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Balenciaga: o que Pierpaolo Piccioli faz com uma maison depois de uma mudança radical de direção

Na sexta coleção de Pierpaolo Piccioli para a Balenciaga, a alta-costura encontra peças do cotidiano. Jeans, camisetas, camisas e alfaiataria recebem técnicas de construção associadas à couture, enquanto a maison começa a ganhar uma nova identidade depois de uma mudança profunda de direção criativa.

Quando Pierpaolo Piccioli chegou à Balenciaga, recebeu uma das tarefas mais delicadas da moda atual: assumir uma maison cuja imagem havia sido profundamente transformada pelo diretor anterior e descobrir o que fazer depois dela

Cristóbal Balenciaga deixou uma herança ligada à construção, à técnica e à alta-costura. Demna levou a casa para outro território, aproximando-a da cultura de rua, da ironia, da proporção exagerada e de uma moda que comentava o próprio tempo.

Piccioli não tenta escolher um dos dois caminhos.

Na primavera-verão 2027, sua sexta coleção para a Balenciaga, ele começa a deixar mais claro o que pretende fazer com esse legado: levar a couture para dentro da roupa que existe fora da passarela.

A couture vai para o cotidiano

A coleção recebeu o nome de Les Coraux de la Liberté, referência à escultura de coral criada pela artista francesa Aude Franjou, instalada no centro do espaço do desfile.

Mas a ideia de liberdade também aparece na maneira como Piccioli trata a própria história da Balenciaga.

O designer partiu de peças comuns: uma camisa branca, uma camiseta, jeans, uma camisa masculina. Em vez de transformá-las em objetos extravagantes, aplicou nelas técnicas associadas à alta-costura.

A primeira camisa da coleção, por exemplo, ganha uma construção peplum criada por fileiras de costura. Uma camiseta recebe o mesmo tipo de tratamento. O jeans é cortado no viés, uma escolha que Piccioli destacou como novidade para a casa.

É uma mudança importante de perspectiva.

A couture deixa de ser apenas uma categoria de roupa apresentada em outro momento do calendário e passa a funcionar como uma maneira de construir qualquer peça.

O que fica depois de Demna

A Balenciaga de Demna tinha uma identidade visual tão reconhecível que seria difícil para qualquer sucessor simplesmente ignorá-la.

Piccioli está fazendo o contrário: está deixando essa imagem perder espaço aos poucos.

O preto continua. A alfaiataria continua. Há volume, couro, jeans e peças de impacto. Mas a coleção abandona boa parte da atmosfera pesada que marcou os últimos anos da maison.

O espaço do desfile era branco e iluminado. Os sapatos ficaram mais leves, com sandálias rasteiras e modelos que lembram slippers. As bolsas aparecem macias e sem depender de logos. Calças amplas, jeans rasgados, vestidos fluidos e cores como laranja, rosa e azul entram em cena.

A mudança não está apenas na aparência. Existe outra relação com o corpo.

Piccioli fala em leveza, suavidade, conforto e usabilidade. São palavras que podem parecer simples em uma coleção de luxo, mas ganham outro peso quando aplicadas a uma casa acostumada a construir imagens tão fortes.

Uma Balenciaga que ainda está descobrindo seu lugar

Talvez o ponto mais interessante seja que Piccioli ainda não tenta fazer sua Balenciaga parecer completamente resolvida.

Ele está testando os limites entre o arquivo de Cristóbal, a história recente da maison e aquilo que trouxe de sua própria experiência.

O corte no viés dos jeans é um bom exemplo. Não pertence à linguagem de Cristóbal nem à de Demna. É uma solução de Piccioli.

O mesmo vale para a forma como ele trata a couture. Sua experiência anterior com alta-costura aparece, mas não como uma repetição do trabalho que fez na Valentino. Ela entra como técnica: no corte, na construção, na costura, na maneira como uma peça simples pode ganhar outra estrutura.

Essa é a diferença entre reproduzir uma herança e trabalhar a partir dela.

O coral como símbolo

A escultura de Aude Franjou ajuda a amarrar a coleção.

Piccioli contou à Vogue que usa diariamente um colar de coral e escolheu a imagem do organismo marinho como símbolo de proteção tanto do ecossistema natural quanto do ecossistema humano da moda.

É uma ideia que combina com o momento da Balenciaga.

Uma maison também é um ecossistema. Tem arquivos, códigos, pessoas, técnicas, expectativas e uma imagem construída ao longo de décadas. Quando um diretor muda, nada disso desaparece de uma temporada para outra.

Piccioli parece interessado justamente nesse processo.

Sua Balenciaga não apaga Cristóbal e não precisa continuar reproduzindo Demna. Ela começa a encontrar espaço entre os dois.

E, pela primeira vez desde sua chegada, esse espaço já começa a parecer uma direção.

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Redação Pitaya

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