Niccolò Pasqualetti começa pela forma, não pela tendência
Inspirado pela artista brasileira Lygia Clark, Niccolò Pasqualetti desenvolveu uma coleção de primavera-verão 2027 baseada em geometria, assimetria e transformação. Popeline franzido, saias angulares, vestidos recortados e combinações de tecidos aproximam a moda da escultura, em uma pesquisa que explora como as roupas mudam de forma quando encontram o corpo.
Antes de se tornar uma camisa, uma saia ou um vestido, o tecido pode ser um plano. Um quadrado, um retângulo, uma superfície que ganha outra função quando encontra o corpo. Para a primavera-verão 2027, Niccolò Pasqualetti partiu dessa ideia e aproximou a construção de roupas de uma pesquisa escultórica.
O designer toscano tomou como referência o trabalho da artista brasileira Lygia Clark, cujas obras participativas convidavam o público a interagir com os objetos. Pasqualetti transportou essa noção para o vestuário: algumas peças só revelam plenamente sua forma quando são vestidas e colocadas em movimento.




A geometria aparece nos cortes e nas camadas. O popeline de algodão é franzido por cordões para criar volume; saias se abrem em planos angulares; vestidos de linhas retas recebem incisões que interrompem a superfície. Em outras peças, a combinação de materiais altera a leitura do conjunto: gaze encontra camurça, malha transparente aparece sob gabardine e seda recebe um acabamento laminado que lembra papel metálico amassado.
As roupas não seguem uma silhueta única. Algumas parecem construídas a partir de uma estrutura rígida, enquanto outras dependem do caimento e do movimento do tecido. A assimetria impede que as peças sejam lidas apenas de frente. Uma dobra muda de posição quando o corpo se move; uma camada revela outra; um corte desloca o equilíbrio da forma.
Essa pesquisa também se reflete na maneira como Pasqualetti trabalha o gênero. A roupa não precisa reproduzir divisões convencionais entre guarda-roupas masculino e feminino. O interesse está na relação entre corpo, material e construção, com peças que preservam uma sensualidade discreta mesmo quando apresentam volumes pouco familiares.
Nem todas as experiências têm o mesmo resultado. Algumas formas mais infladas parecem competir com o corpo, em vez de ganhar sentido por meio dele. Os momentos mais fortes surgem quando a geometria encontra tecidos leves e o desenho deixa espaço para o movimento. A coleção não precisa abandonar a experimentação, mas mostra como uma ideia conceitual pode ganhar clareza quando a construção é precisa.
O interesse por forma também ultrapassa as roupas. Pasqualetti lançou recentemente Andara, uma linha de fragrâncias inspirada em cristais, ampliando um universo criativo que vem sendo desenvolvido por meio de diferentes materiais e sentidos. A iniciativa reforça a atenção do designer às relações entre percepção, objeto e identidade, embora o desfile encontre sua força sobretudo na investigação do vestuário.
Em uma temporada marcada por grandes maisons e narrativas de arquivo, a apresentação de Pasqualetti oferece outro ritmo. Não depende de uma celebridade na primeira fila ou de uma referência histórica facilmente reconhecível. O ponto de partida está na estrutura da roupa e na maneira como ela se transforma quando usada.
A coleção de primavera-verão 2027 faz da modelagem uma forma de pensamento. Em vez de começar pela pergunta sobre qual tendência vai definir a estação, Pasqualetti pergunta o que um tecido pode se tornar. Algumas respostas são mais convincentes do que outras, mas a pesquisa permanece aberta, e é justamente essa abertura que dá personalidade ao trabalho.
Sobre a autora
Quando um texto aparece com esta assinatura, significa que ele foi construído por nossa equipe editorial. Estamos sempre em busca de histórias, ideias e conversas que merecem ser contadas, da cultura ao comportamento, da beleza ao bem-estar, passando por tudo aquilo que nos conecta como pessoas. Porque algumas histórias têm uma autores. Outras, são um pouco de todos nós.
Ver todos os textosSe este texto ficou com você...
Louis Vuitton coloca o movimento no centro da ideia de futuro
Hermès encontra leveza sem abrir mão do couro
Vivienne Westwood coloca as costas da roupa em primeiro plano
Gostou desta leitura?
Assine a newsletter da Pitaya e receba histórias como esta quinzenalmente.




