O que Jack e Lazaro estão fazendo com a nova Loewe
Na terceira coleção de Jack McCollough e Lazaro Hernandez para a Loewe, o sportswear americano encontra o artesanato espanhol da maison. Com menos excesso e mais atenção ao guarda-roupa, a dupla começa a deixar mais claro o que pretende fazer com uma das casas mais importantes da moda.
Existe uma pergunta que acompanha qualquer dupla que assume uma maison com uma identidade tão definida quanto a Loewe: quanto de si é possível colocar dentro da casa sem apagar aquilo que já estava ali?
Jack McCollough e Lazaro Hernandez parecem ter encontrado uma resposta na própria formação.
Os dois passaram anos construindo a Proenza Schouler em Nova York, trabalhando com uma ideia de moda urbana que mistura alfaiataria, sportswear e uma certa inquietação americana. Na Loewe, esse repertório encontrou outra matéria: o artesanato espanhol, o couro, a tradição da casa e uma história de quase dois séculos.
Na primavera-verão 2027, essa mistura começa a ficar mais nítida.




Menos espetáculo, mais roupa
As primeiras coleções da dupla para a Loewe tinham uma dose alta de experimentação. Havia peças infláveis, sobreposições complexas, volumes inesperados e uma quantidade enorme de informação em cada look.
Agora, as coisas estão mais concentradas.
Entram polos de tricô, blazers xadrez, minissaias, calças cargo de seda amassada, shorts, jaquetas de couro e camisas. O repertório é familiar, mas quase nenhuma peça permanece completamente previsível.
Um blazer pode ganhar uma proporção estranha. Uma saia aparece com uma abertura inesperada. Uma peça esportiva recebe uma construção sofisticada.
É uma Loewe que quer ser vestida.
A crítica de Cathy Horyn, na The Cut, chamou atenção justamente para essa mudança em direção a roupas mais reais, enquanto a W Magazine observou que a dupla reduziu a teatralidade visual das temporadas anteriores para concentrar a coleção no sportswear americano filtrado pelo artesanato da casa.
A América chega a Madri
O mais interessante é que McCollough e Hernandez não tentam esconder de onde vêm.
Há uma familiaridade americana em boa parte da coleção. Polos, jaquetas, jeans, peças utilitárias e referências esportivas aparecem com força. Algumas imagens lembram o estilo dos anos 1990, especialmente aquela mistura entre roupa universitária, peças de couro e uma elegância casual que parecia espontânea.
Mas a Loewe muda a maneira como essas roupas são construídas.
O couro recebe texturas. O suede aparece em camisas e sobreposições. Tecidos têm acabamentos que tornam uma peça cotidiana menos óbvia.
A dupla está começando a entender que não precisa escolher entre ser americana e ser Loewe.
Pode fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
O artesanato continua sendo o centro
Esse ponto é importante porque uma mudança de direção em uma maison histórica costuma ser acompanhada pela pergunta sobre o que será preservado.
Na Loewe, o artesanato não desapareceu.
Ele mudou de lugar.
Em vez de concentrar toda a atenção em uma peça excepcional, aparece na construção de roupas que poderiam fazer parte de um guarda-roupa. O trabalho manual passa a sustentar a peça, e não necessariamente a transformá-la em objeto de espetáculo.
Essa escolha faz sentido para uma casa cuja história está profundamente ligada ao couro e ao trabalho artesanal.
Também ajuda a diferenciar a nova Loewe de uma simples continuação do período anterior.
Uma nova ideia de desejo
A Loewe de Jonathan Anderson construiu grande parte de seu impacto na capacidade de tornar uma coisa estranha desejável.
McCollough e Hernandez estão seguindo por outro caminho.
Eles parecem interessados em descobrir como uma roupa pode ser desejável justamente porque conseguimos imaginar nossa própria vida dentro dela.
É uma mudança discreta, mas importante.
O desejo deixa de depender apenas da surpresa.
Passa a depender também da vontade de usar.
A nova Loewe ainda está começando
Seria cedo para dizer que a identidade da dupla está completamente definida.
Mas a terceira coleção oferece uma pista mais concreta do caminho.
A Loewe continua excêntrica, colorida e tecnicamente sofisticada. Só que agora existe uma preocupação maior com o guarda-roupa.
Jack McCollough e Lazaro Hernandez não estão tentando construir uma nova Loewe do zero.
Estão descobrindo o que acontece quando sua própria ideia de roupa encontra uma maison que já sabe, há muito tempo, como transformar matéria em desejo.
E talvez seja justamente nessa mistura que a nova Loewe comece a encontrar seu sotaque.
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