Stella McCartney leva 25 anos de moda sem couro para o oceano em Paris
Em uma coleção marcada pela vida marinha, pela crise dos oceanos e por novas matérias-primas, a estilista britânica transforma seu aniversário de 25 anos em mais um capítulo de uma história que começou muito antes da sustentabilidade virar argumento de mercado
Vinte e cinco anos depois de criar sua própria maison, Stella McCartney continua colocando a mesma questão no centro da moda: o que pode mudar na maneira como fazemos uma roupa?
Quando Stella McCartney apresentou sua primeira coleção em Paris, em outubro de 2001, a decisão de não usar couro, penas, peles ou peles exóticas em suas criações ainda estava longe de ser uma exigência recorrente da indústria. Vinte e cinco anos depois, a estilista voltou à capital francesa para marcar o aniversário de sua maison com uma coleção que levou essa discussão para debaixo d’água.



No jardim da residência do embaixador britânico em Paris, a passarela ganhou tons de azul, coral e verde-mar. Tubarões, golfinhos e orcas apareceram em estampas; formas onduladas surgiram nas roupas; bolsas transparentes carregavam estrelas-do-mar. A trilha sonora incluía “Down by the Water”, de PJ Harvey. Antes que a primeira modelo entrasse, a voz de David Attenborough alertava para o que acontece abaixo da superfície dos oceanos.
Não era apenas uma coleção inspirada no mar.
Era uma coleção sobre o que estamos fazendo com ele.
“Sea life, not seafood”
A provocação central de Stella McCartney para a temporada é simples na forma e desconfortável na pergunta: “sea life or seafood?”
A expressão resume uma contradição que a estilista quis colocar diante do público. Admiramos baleias, golfinhos e documentários sobre a vida marinha, mas aceitamos uma indústria pesqueira que, segundo McCartney, provoca danos extensos aos ecossistemas oceânicos.
Depois do desfile, a designer criticou os impactos da pesca industrial e defendeu uma mudança na maneira como enxergamos os animais marinhos. A questão ambiental, portanto, não ficou restrita à estética da coleção. Tornou-se parte da mensagem que a acompanhou.
A escolha do cenário reforçou a ideia. O desfile aconteceu ao ar livre, nos jardins da residência do embaixador britânico, sob uma chuva que acabou fazendo parte da experiência. No lugar de um oceano literal, Stella construiu sua versão dele por meio de tecidos fluidos, barras em formato de ondas, volumes arredondados, transparências e uma paleta que passeou pelos tons encontrados na vida marinha.
Mas havia algo ainda mais importante acontecendo por baixo da imagem.



Vinte e cinco anos sem couro
O oceano pode ser o tema desta coleção, mas a preocupação com o impacto da moda acompanha Stella McCartney desde o início da maison.
Desde a criação da marca, em 2001, a estilista mantém a decisão de não utilizar couro, penas ou peles em suas coleções. Na época, trabalhar dentro do luxo sem recorrer ao couro animal significava abrir mão de uma das matérias-primas mais tradicionais do setor. A própria Fédération de la Haute Couture et de la Mode descreve a maison como pioneira no desenvolvimento de alternativas de origem não animal.
Ao longo dos anos, essa posição deixou de significar apenas substituir um material por outro. A marca passou a investir em pesquisa para encontrar alternativas capazes de reproduzir características desejadas pela moda sem simplesmente transferir o problema para outra cadeia produtiva.
Foi assim que apareceram materiais feitos a partir de subprodutos da indústria do vinho, alternativas baseadas em cogumelos e outras tecnologias de origem vegetal ou biotecnológica.
Em uma coleção apresentada em Paris em 2023, por exemplo, a marca trabalhou com materiais derivados de resíduos de uva, algodão orgânico, alternativas vegetais ao couro e Kelsun, um fio produzido a partir de algas. Naquele desfile, 95% dos materiais foram apresentados como responsáveis.
A diferença está justamente aí: para Stella, sustentabilidade não aparece somente na comunicação depois que a roupa está pronta, ela começa na pergunta sobre do que a roupa pode ser feita.
A pesquisa continua
Para a primavera-verão 2027, a marca levou essa pesquisa ainda mais longe.
A coleção utiliza algodão orgânico e reciclado, seda e outros materiais de menor impacto. O preto de algumas peças foi obtido por meio de um pigmento produzido a partir de algas, reduzindo a dependência de pigmentos derivados de petróleo.

Também aparece o Brewed Protein, desenvolvido pela empresa japonesa Spiber. O material é produzido por fermentação e funciona como uma alternativa à lã e ao cashmere. A tecnologia já vinha sendo incorporada às coleções da marca desde 2026.
É um detalhe que importa porque revela uma mudança maior na conversa sobre sustentabilidade.
Não se trata apenas de perguntar se uma peça é “vegana” ou “reciclada”. A questão passa a ser como criar uma cadeia de materiais capaz de existir em escala, com desempenho e qualidade compatíveis com o luxo.
É também por isso que Stella tem pressionado outras grandes empresas do setor a investir nessas tecnologias. Pouco antes do desfile, ela participou da criação da Climate Pledge Fashion Coalition, ao lado da Amazon e da organização ambiental Canopy, reunindo pedidos de mais de 60 empresas para ajudar a levar materiais de menor impacto à escala industrial.
Uma assinatura que continua reconhecível
Seria fácil olhar para a coleção apenas pela mensagem ambiental, mas isso também reduziria o trabalho de Stella McCartney ao ativismo e deixaria de lado aquilo que ela insiste em colocar no centro: a roupa precisa funcionar como roupa.
A coleção SS27 recupera alguns dos códigos que acompanham a estilista há décadas: alfaiataria de ombros marcados, calças de cintura baixa, jeans, elementos esportivos, lingerie, transparências e vestidos fluidos.


A diferença está na maneira como esses códigos encontram o tema marinho.
Uma alfaiataria estruturada aparece ao lado de volumes que parecem inflados pelo vento. Barras criam desenhos de ondas. Vestidos acompanham o movimento do corpo. Peças transparentes deixam a pele e as camadas internas participarem da composição.



O resultado não tenta transformar a mulher em uma sereia literal.
O oceano funciona como linguagem, não como fantasia.
A questão ambiental está presente, mas não domina a roupa, ela faz parte da construção da coleção.
De Paris para o futuro
Há ainda uma camada simbólica no fato de Stella celebrar seus 25 anos justamente em Paris.
Nascida em Londres, formada pela Central Saint Martins e revelada internacionalmente depois de assumir a direção criativa da Chloé em 1997, Stella fundou sua própria maison em 2001 e escolheu Paris para apresentar sua primeira coleção.
A marca atravessou diferentes estruturas empresariais ao longo desse período. Em 2019, Stella recomprou a participação que tinha na empresa em parceria com a Kering. Cinco anos depois, encerrou também sua parceria com a LVMH, recomprando a participação minoritária do conglomerado. Ela deixou de ter o grupo como sócio, mas permaneceu como consultora de sustentabilidade para Bernard Arnault e sua equipe.
A independência empresarial chega, portanto, no mesmo momento em que a discussão sobre sustentabilidade ganha uma escala que ultrapassa a própria marca.
E Stella sabe disso.
Depois do desfile, ela voltou a pedir que grandes grupos de luxo invistam no desenvolvimento e na escala de materiais de menor impacto. Para uma marca pequena, diz a estilista, a mudança na cadeia de fornecimento depende também de quem tem poder de compra suficiente para fazer essas tecnologias chegarem à indústria.
É uma posição coerente com a trajetória que começou há 25 anos.
Stella McCartney não inventou a sustentabilidade na moda, o que ela fez foi insistir nela antes que fosse conveniente.
Em Paris, no aniversário de 25 anos da maison, essa insistência ganhou a forma de ondas, golfinhos, algodão, algas, biotecnologia e uma pergunta que permanece depois que a última modelo deixa a passarela: quando olhamos para o oceano, estamos vendo vida ou apenas aquilo que podemos consumir?

Leia também: Dentro do sistema, a mudança na moda ainda é possível?
Sobre a autora
Mayara Morelli é jornalista, publicitária e editora-chefe da Pitaya mag. Sua especialidade é moda e comportamento, mas a curiosidade costuma levá-la para outros lugares. Escreve sobre tudo aquilo que merece uma boa conversa. Ao longo da carreira, entrevistou artistas, escritores, estilistas e criadores de diferentes partes do mundo. Estudou moda na Università Bocconi, trabalhou com marcas do universo joalheiro no Brasil e em Dubai e atualmente aprofunda seus estudos em cultura e pensamento moderno e pós-moderno pela Wesleyan University. Fora da redação, divide a vida com quatro cachorros que ocupam muito mais espaço do que deveriam. E exatamente o espaço que merecem.
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