exista algo íntimo naquele filme. Talvez a intimidade esteja justamente naquilo que não é explicado, nas emoções que permanecem ambíguas, na dificuldade de distinguir o que sentimos do que conseguimos contar aos outros.

Gosto de pensar que algumas obras chegam à nossa vida em momentos diferentes e, por isso, parecem mudar junto com a gente. Você pode assistir a Encontros e Desencontros aos vinte anos e se encantar com Tóquio, com a fotografia, com a relação entre os personagens. Anos depois, pode se reconhecer no rosto de Charlotte, na demora para responder, na sensação de estar vivendo uma fase que ainda não sabe como chamar.

O filme continua o mesmo. Você é que chega a ele com outras experiências.

E, de repente, aquela cena que antes parecia apenas bonita fica difícil de assistir. Não porque você esteja vivendo a mesma história, mas porque conhece a sensação de estar em algum lugar sem conseguir se sentir inteiramente presente.

Acho que é isso que me desmonta nesses filmes. Não a tristeza em si, mas o reconhecimento. A possibilidade de olhar para uma personagem e encontrar um sentimento que eu mesma vinha tentando ignorar, como se vê-lo em outra pessoa tornasse um pouco mais fácil admitir que ele existe.

Às vezes, a gente não precisa que um filme explique o que está acontecendo. Precisa apenas que ele mostre que aquela sensação também tem lugar no mundo.

E então os créditos sobem, a vida continua, as mensagens ainda precisam ser respondidas. Mas alguma coisa mudou. Você percebe que não estava inventando o que sentia, nem era a única pessoa a se sentir assim.

Talvez seja por isso que certos filmes continuem com a gente muito depois de terminar. Eles não resolvem o que estamos vivendo. Apenas encontram um jeito de nos fazer olhar para aquilo.

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Mayara Morelli

Sobre a autora

Mayara Morelli

Mayara Morelli é jornalista, publicitária e editora-chefe da Pitaya mag. Sua especialidade é moda e comportamento, mas a curiosidade costuma levá-la para outros lugares. Escreve sobre tudo aquilo que merece uma boa conversa. Ao longo da carreira, entrevistou artistas, escritores, estilistas e criadores de diferentes partes do mundo. Estudou moda na Università Bocconi, trabalhou com marcas do universo joalheiro no Brasil e em Dubai e atualmente aprofunda seus estudos em cultura e pensamento moderno e pós-moderno pela Wesleyan University. Fora da redação, divide a vida com quatro cachorros que ocupam muito mais espaço do que deveriam. E exatamente o espaço que merecem.

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