Fashion Weeks

Ganni volta à infância sem abandonar a responsabilidade que construiu sua marca

Para a primavera-verão 2027, Ditte Reffstrup levou a Ganni de volta à infância, enquanto a marca segue avançando em uma estratégia de responsabilidade que já dura sete anos

Ganni voltou a Paris com uma coleção que olha para um período em que vestir-se ainda era uma brincadeira.

Ditte Reffstrup, diretora criativa da marca, partiu das lembranças de infância para criar a primavera-verão 2027. A referência apareceu nas proporções, nas cores, nas peças que podem ser combinadas de diferentes maneiras e na vontade de não pensar demais sobre como uma roupa deveria ser usada.

Na apresentação, o cenário ajudava a entrar nesse universo. Criado pela fotógrafa e designer de móveis Ana Kraš, o espaço tinha uma cama, uma grande televisão, geladeiras cobertas de ímãs e um sofá enorme que criava uma espécie de distorção de escala. A coleção seguia a mesma lógica.

Mas existe outra história acontecendo na Ganni há alguns anos e que vale ser lembrada quando falamos da marca: a responsabilidade ambiental.

E ela não aparece como tema principal desta coleção.

Ganni apresenta sua coleção primavera-verão 2027 em Paris

Uma marca que não se chama sustentável

A Ganni faz questão de não usar o termo “marca sustentável”.

Em seu relatório de responsabilidade, a empresa afirma que nunca se apresentou dessa maneira porque considera impossível falar em sustentabilidade absoluta dentro da indústria da moda. Em vez disso, trabalha com a ideia de responsabilidade e publica relatórios anuais sobre seus avanços e dificuldades.

A primeira estratégia formal da marca nessa área começou em 2019, com o GANNI GAMEPLAN.

Desde então, a empresa passou a organizar metas relacionadas a pessoas, planeta, produto e prosperidade. Em 2026, iniciou o Gameplan 3.0, estratégia que seguirá até 2028.

Essa escolha de linguagem importa.

Sustentabilidade virou uma palavra tão usada pela moda que muitas vezes perdeu precisão. A Ganni prefere admitir que ainda existe trabalho a fazer.

A coleção é outra história

Ganni apresenta sua coleção primavera-verão 2027 em Paris

Nada disso significa que a primavera-verão 2027 seja uma coleção criada em torno da sustentabilidade.

O assunto desta vez é infância.

A coleção foi pensada como um conjunto de peças que podem ser misturadas, modificadas e usadas de diferentes maneiras. Mangas cropped, amarrações e elementos ajustáveis aparecem ao lado de saias transparentes sobre outras estampadas, tricôs pequenos, jeans desgastados com patches de jacquard e muitos babados.

Os sapatos de salto fino remetem à lembrança infantil de experimentar os sapatos da mãe.

As cores também entram nesse jogo: tons de sorvete aparecem ao lado de vermelho cereja intenso.

É uma coleção divertida sem tentar parecer conceitualmente complicada.

A liberdade de não combinar

Ganni apresenta sua coleção primavera-verão 2027 em Paris

A ideia de Reffstrup é simples: quando crianças brincam de se vestir, elas não costumam pensar se as peças combinam, se determinada proporção é adequada ou se alguém vai aprovar a escolha.

A Ganni levou essa liberdade para a apresentação.

As roupas podem ser combinadas de diferentes formas e algumas foram desenvolvidas para permitir que a própria pessoa decida como quer usá-las. A coleção funciona quase como um conjunto de peças de montar.

Essa lógica combina com uma característica que ajudou a construir a identidade da Ganni: roupas que parecem feitas para entrar na vida real.

Existe uma diferença entre criar uma coleção comercial e criar uma coleção que aceita ser usada de muitas maneiras. A segunda possibilidade aparece com força nesta temporada.

Responsabilidade sem discurso pronto

É justamente por a sustentabilidade não ser o tema do desfile que o histórico ambiental da Ganni merece ser colocado aqui.

A marca passou os últimos anos tentando transformar responsabilidade em estratégia de negócio, e não apenas em discurso de campanha. Seu próprio relatório reconhece avanços e problemas e apresenta a inovação de materiais, a ação climática e o desenvolvimento de produto como partes desse processo.

Isso não torna a Ganni uma marca “sustentável”.

E ela mesma não diz que é.

O que existe é uma tentativa de diminuir impacto e tornar esse processo mensurável. Para uma indústria acostumada a apresentar cada nova coleção como uma solução para um problema enorme, essa diferença de discurso é importante.

Na primavera-verão 2027, Ganni não precisou transformar a sustentabilidade em tema para continuar carregando essa história.

A coleção preferiu falar de outra coisa: crescer, brincar, experimentar e vestir uma roupa sem precisar seguir uma regra.

Pode ser que seja justamente essa liberdade que faça a Ganni continuar reconhecível.

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Redação Pitaya

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