Fashion Weeks

MaXhosa Africa leva ancestralidade sul-africana à passarela oficial de Paris

Na estreia oficial da marca no calendário da Paris Fashion Week, Laduma Ngxokolo apresentou uma coleção sobre identidade, herança cultural e o projeto de construir um luxo africano com alcance global

Durante 16 anos, Laduma Ngxokolo trabalhou para colocar a MaXhosa Africa no lugar que ocupou nesta segunda-feira, 28 de setembro: a programação oficial da Paris Fashion Week.

A espera terminou com uma coleção que olha para a cultura sul-africana sem transformá-la em peça de arquivo. Batizada de Izihlwele Zivumile, expressão que pode ser traduzida como “os ancestrais aprovaram”, a temporada de verão 2027 parte das raízes do próprio Ngxokolo, da cultura Mpondo e de referências ligadas à história de sua família. A planta Cape Aloe, comum na região de Eastern Cape, também aparece como símbolo da coleção.

A escolha do título diz bastante sobre o momento da marca. Para Ngxokolo, a estreia não representa apenas uma conquista dentro da agenda de Paris. É a consequência de um trabalho construído ao longo de anos, primeiro em apresentações menores e, agora, diante de uma indústria que durante muito tempo ofereceu pouco espaço para marcas africanas.

“Cultura é viva porque as pessoas estão vivas”, afirmou o designer à Fédération de la Haute Couture et de la Mode. Para ele, a tarefa da MaXhosa não é preservar a cultura como algo parado no passado, mas colocá-la em movimento. A coleção segue exatamente essa direção: referências profundamente ligadas à África do Sul aparecem em uma linguagem pensada para o mercado internacional.

Uma marca criada a partir da própria história

MaXhosa Africa

A MaXhosa nasceu em 2010 com uma relação direta com a cultura Xhosa e com a tradição do tricô. Desde o início, Ngxokolo encontrou no trabalho com fios uma maneira de investigar identidade, memória e pertencimento.

Essa relação permanece na coleção apresentada em Paris. Os padrões geométricos associados ao trabalho artesanal Xhosa aparecem em diferentes peças, ao lado de formas contemporâneas e referências que ampliam o repertório da marca. A passarela trouxe conjuntos de tricô, saias plissadas, tops, vestidos, alfaiataria e peças de streetwear. Havia cor e padronagem, mas também momentos de maior contenção.

O resultado não tenta esconder de onde veio. E essa é uma das características mais interessantes do trabalho de Ngxokolo.

Em entrevista à organização da Paris Fashion Week, o designer foi direto ao falar sobre sua ambição: a MaXhosa quer construir uma casa de luxo global a partir da África. A marca não pretende diminuir suas referências africanas para se tornar internacional. A intenção é levar essas referências para o mercado global mantendo sua origem e sua complexidade.

 

A África também produz luxo

MaXhosa Africa

A estreia aconteceu na residência oficial do embaixador da África do Sul na França. O cenário ajudou a reforçar a dimensão institucional daquele momento, mas foi a própria coleção que sustentou a mensagem.

A produção da MaXhosa também está ligada à indústria sul-africana. A marca possui duas fábricas de tricô, em Johannesburg e East London, enquanto a lã utilizada em seus tricôs é produzida na região de Eastern Cape. Para Ngxokolo, desenvolver uma marca de luxo também significa mostrar que a África do Sul pode produzir internamente peças de alta qualidade e fortalecer sua própria indústria têxtil.

No desfile, essa perspectiva apareceu junto da ideia de um continente diverso. Algumas peças traziam nomes de países africanos em suas estampas e etiquetas. Os óculos usados por parte dos modelos foram criados pelo artista queniano Cyrus Kabiru a partir de materiais descartados. O músico sul-africano Sjava participou da apresentação e assinou a trilha sonora.

A presença de diferentes referências não transforma a coleção em uma tentativa de representar toda a África. Ngxokolo já havia ampliado esse debate em temporadas anteriores, e agora trabalha com uma ideia mais abrangente de luxo africano, sem reduzi-lo a uma única identidade.

 

Chegar a Paris sem deixar a origem para trás

Existe uma diferença importante entre levar uma cultura para a moda internacional e adaptar uma cultura para que ela seja facilmente consumida por esse mercado.

Ngxokolo escolheu a primeira possibilidade.

A MaXhosa chega a Paris com uma identidade construída na África do Sul e com a intenção de ampliar seu alcance. A Vogue observou que esta foi a coleção da marca com maior potencial de circulação internacional até agora. O próprio designer falou sobre planos de expansão para cidades como Dubai, Paris, Londres e Nova York.

O desfile também expôs uma questão que ainda atravessa a indústria: a representação africana segue pequena dentro das grandes semanas de moda. Ngxokolo contou à Reuters que chegou a considerar levar outros designers africanos para Paris, mas não tinha recursos para isso. “Estamos sub-representados como continente africano”, afirmou.

Por isso, a entrada da MaXhosa no calendário oficial importa em duas escalas. É um passo para uma marca que passou 16 anos construindo seu próprio vocabulário e também uma abertura para uma indústria que ainda disputa espaço nas principais plataformas internacionais.

No fim, Izihlwele Zivumile fala de uma aprovação que não veio de Paris.

Veio de casa.

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