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Mugler leva suas criaturas ao limite entre natureza e artifício

Miguel Castro Freitas encerrou sua trilogia de “clichês glorificados” com uma coleção Mugler primavera-verão 2027 inspirada na natureza e na histórica Les Insectes, de 1997. Corseteria, volumes escultóricos, bordados, penas e superfícies inspiradas em criaturas retomam o imaginário da maison, enquanto a apresentação levanta uma questão sobre como traduzir esse espetáculo para o prêt-à-porter.

Na primeira fila do desfile de primavera-verão 2027 da Mugler, o artista performático Alexis Stone apareceu transformado em Manfred Thierry Mugler, o fundador da maison. A imagem trouxe o passado para dentro da apresentação antes mesmo que as roupas começassem a ser examinadas. No desfile de Miguel Castro Freitas, a transformação era parte do assunto: o que acontece quando a natureza é reinterpretada por meio da construção, do exagero e da fantasia?

A coleção encerrou a trilogia de “clichês glorificados” do designer, desta vez dedicada à natureza. A referência mais evidente foi Les Insectes, a histórica coleção de alta-costura apresentada por Thierry Mugler em 1997. Naquela temporada, corpos estruturados, superfícies iridescentes e volumes inspirados em carapaças transformaram os modelos em criaturas. Trinta anos depois, Castro Freitas retomou esse imaginário sem esconder o peso do arquivo.

A passarela foi ocupada por silhuetas de cintura marcada, estruturas rígidas e roupas que sugeriam asas, pétalas e cascos. Bordados de flores apareceram sobre couro trabalhado, enquanto penas coloridas e peles artificiais criaram superfícies que remetiam ao mundo animal. Um vestido com franjas exigiu dois meses de bordado; outro, preto, tinha uma saia volumosa preenchida por penas com estampa de guepardo. O trabalho artesanal era evidente, assim como a ambição de produzir imagens que dificilmente passariam despercebidas.

Castro Freitas não esconde a importância da silhueta ampulheta para a história da Mugler. Em entrevista à Vogue, explicou que abandonar a corseteria e a cintura marcada seria ignorar uma parte essencial do legado da casa. A questão está em transformar esse repertório, não em reproduzi-lo de maneira literal. Algumas peças sugeriram pássaros, borboletas ou flores sem definir completamente a criatura que pretendiam representar. A ambiguidade fazia parte do projeto.

Mugler leva suas criaturas ao limite entre natureza e artifício

Mugler leva suas criaturas ao limite entre natureza e artifício

Mugler leva suas criaturas ao limite entre natureza e artifício

Entre os looks mais exuberantes, surgiram peças de proporções mais reduzidas: jaquetas curtas com aparência de concha, calças estreitas e recortes que deixavam áreas do torso expostas. Esses conjuntos ofereciam uma leitura mais enxuta da mesma pesquisa de forma. A coleção alternava o espetáculo das roupas elaboradas com silhuetas em que a estrutura do corpo ganhava destaque.

A apresentação, porém, deixou uma pergunta importante. Quando uma coleção de prêt-à-porter exige tanto tempo de execução e produz roupas tão próximas da alta-costura, como essa linguagem pode chegar ao guarda-roupa de quem compra a marca? O desfile tinha a escala de um espetáculo, com peças que pareciam destinadas a uma imagem única. A própria crítica da Vogue apontou o desafio de traduzir essa intensidade para uma oferta comercial compreensível.

A Mugler sempre tratou o corpo como uma construção visual, e o trabalho de Castro Freitas mantém essa característica em primeiro plano. A roupa não serve apenas para vestir uma silhueta; ela a altera, amplia e transforma em personagem. A natureza aparece filtrada por materiais, técnicas e proporções artificiais.

A presença de Alexis Stone tornou essa relação ainda mais explícita. Ao surgir caracterizado como o fundador, o artista levou para a primeira fila a ideia de que uma identidade também pode ser construída por meio da aparência. O gesto foi provocativo e ajudou a concentrar a atenção na relação entre o criador, seu arquivo e a imagem que continua a circular depois de sua morte.

O risco de trabalhar com um legado tão reconhecível é permitir que a referência histórica fale mais alto do que a coleção atual. Em alguns momentos, a proximidade com Les Insectes é tão evidente que o passado parece dominar a leitura. Em outros, os volumes, as superfícies e os recortes mostram como Castro Freitas pode usar o arquivo como ponto de partida para uma pesquisa própria.

A primavera-verão 2027 confirma que a Mugler continua interessada na moda como espetáculo e transformação. O próximo desafio será fazer com que essa potência visual encontre uma tradução convincente para o prêt-à-porter, sem perder a estranheza que torna a maison reconhecível.

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Redação Pitaya

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