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Chloé: quando o arquivo ajuda a construir uma identidade feminina

Para a primavera-verão 2027, Chemena Kamali volta ao arquivo da Chloé para investigar aquilo que tornou a maison tão ligada à feminilidade. Lingerie, broderie anglaise, alfaiataria e referências dos anos 1960 e 1970 aparecem ao lado de peças utilitárias, criando uma coleção em que memória e presente convivem.

Chemena Kamali não precisou procurar muito para encontrar o ponto de partida da primavera-verão 2027 da Chloé.

Ele estava dentro da própria maison.

Para a coleção Obsession, a designer voltou aos arquivos e reuniu algumas das imagens que mais marcaram sua relação com a Chloé: broderie anglaise, flores tridimensionais, lingerie, alfaiataria feminina e os casacos amplos associados à história da marca.

A diferença está na maneira como ela reorganiza essas referências.

Em vez de reconstruir uma Chloé de outra época, Kamali usa o arquivo para entender o que ainda faz sentido para a mulher da casa hoje.

 

O arquivo como memória

Chloé: quando o arquivo ajuda a construir uma identidade feminina

Chloé: quando o arquivo ajuda a construir uma identidade feminina

A Chloé foi fundada por Gaby Aghion em Paris, em 1952, e teve papel importante na consolidação do prêt-à-porter de luxo. A ideia de roupas de designer produzidas prontas para vestir ajudou a aproximar o luxo de uma vida menos formal do que aquela associada à alta-costura.

Essa história explica uma das tensões mais interessantes da coleção.

Kamali trabalha com materiais e técnicas delicadas, mas quer que eles continuem parecendo roupas.

A broderie anglaise aparece em algodão e organza. Bordados florais em três dimensões recuperam referências dos anos 1960. Vestidos ganham mangas volumosas, babados e franjas.

Ao mesmo tempo, entram casacos de pescador, capas e peças inspiradas em roupas de chuva.

O contraste impede que o romantismo fique preso à ideia de delicadeza.

 

A mulher Chloé não é uma fotografia do passado

Chloé: quando o arquivo ajuda a construir uma identidade feminina

Kamali conhece bem essa história.

Antes mesmo de assumir a direção da maison, ela já falava de sua ligação com a Chloé e de sua admiração por Karl Lagerfeld e Phoebe Philo. Sua própria formação dentro da marca faz parte dessa relação com o arquivo.

Na coleção atual, essa memória aparece sem precisar ser explicada o tempo inteiro.

O smoking Noël de 1972, por exemplo, volta como referência para a alfaiataria. A peça fazia parte da tradição da Chloé de adaptar códigos do guarda-roupa masculino para mulheres. Kamali também recupera a calça de cintura alta e boca ampla, outro elemento recorrente da casa.

Mas o arquivo não determina a coleção.

Ele fornece uma espécie de vocabulário.

 

Lingerie como desenho

Chloé: quando o arquivo ajuda a construir uma identidade feminina

É na lingerie que Kamali encontra uma das soluções mais interessantes da temporada.

Em vez de simplesmente colocar renda sobre o corpo, ela recorta as peças até que sobrem estruturas semelhantes a pequenos harnesses românticos.

O efeito é mais contemporâneo justamente porque reduz a quantidade de informação.

Entre vestidos, saias e peças de alfaiataria, essas estruturas aparecem como linhas sobre o corpo. A lingerie deixa de funcionar apenas como roupa íntima e passa a participar da construção da silhueta.

É uma maneira inteligente de atualizar um dos códigos mais conhecidos da Chloé sem precisar abandonar a feminilidade que sempre fez parte da maison.

 

Romance precisa de contraste

Chloé: quando o arquivo ajuda a construir uma identidade feminina

Os casacos de pescador cumprem outra função.

Eles aparecem grandes, em cores mais fortes, acompanhados por chapéus de abas largas. Sobre algumas silhuetas, Kamali coloca vinil transparente em tons esfumaçados, criando uma camada quase gráfica sobre os tecidos leves.

A coleção fica mais interessante quando esses elementos pesados encontram os vestidos românticos.

Uma roupa delicada pode receber a proteção de um casaco que parece feito para enfrentar chuva. Uma peça de lingerie aparece sob alfaiataria. O bordado artesanal convive com materiais plásticos.

A mulher Chloé não precisa escolher entre delicadeza e força.

Ela pode carregar as duas coisas.

 

O arquivo continua vivo

Existe uma diferença importante entre uma maison que consulta seu arquivo e uma que vive dele.

A primeira usa o passado para ampliar suas possibilidades. A segunda corre o risco de repetir uma imagem conhecida até que ela perca significado.

Kamali está tentando fazer a primeira coisa.

Sua Chloé reconhece Gaby Aghion, os anos 1960, os anos 1970, Lagerfeld, a tradição da alfaiataria feminina e a história da lingerie. Mas essas referências aparecem reorganizadas para uma mulher que não precisa se vestir como nenhuma delas.

É aí que o arquivo deixa de ser nostalgia.

Ele passa a ser matéria-prima.

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Redação Pitaya

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