Elie Saab ainda acredita no poder de se vestir para uma ocasião
Inspirado na atriz Jean Harlow e no glamour de Hollywood dos anos 1930, Elie Saab apresentou uma primavera-verão 2027 com bustiers, lingerie aparente, vestidos de seda, renda, transparências e bordados florais. A coleção aproxima a estética boudoir da assinatura da maison e reafirma a importância da roupa de ocasião em seu universo criativo.
Jean Harlow, estrela de Hollywood nos anos 1930, foi uma das referências de Elie Saab para a primavera-verão 2027. A atriz ficou conhecida por uma imagem de sensualidade polida, cabelos platinados e vestidos que acompanhavam o corpo.

Na coleção apresentada em Paris, essa referência apareceu em bustiers, alças caídas, tecidos leves e lingerie incorporada à roupa.
A abertura já indicava o caminho. Os primeiros looks trabalharam bralettes, bustiers e pequenos franzidos na região do abdômen. Depois vieram vestidos de seda cortados no viés, rendas, bordados e fendas altas. Em alguns modelos, a lingerie ficava visível sob a transparência; em outros, aparecia como parte da construção do vestido.




Saab conhece bem esse território. Ao longo de sua carreira, construiu uma assinatura baseada em bordados minuciosos, tecidos fluidos e silhuetas que acompanham o corpo. Nesta temporada, ele aproxima essa linguagem da estética boudoir, com uma sensualidade que remete ao cinema clássico sem reproduzir literalmente os figurinos da época.
As flores também tiveram presença importante. Pequenos botões naturais foram colocados nos rostos das modelos, descritos nos bastidores como floral piercings. Na passarela, flores bordadas surgiram em aplicações tridimensionais, enquanto tons suaves de rosa, amarelo, azul e areia deram leveza aos vestidos. Um animal print rosado introduziu uma referência aos anos 1990.


A lingerie como roupa exterior já foi explorada por diferentes gerações de designers. O interesse na coleção de Saab está em como ele incorpora essa referência à própria linguagem da maison. A transparência não aparece como provocação isolada, e os vestidos não dependem apenas da exposição do corpo. Renda, seda, alças, pequenos laços e bordados trabalham juntos para criar uma sensualidade cuidadosamente construída.
Há também uma diferença entre as peças mais elaboradas e aquelas de aparência mais simples. Um trench coat e algumas silhuetas enxutas interrompem a sequência de vestidos ornamentados. Esses momentos ajudam a dar ritmo à coleção e mostram que o repertório de Saab não se limita à roupa de gala.


Ainda assim, a roupa de ocasião permanece no centro de sua proposta.
Em um momento em que a moda dedica bastante atenção à versatilidade e às peças que transitam entre diferentes contextos, Saab trabalha com outra expectativa. Algumas roupas são feitas para uma festa, um casamento, uma cerimônia ou uma noite específica. Seu valor também está na experiência que proporcionam a quem as veste.
Essa ideia ajuda a entender a permanência da maison no tapete vermelho. Os vestidos de Saab são reconhecíveis pelo cuidado com a construção e pela maneira como o bordado acompanha o movimento do corpo. A coleção de primavera-verão mantém esses códigos, mas introduz uma referência histórica que dá mais contexto à sensualidade apresentada.



A temporada também coincide com um momento importante para a marca. Em setembro, Elie Saab lançou sua primeira colaboração com a H&M, aproximando sua estética de um público maior. A parceria levou às lojas elementos associados à maison, como vestidos de festa, bordados e referências ao glamour.
A coleção apresentada em Paris seguiu outra escala, mas reafirmou a mesma identidade. A colaboração amplia o alcance comercial; a passarela permite desenvolver com mais profundidade a construção das roupas e a relação entre os materiais.
É importante que a leitura de Elie Saab não fique restrita à ideia de que ele produz vestidos bonitos para ocasiões especiais. A ornamentação é parte de seu trabalho, mas também há pesquisa de proporção, escolha de tecidos e construção de silhueta. Nesta coleção, a combinação entre lingerie, seda e renda mostra como esses elementos podem mudar a percepção de uma peça sem abandonar o glamour que caracteriza a maison.
A referência a Jean Harlow faz sentido justamente por isso. Saab não recupera apenas uma imagem antiga de feminilidade; ele utiliza uma linguagem visual reconhecível para construir roupas destinadas ao presente.
O resultado é uma coleção que conhece seu público e não tenta disfarçar suas intenções. Há vestidos para quem quer chamar atenção, peças leves para ocasiões menos formais e construções que alternam transparência e cobertura.
Elie Saab continua apostando na roupa como parte de uma ocasião que merece ser lembrada. Nesta temporada, faz isso aproximando o glamour de Hollywood da intimidade da lingerie, sem perder de vista o trabalho de construção que sustenta sua assinatura.
Sobre a autora
Mayara Morelli é jornalista, publicitária e editora-chefe da Pitaya mag. Sua especialidade é moda e comportamento, mas a curiosidade costuma levá-la para outros lugares. Escreve sobre tudo aquilo que merece uma boa conversa. Ao longo da carreira, entrevistou artistas, escritores, estilistas e criadores de diferentes partes do mundo. Estudou moda na Università Bocconi, trabalhou com marcas do universo joalheiro no Brasil e em Dubai e atualmente aprofunda seus estudos em cultura e pensamento moderno e pós-moderno pela Wesleyan University. Fora da redação, divide a vida com quatro cachorros que ocupam muito mais espaço do que deveriam. E exatamente o espaço que merecem.
Ver todos os textosSe este texto ficou com você...
Louis Vuitton coloca o movimento no centro da ideia de futuro
Hermès encontra leveza sem abrir mão do couro
Vivienne Westwood coloca as costas da roupa em primeiro plano
Gostou desta leitura?
Assine a newsletter da Pitaya e receba histórias como esta quinzenalmente.




