Hermès encontra leveza sem abrir mão do couro
Na primavera-verão 2027, Nadège Vanhée parte da ideia de ar para explorar leveza, movimento e transformação na Hermès. Couro fino, malhas abertas, tecidos transparentes e zíperes que modificam as silhuetas mostram como a diretora criativa revisita materiais e códigos tradicionais da maison. O resultado combina precisão artesanal com roupas adaptáveis e novas possibilidades de uso.
O calor em Paris ajudou a dar uma dimensão física à coleção de primavera-verão 2027 da Hermès. O desfile aconteceu em uma estrutura montada no espaço da Garde Républicaine. Enquanto aguardavam o início da apresentação, alguns convidados usaram seus programas de papel como leques. Nadège Vanhée havia escolhido o ar como ponto de partida para a coleção.
A coincidência foi curiosa, mas a ideia vinha de antes. Em entrevista à Vogue, a diretora criativa explicou que já trabalhava no conceito antes das ondas de calor que atingiram a França. Seu interesse estava na natureza do ar: algo que não podemos ver, mas cuja presença percebemos pelo movimento e pelo contato com o corpo.
Na passarela, essa investigação aparece em escolhas concretas. Vestidos transparentes são usados sobre tops tipo bandeau, malhas abertas deixam espaços entre os fios e tiras finas de couro são aplicadas sobre seda e tecidos leves. As roupas preservam a presença dos materiais, mas criam novas relações entre a pele, a superfície e o movimento.



O couro, elemento central da história da Hermès, recebe atenção especial. Vanhée explora versões mais finas do material e construções que deixam partes do corpo à mostra. Um vestido de malha recebe tiras verticais de couro; uma bolsa bucket apresenta desenhos vazados; jaquetas aparecem em versões leves, enquanto uma parka de seda pongee oferece outra leitura de uma peça normalmente associada à proteção.
A proposta também está na maneira como as roupas podem ser modificadas. Zíperes permitem alterar o comprimento de alguns vestidos e a abertura das calças. Uma parka pode ser separada na cintura por uma sequência de botões de pressão. As peças mudam de proporção conforme são usadas, sem depender de elementos externos à sua construção.
Essa modularidade tem uma função estética e prática. Uma abertura lateral muda o desenho de uma saia; um zíper altera a largura da perna; uma peça mais fechada pode ganhar movimento quando é aberta. As roupas não ficam presas a uma única silhueta, e o styling passa a fazer parte da experiência de vesti-las.



Os acessórios acompanham a proposta sem competir com ela. Cintos aparecem em larguras e formatos variados, alguns marcando a cintura como corsets, outros envolvendo os pulsos como braceletes. Lenços de seda são incorporados a tops estreitos e a peças com referências a uniformes de aviação. As bolsas permanecem presentes, mas dividem a atenção com a construção das roupas.
A paleta começa em branco, creme, marrom e preto. Ao longo do desfile, entram o laranja característico da Hermès, amarelo intenso, vermelho, verde-oliva e tons de ardósia. As cores ampliam a energia da coleção sem alterar sua preocupação central com materiais, aberturas e movimento.
Há continuidade no trabalho de Vanhée, à frente da linha feminina da Hermès desde 2014. A diretora criativa conhece os códigos da casa, mas não depende apenas de sua associação com o couro ou com o luxo artesanal. Nesta temporada, explora o que acontece quando esses materiais são trabalhados com menos peso e quando a roupa ganha mais possibilidades de transformação.
A coleção também convida a pensar sobre as condições em que nos vestimos. Com verões cada vez mais difíceis em diversas regiões do mundo, ventilação, tecidos leves e peças adaptáveis se tornaram questões práticas para quem cria roupas. Isso não significa que a apresentação tenha sido concebida como uma coleção sobre mudanças climáticas. Vanhée partiu de uma investigação sobre o ar, e a relevância do tema aparece na maneira como ele foi traduzido em design.
O interesse está justamente na execução. O couro não desaparece para dar lugar à leveza; ele é trabalhado de outra maneira. A transparência não surge apenas como efeito visual; permite explorar a relação entre corpo e tecido. Zíperes e aberturas não são detalhes decorativos: alteram a forma e a experiência de uso das peças.
Na primavera-verão 2027, a Hermès mantém sua atenção à matéria e à construção, mas deixa mais espaço para o ar circular entre elas. É uma coleção em que a leveza não depende de abandonar os códigos da maison. Depende de descobrir novas possibilidades dentro deles.
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