Fashion Weeks

Jonathan Anderson está reescrevendo a mulher Dior

Em sua sétima coleção feminina para a maison, o designer deixa os códigos históricos de Dior mais leves, fluidos e pessoais

Jonathan Anderson está começando a construir uma mulher Dior.

A frase pode parecer definitiva para uma trajetória que ainda tem pouco mais de um ano, mas a primavera-verão 2027 deixa mais claro o caminho que o designer está escolhendo para a maison.

A Bar Jacket continua ali. As saias-corola continuam ali. A cintura marcada e a referência ao New Look também aparecem.

Jonathan Anderson está reescrevendo a mulher Dior

Jonathan Anderson está reescrevendo a mulher Dior

Só que tudo parece ter perdido um pouco do peso histórico.

As estruturas ficaram mais leves. A alfaiataria ganhou transparência. As saias aparecem em camadas de chiffon. Camisas e jaquetas foram combinadas com peças fluidas. Há vestidos românticos, mas também roupas mais práticas e uma sensualidade menos calculada.

Anderson não está abandonando Dior. Está tentando descobrir quanto do passado ainda precisa permanecer visível.

Uma noz na mão

Jonathan Anderson está reescrevendo a mulher Dior

A inspiração da coleção começou com um objeto pequeno.

Os convites para o desfile traziam duas nozes wénwán, associadas a uma tradição chinesa em que elas são giradas nas mãos até desenvolverem uma superfície polida pelo uso.

A imagem das nozes funciona bem como metáfora para o que Anderson faz com os códigos da Dior nesta coleção: a estrutura permanece, enquanto sua aparência é modificada pelo tempo e pelo uso.

O mesmo acontece com a Bar Jacket e as saias-corola. Elas continuam reconhecíveis, mas aparecem em materiais, proporções e construções diferentes.

Na passarela montada sobre o Bassin Octogonal, no Jardin des Tuileries, Anderson apresentou 65 looks. O chiffon apareceu como um dos materiais centrais, acompanhado por efeitos aquarelados, flores tridimensionais e peças que deixavam o corpo mais livre.

O New Look perde rigidez

Jonathan Anderson está reescrevendo a mulher Dior

Desde que chegou à Dior, Anderson vem trabalhando com um problema que parece simples, mas não é: como mexer em alguns dos símbolos mais conhecidos da moda sem transformá-los em fantasia histórica?

Nesta temporada, a resposta está na proporção.

As saias-corola, um dos elementos associados à silhueta criada por Christian Dior em 1947, aparecem menores, transparentes e construídas em várias camadas. A Bar Jacket perde parte de sua rigidez e passa a ser feita em versões mais leves e semitransparentes.

O resultado é uma Dior menos solene.

Isso também aparece na combinação de roupas. Um blazer pode aparecer sobre uma saia transparente. Um vestido delicado pode ser acompanhado por peças mais cotidianas. A coleção aproxima códigos que tradicionalmente aparecem em contextos diferentes dentro do guarda-roupa Dior.

Jonathan Anderson está reescrevendo a mulher Dior

Anderson define os contornos de sua mulher Dior ao suavizá-los.

Uma mulher que não precisa parecer Dior o tempo inteiro

É aqui que o trabalho de Anderson fica mais interessante.

Christian Dior construiu uma imagem muito específica de feminilidade. Anderson não está simplesmente repetindo essa imagem com novas roupas. Está testando o que acontece quando aqueles códigos entram na vida de uma mulher contemporânea.

Por isso a coleção não depende apenas de vestidos de noite ou da silhueta New Look. O guarda-roupa masculino também entra nessa construção. Anderson levou para a coleção feminina casacos inspirados nos frock coats, camisas, tops de pijama, smoking jackets e peças utilitárias, aproximando elementos que já vinham aparecendo em seu trabalho no menswear da Dior.

Jonathan Anderson está reescrevendo a mulher Dior

Jonathan Anderson está reescrevendo a mulher Dior

Há peças que parecem ter saído de um guarda-roupa cotidiano. Há transparência, camadas, calças, jaquetas e combinações menos previsíveis. A roupa continua reconhecível como Dior, mas deixa de parecer uma reprodução de Dior.

É nesse ponto que a sétima coleção feminina de Anderson para a Dior se torna importante.

Anderson está começando a separar duas coisas que costumam ser confundidas: o arquivo de uma maison e a identidade de uma mulher que veste essa maison hoje.

A mulher Dior que ele está construindo ainda está em formação.

Ela carrega a Bar Jacket, o New Look e a memória da maison, mas pode vestir esses códigos de outra maneira.

Anderson não está apagando a mulher de Christian Dior. Está criando espaço para que outra mulher também exista dentro da Dior.

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Mayara Morelli

Sobre a autora

Mayara Morelli

Mayara Morelli é jornalista, publicitária e editora-chefe da Pitaya mag. Sua especialidade é moda e comportamento, mas a curiosidade costuma levá-la para outros lugares. Escreve sobre tudo aquilo que merece uma boa conversa. Ao longo da carreira, entrevistou artistas, escritores, estilistas e criadores de diferentes partes do mundo. Estudou moda na Università Bocconi, trabalhou com marcas do universo joalheiro no Brasil e em Dubai e atualmente aprofunda seus estudos em cultura e pensamento moderno e pós-moderno pela Wesleyan University. Fora da redação, divide a vida com quatro cachorros que ocupam muito mais espaço do que deveriam. E exatamente o espaço que merecem.

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