Tom Ford depois de Tom Ford: Haider Ackermann encontra outra forma de sedução
Em sua quarta coleção para a maison, Haider Ackermann preserva a sensualidade que define Tom Ford, mas troca parte do espetáculo por uma imagem mais íntima
A mulher de Tom Ford continua olhando para o espelho. A diferença é que, nesta temporada, ela parece menos interessada em saber como será vista pelos outros.
Para a primavera-verão 2027, Haider Ackermann colocou espelhos na passarela e pediu às modelos que parassem diante deles. A ação acompanhava a ideia central da coleção: olhar para si mesma antes de esperar o olhar de quem está do outro lado.
É uma escolha interessante para uma marca construída durante décadas em torno do desejo, do corpo e da sedução. Tom Ford transformou esses elementos em uma assinatura reconhecível. Ackermann, em sua quarta coleção à frente da casa, começa a mexer nessa fórmula sem abandoná-la.
A sensualidade continua
Há pele à mostra, recortes, maiôs, vestidos de noite, couro, transparências e peças de alfaiataria que deixam o corpo participar da construção do look. A coleção também recupera elementos associados ao universo Tom Ford, como a mistura entre roupa masculina e códigos de lingerie.



Mas Ackermann não parece interessado em reproduzir o excesso pelo excesso.
A sensualidade aparece em uma silhueta, em uma abertura, na maneira como um blazer deixa o corpo parcialmente descoberto. Os vestidos têm recortes precisos e tecidos fluidos. As peças de alfaiataria continuam importantes, mas são colocadas em tensão com elementos mais íntimos.
A coleção mantém o vocabulário da casa e muda a maneira de pronunciá-lo.
Depois do criador
Existe uma questão maior por trás dessa coleção: o que significa dirigir uma marca cuja identidade foi construída por uma figura tão dominante?
Tom Ford não foi apenas o fundador da etiqueta que leva seu nome. Sua imagem, sua estética e sua maneira de entender o luxo estavam completamente associadas ao produto. Quando outra pessoa assume a direção criativa, existe sempre o risco de transformar a marca em uma caricatura de seu próprio passado.
Ackermann parece escolher outro caminho.
Em vez de tentar competir com o espetáculo criado por Ford, ele trabalha com aquilo que pode permanecer depois dele: a sensualidade, a alfaiataria, a noite, o contraste entre masculino e feminino e a relação direta entre roupa e corpo.
A diferença está na intensidade.
A coleção de primavera-verão 2027 tem momentos bastante provocativos, mas existe um controle maior na maneira como eles são apresentados. A sedução não desaparece. Ela deixa de depender apenas do impacto visual.

O corpo como escolha
Os espelhos ajudam a entender essa mudança.
Em um universo de moda que costuma colocar o corpo feminino sob observação constante, fazer com que a modelo interrompa o percurso para olhar para si cria uma pequena inversão. O corpo deixa de ser apenas aquilo que será visto e passa a ser também quem olha.
Ackermann descreveu a proposta como uma investigação sobre liberdade e sensualidade. As roupas seguem essa ideia sem precisar explicá-la o tempo todo.
É aí que sua passagem pela Tom Ford começa a ficar mais interessante.
Haider Ackermann não está tentando fazer uma versão de Tom Ford com seu próprio nome. Está descobrindo quanto de sua própria linguagem cabe dentro de uma marca que já chega à passarela com uma história muito definida.
A resposta ainda está sendo construída. Mas, depois de quatro coleções, já é possível perceber que o futuro da Tom Ford sob Ackermann não depende de abandonar a sensualidade. Depende de encontrar novas maneiras de usá-la.



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